Monk solo

Os dias isolados e ausentes de um gênio do jazz

Para ser lido ao som de Thelonious Monk em Crepuscule with Nellie

Foto: Reprodução

Há 40 anos, em 17 de fevereiro de 1982, ocorria a segunda morte de Thelonious Monk. A primeira havia sido pouco mais de uma década antes, quando – por motivos até hoje insondáveis – ele se recolheu a um silêncio muito maior que o que sempre o caracterizou.

Monk desapareceu de cena no começo dos anos 70. A justificativa teria sido por motivos de saúde – nunca devidamente esclarecidos. A partir de então, ele fez apenas um pequeno número de aparições durante a última década de sua vida. As derradeiras gravações de estúdio como foram em novembro de 1971 para o selo inglês Black Lion à frente de um grupo, o Giants of Jazz, que incluía Dizzy Gillespie, Kai Winding, Sonny Stitt, Al McKibbon e Art Blakey. Monk estava com apenas 53 anos e se mantinha calado até mesmo diante dos parceiros de palco. Sua única forma de se comunicar era através da música. Era também um apreciador dos jogos de dama e de xadrez.

Em Thelonious Monk: Straight, No Chaser, documentário realizado em 1988, é levantada a hipótese de que comportamento peculiar de Monk teria a ver com algum distúrbio mental. Nada foi diagnosticado de forma muito clara e muitas vezes a maneira que Monk se comportava era vista de modo excêntrico. Mesmo quando ele era frequentemente internado, Monk era mais tratado como uma figura esquisita do que como um doente. O próprio filho dele lembrou anos depois que em determinados momentos ele nem era reconhecido pelo pai. Nunca houve um diagnóstico mais detalhado sobre qual doença o pianista poderia sofrer – e, provavelmente, ele nunca também recebeu um tratamento adequado.

Quando já estava debilitado demais, Monk pôde contar com quem nunca havia lhe faltado, a sua amiga Pannonica de Koenigswarter. Foi a baronesa quem providenciou que Monk ficasse como hóspede em sua casa, em Weehawken, Nova Jersey, casa de sua patrona e amiga de longa data. Além dela, a única presença nestes anos finais foi sua mulher, Nellie. Não há registro de que Monk tenha recebido visitas de outros amigos músicos, tampouco que tenha se aproximado do piano que existia na casa. Os dias se repetiam até o último, quando Monk não resistiu a um derrame.

***

Para Nellie, Monk compôs Crepuscule with Nellie, em maio de 1957, assim mesmo, com a primeira palavra em francês, não em inglês. A alteração foi sugerida por Pannonica. A primeira gravação foi realizada com Monk à frente de um septeto em Monk’s Music

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

Nenhum pensamento

  1. A gravação de 71, citada na ótima matéria, oriunda de uma apresentação em Berlim, é um dos mais significativos registros de jazz, seja pelo time de elevada grandeza que forma o sexteto, não à toa chamado de Giants Of Jazz, quanto pelo repertório. Não foi em tantas ocasiões assim que músicos do quilate de Dizzy Gillespie, Art Blakey, Thelonious Monk, Sonny Stitt, Al Mckibbon e Kai Winding foram juntados num mesmo grupo. Tenho em CD pela Emarcy / PolyGram, comprado há mais de 30 anos numa loja, cujo nome agora não lembro, que existia na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, na quadra entre as ruas Santa Clara e Figueiredo de Magalhães, lado onde correm os ônibus. Altamente recomendável para quem não tem e conseguir encontrá-lo. Infelizmente, no Brasil, são poucos os recursos atuais para a compra de álbuns de jazz, sem envolver importação. Não temos por aqui, por exemplo, uma Fnac, amplamente encontrada em diversas cidades europeias e com catálogo muito bom. Voltando ao Monk, mesmo participativo ao piano em suas últimas aparições, era visível um certo distanciamento em relação aos demais músicos, provavelmente em decorrência de algum distúrbio mental que o tenha afetado nos últimos anos da vida. Foi um músico peculiar, não compreendido inicialmente por parte da crítica e público devido à forma de tocar, pontilhada por espaçamentos, a batida nas teclas e a forma como utilizava as mãos, contrariando a forma clássica de tocar o piano. Nada disso, porém, veio a ser um impedimento para ele tornar-se um merecido expoente do jazz. Essas peculiaridades o tornam inconfundível. O registro em CD duplo Monk Alone, compilação das gravações solo do pianista pela Columbia no período 62-68, também é obra superior, merecedora de constar nas prateleiras de qualquer apreciador do jazz de excelência.

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