Vangelis: fim de odisseia

Roberto Muggiati escreve sobre a obra do compositor grego e de um saxofone soturno que sopra notas melancólicas, como se fossem de luto

Para ouvir ao som de Vangelis em Blade Runner Love Theme

Arte: Daniel Kondo

Mais um que vai carregado pela Covarde-19: Evángelos Odysséas Papathanassíu, em grego: Ευάγγελος Οδυσσέας Παπαθανασίου. Com o nome do meio inspirado pelo herói de Homero, o grego nascido em Volos foi um dos mais bem sucedidos autodidatas da história. Já compunha aos quatro anos, dispensou as tradicionais aulas de piano, embora tenha estudado música clássica e regência – e também pintura – na Academia de Artes de Atenas. Aos 20 anos formou um grupo pop, o Formynx, que, apesar do seu sucesso, acabou três anos depois. Sua participação na rebelião estudantil de 1968 o empurrou para o exílio em Paris. Lá fundou a banda de rock progressivo Aphrodite’s Child, com os compatriotas Demis Roussos e Lucas Sideras. Em meados dos anos 70, Vangelis concentrou-se mais em sua carreira solo, aprofundando-se no universo da música eletrônica. Ganhou o Oscar de trilha sonora em 1982 com Carruagens de Fogo. No mesmo ano, assinou a trilha do cult de Ridley Scott Blade Runner. Vangelis fez 50 álbuns e teve participações importantes em filmes do oceanógrafo Jacques Cousteau e em séries espaciais de TV dirigidas por Carl Sagan.

Uma coisa que pouca gente sabe, ou lembra: Vangelis marcou com seus temas muitos programas da televisão brasileira. Seu Hymne levou Xuxa às lágrimas no seu programa de despedida em 1992. Teve suas trilhas usadas à exaustão no SBT (em Nações UnidasTroféu Imprensa e no Domingo Legal). Deu sorte à seleção brasileira na Copa de 2002, aquela do nosso saudoso pentacampeonato: foi dele o hino oficial do evento encomendado pela FIFA.

Tenho uma relação especial com Blade Runner, que revejo pelo menos uma vez a cada ano que passa (pô, o futurista Caçador de Androides já está fazendo 40 anos! Foi lançado no Brasil em 26 de julho de 1982…). E o tema de amor da trilha é um favorito também. Nos comentários do YouTube, um ouvinte destaca: “É notável como Vangelis capta à perfeição um aspecto do novo amor raramente comentado: a tristeza. Ela geralmente ocorre no final de um relacionamento. Ao invés de transmitir a descoberta radiante, ou o jorro de paixão, como é típico, o saxofone soturno sopra notas melancólicas, como se fossem de luto, lembrando ao ouvinte que o amor tem muito a ver com entrega, entrega da individualidade e aceitação da vulnerabilidade inerente”.

Por muito tempo cheguei até a pensar que aquele sax langoroso fosse produzido por um sintetizador. Depois de pesquisar mais fundo, descobri que era de um saxofone físico, presencial, Dick Morrissey – sucessor de outros grandes tenores, como Ronnie Scott e Tubby Hayes – que eu costumava ouvir ao vivo em minha temporada londrina (1962-65) na BBC de Londres.

Deixo vocês aqui. Vou rever Blade Runner pela primeira vez na pandemia. E rever também a beleza misteriosa de Sean Young (como mostra a ilustração de Daniel Kondo) e reouvir o belo tema de amor criado por Vangelis.

Nenhum pensamento

  1. Cheguei a ser fã do Vangelis na década de 80. Seus discos costumavam ter preço acima da média, e nem sempre era fácil achá-los. Não conheço muito de sua obra além de Carruagens de Fogo e Blade Runner, sendo que a música principal da trilha sonora deste último, tal qual o filme, é magistral. Mais uma perda, como tantas outras, a ser sentida.

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