Onde estão as mulheres do jazz?

No dia internacional da mulher, Cláudia Beylouni Santos questiona a pequena presença feminina no protagonismo do jazz

Para ser lido ao som de Que Sera Sera, por Marcus Miller e Selah Sue

Selah Sue (Foto: Osi, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons)

Onde estão as mulheres do jazz? Eu própria nunca havia parado para me perguntar isso, até presenciar uma conversa entre grandes damas dessa música, quando estava realizando o sonho de passar dias imersa, da manhã à noite, em uma profusão de sonoridade jazzística da melhor qualidade, navegando no Blue Note at Sea, pouco antes da pandemia, no começo de 2020. Em um navio imenso, cravejado de estrelas coroadas por diversos prêmios Grammy que mal cabiam nos inúmeros palcos, havia três mulheres em destaque. TRÊS.

O Blue Note at Sea é um cruzeiro produzido para amantes do jazz desfrutarem da experiência de vivê-lo em constantes apresentações de diferentes artistas em diferentes palcos e situações dentro da nave. A grande angústia de quem está no barco é escolher qual apresentação saborear, porque são simultâneas, com gigantes consagrados e com gigantes se consagrando, todos fazendo performances memoráveis, de clássicas a inusitadas, a cada instante, ao mesmo tempo. Há outros cruzeiros similares, com um direcionamento estilístico um pouco distinto ou mais específico, sendo que amigos que tiveram a oportunidade de viajar nos demais concluíram que o Blue Note at Sea é aquele cuja curadoria apresenta aos passageiros um cardápio musical mais diversificado dentro do jazz, mais dinâmico e interessante, oferecendo exemplares de várias tendências, contando inclusive com artistas que não são afiliados à gravadora.

Paralelamente às apresentações musicais, há workshops, entrevistas e debates envolvendo questões como produção, realidade dos streamings e como isso afeta os musicistas etc. Nesse contexto, e na onda do feminismo como um tópico relevante, houve um bate-papo em que foi proposto que as mulheres falassem sobre o que desejassem. A conversa foi capitaneada por três grandes das pouquíssimas mulheres que ali no cruzeiro furavam o cerco de gênero dentro de um elenco composto de dezenas de outros musicistas machos, fossem principais, fossem apoio. A conversa teve lugar no teatro principal, e eu me choquei ao perceber agora vazio aquele imenso palco, o mesmo que, na hora dos shows, transbordava repleto de artistas. Quando o assunto era o protagonismo feminino, mal o miolinho do seu centro nem bem estava preenchido por míseras três artistas mulheres – ainda que gigantes, cada uma à sua maneira.

Ficarei devendo a pesquisa de números e estatísticas; por ora, a autoevidência dos fatos permite o luxo de dispensar precisão: salta aos olhos em qualquer palco de jazz a que se assista a disparidade e, no mais das vezes, a total ausência da contribuição imediata de mulheres à música. À plateia, seria curioso desvendássemos a natureza média da motivação de presença das assistentes – mas isso é assunto para se desfiar em outra frente de reflexões.

É irônica a contradição que se constata quando um fenômeno musical nascido da proscrição, arrombando barreiras classistas e racistas, mantém intactas, ainda hoje, as notas sexistas que denunciadas desde a sua origem.

Na conversa, com participação da plateia, um dos temas a respeito dos quais Niki Haris, Melody Gardot e Cyrille Aimée deram seus pontos de vista, foi o movimento Me Too.  Enquanto Melody chamou à responsabilidade as próprias mulheres, conclamando consciência do poder de dizer não a situações como os famigerados testes de sofá, Niki lembrou que nem todas têm condição real de negativa, diante de premências tais como sustento de pessoas sob seus cuidados. Durante o debate, as três mulheres, com trajetórias e estéticas artistas distintas, exibiram claramente a complexidade da vida como é – com inafastável repercussão nas possibilidades reais de inclusão e realização das faculdades quando é feminino o gênero da artista.

Mulheres ao mar

Vivi a experiência do cruzeiro, que acalentava fazia muito tempo, junto com minha filha, excelente parceira, que enriquece o prazer compartilhando conhecimento e experiências musicais, inclusive especificamente sobre o jazz (cá entre nós, de modo a dar inveja a muito barbado que se diz entendido). Meus pais, que introduziram o ouvir música como um estado constante na nossa maneira de viver e nos transmitiram sua paixão por jazz, foram convencidos a se juntarem à nossa empreitada.

Dada a multiplicidade de apresentações simultâneas, acabamos por assistir a boa parte delas separadamente, cada um escolhendo conforme o gosto particular o que menos fosse admissível perder. Levando isso em consideração, pudemos constatar que o ambiente, festivo e caloroso, era acolhedor e absolutamente respeitoso às mulheres que por ali transitamos livremente e desacompanhadas – o que nossa experiência sabe que não seria regra em outros lugares. Não houve o menor indício de mácula por machismo no tratamento que nos foi dispensado.

Após a programação oficial, entrávamos as madrugadas nos deliciando com as “home made jam” sessions, conduzidas pelo Robert Glasper, num clima esfuziante em que palco e plateia embolavam-se em uma coisa só, em rodízio ou simultaneamente, quando muitas vezes o tablado não conseguia comportar a quantidade de musicistas em cena. Estrelas e mortais compartilhavam o fazer música – e, nessas jams, apinhadas de fazedores de música, lembro de quatro, talvez cinco mulheres apresentando sua arte.

Em terra firme

A bem da verdade, quando conheci o Blue Note de Nova York, foi para ouvir a uma diva do jazz, mas no Birdland e no Iridium a programação era predominante com homens. Os porto-alegrenses também são testemunhas da marcante inferioridade numérica de jazzistas mulheres, visitantes ou locais, a que aqui costumeiramente se podem assistir, seja no POA-JAZZ Festival, nos teatros, ou nas casas de música (Ave, Bethy Krieger!). Algo, aliás, que soa inexplicável para uma localidade que conta com o primor de excelentes professoras de música.

Puxando pela lembrança, só agora me apercebo que, quando furunguei pelas ruas de Edimburgo e dei de cara com o legendário The Jazz Bar, tão naturalizada essa lacuna estava em mim: sequer cogitei questionar a ausência de mulheres na deslumbrante jam que tradicionalmente às terças-feiras acontecia, reunindo músicos de diversas tendências e diferentes partes do mundo em improvisações de arrepiar o epitélio ao avesso. Espero não estar sendo traída pela memória, já lá se vão cerca de cinco anos ou mais, mas realmente não lembro de uma mulher sequer subir ao palco durante a jam no The Jazz.

Especificamente por hoje, ao menos, isso será corrigido: haverá na casa uma celebração ao Dia Internacional da Mulher mediante a qual lá se apresentarão artistas mulheres executando vários gêneros, desde folk, roots, Cajun, jazz e soul, sob organização da anfitriã Ali Affleck. Este evento no The Jazz Bar homenageia a Krewe of Muses, primeira organização de Mardi Grass em New Orleans que composta toda de mulheres e com acesso não restrito.

Todos ganharíamos, sobretudo a arte, se essa vitrine ao talento e trabalho musical de mulheres fosse expandida. Foi de chorar de lindo ver no Blue Note at Sea a excepcionalidade de um dinossauro como o queridésimo Marcus Miller surpreender a audiência nos presenteando com uma parceira de apresentação, cantora e compositora, a belga Selah Sue – feições quase de menina em seus pouco mais de trinta anos, condensando em potência de interpretação tudo o que jamais se imaginaria que coubesse em seu físico de proporções mignon. Aquele Titã jurássico escoltando com sua força imorredoura o brotar do novo nascente com um vigor furioso e à prova de datação temporal levantou os ouvintes aos berros de comoção. 

Percebia-se que muitas pessoas da plateia tinham vínculos pessoais e até familiares com os artistas da line up e parte significativa da assistência mostrava-se notadamente um grupo com vivência imersa desde as raízes da cultura do universo musical do jazz. Quando aquela loirinha miudinha agigantou-se em sua voz, incorporando uma interpretação que lhe conferiu toneladas em dimensões, aquelas senhoras afro-americanas que mostravam em sua expressão terem sido criadas dentro da familiaridade com o suprassumo da excelência jazzística, elas explodiram em aplausos e gritos de estímulo. Um coro feroz de “Come on, girl! Come on!” somou júbilos ao encanto que se materializou no teatro. Para muito além de gênero, para muito além de cor, para muito além de idade, o que havia ali sendo criado, servido e devorado, era música, pura e simplesmente música, jazz eclodindo a partir da quinta essência do humano. E mesmo em uma produção com esse alcance de visão, no qual uma preciosidade como tal se fez possível, mesmo ali era ínfima a representatividade feminina em proporção quantitativa, como ficou escancarado no vazio do palco durante o bate-papo que contou com as TRÊS jazzistas contrastando com um elenco majoritariamente masculino.

Abaixo o anacronismo

Se o sexismo que predominava na era em que surgiu o jazz pode explicar as barreiras havidas para as mulheres musicistas naquele momento, isso em 2022 já não é mais cabível. Lá, por um lado, grandes divas vieram de ocupações que a sociedade condena, como prostituição, ou de ofícios subvalorizados, tais como o de camareira etc. Por outro, só no ambiente mundano do jazz foi permitido o exercício musical a mulheres de origem humilde ou segregadas pela cor. Mas aqui no século 21, onde se escondem as netas jazzistas das mulheres que queimaram sutiã? Por que a mulher que agora pode usar fio dental na praia não nos mostra sua música?

A música é inerente ao ser humano, e o jazz é a musicalidade visceral da existência que subjaz a qualquer gênero. Não se poderá conceber qualquer explicação biológica para o tolhimento da expressão feminina neste âmbito musical, senão que se cogite uma barreira cultural ter sido esquecida de ser transposta. Um ser que concebe vida, que recebe a vida do outro explodindo e se esparramando em gozo dentro de si, que se transborda em prazer espírito-carnal levada por sensações táteis e emoções, como um ser com essa potência possa ser alijado da explosão de êxtase de existência esparramado em música dentro do seu âmago? Onde estão as mulheres do jazz?

Nenhum pensamento

  1. Minhas felicitações, Sra. Cláudia Beylouni. Matéria bem complexa. A sua pergunta final não permite resposta fácil, ou pronta, e nem quero aqui ter a pretensão de esclarecer muita coisa, não indo além de adicionar uma ou outra informação. E se o faço é porque a sua abordagem propicia a outras vozes também se levantarem, o que pode tomar como elogio. Primeiramente, a parabenizo pela paixão que, nitidamente, percebe-se que a senhora tem pelo jazz. Infelizmente, aspectos comerciais sempre estão a suplantar outros interesses, e é assim que, em parte, podemos justificar, ainda que não satisfeitos, um certo esvaziamento que o jazz sofreu nas últimas décadas, apesar de sabermos que há correntes de resistência mundo afora. O AmaJazz é prova disso. Desde sempre as mulheres têm precisado lutar para conquistar maiores direitos e buscar igualdade aos homens, seja na literatura, música, esportes, política, trabalho e na vida cotidiana, de um modo geral. Já na antiguidade, os gregos, ao criarem a mitologia, ainda que dando amplos poderes tanto às divindades masculinas quanto às femininas, escolheram a um homem, Zeus, como o seu deus supremo. Aliado a isso, conta a mitologia que Gaia, divindade feminina que deu origem aos demais deuses mitológicos, como houvesse surgido do nada e nenhuma divindade masculina também houvesse surgido, como ela, de forma expontânea, se apropriou do amor do deus Urano, um de seus primeiros filhos gerados de forma expontânea (sem relação sexual), para gerar o deus Cronos, e, não satisfeita com a prole gerada, num segundo momento se apropriou do amor do filho-neto Cronos para gerar a segunda linhagem de deusrs, Zeus, Hades e Poseidon. E poderíamos lembrar de Edipo, de Sófocles, mas aqui cabendo a favor da Rainha Jocasta que ela não sabia ter casado com o próprio filho. Tudo isso produzindo, desde há muito tempo, uma certa tentativa de culpa e preconceito em relação à figura feminina. Para nos situarmos no mundo real, cito, como exemplo bem próximo, minha saudosa mãe, instrumentista (acordeom, violão), dona de bela voz, com participação num álbum de música popular da época, gravado há cerca de 70 anos, o qual, por descuido, foi perdido. Pois bem, minha mãe foi alvo de preconceito familiar durante certo tempo de sua vida. Ela sofreu maus tratos do primeiro marido, que não aceitava o projeto musical que se desenhava em sua vida. Os problemas de ordem familiar acabaram por levá-la a abandonar o a carreira mal iniciada e restringir a sua vida às atribuições de esposa, dona de casa e mãe dos meus irmãos mais velhos. Sentiu-se infeliz e o passo seguite foi buscar reconstruir a vida, separando-se para passar alvo de novo preconceito, por, momentânea ter se transformado em mulher separada. Ela passou a não ser aceita, por certo tempo, na casa de algumas de suas irmãs, por proibição dos maridos, até que entrando em cena o segundo marido, que veio a ser o meu pai, com certa dificuldade conseguir desfazer todo o mal-estar trazido pelos diversos preconceitos. As mulheres sempre precisaram se superar diante da supremacia masculina nos diversos campos das atividades. No jazz, a história está cheia de exemplos, como o de Billie Holliday. Já na época em que o jazz estava em grande evidência, as mulheres neste universo formavam uma nítida minoria, principalmente entre os instrumentistas. Quando, por exemplo, falamos nos expoentes do trumpete, logo são lembrados Louis Armstrong, Miles Davis, Chet Baker, Dizzy Gilespie, Art Famer, Freddie Hubbard, Clifford Brown, Wynton Marsalis e outros, mas quase nunca são citadas as trumpetistas. O mesmo ocorre em relação a quase totalidade dos demais principais instrumentos do jazz, como também o sax, e talvez nem tanto quando se trata do piano, mas ainda assim com nítida vantagem para a lembrança das figuras masculinas. Todavia, gradativamente as mulheres vêm reivindicando e conquistando com merecimento um espaço maior, quebrando esse estigma. Chegará o dia que as desigualdades ainda presentes serão páginas de nossa história. E que o jazz possa sempre fazer parte em nossas vidas.
    Saudação.
    Nelson Ferreira Machado

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