Já conheço os passos dessa estrada

João Carlos Rodrigues fala sobre sua decepção em não encontrar uma biografia em “Amoroso” e lembra de algumas vezes em que esteve com João Gilberto

Para ser lido ao som de João Gilberto em Amoroso

Foto: Tuca Vieira, CC BY-SA 2.0/Wikimedia Commons

É possível gostar de um livro e ao mesmo tempo ficar decepcionado? Pois essa é a sensação que me passou Amoroso – Uma Biografia de João Gilberto, de Zuza Homem de Mello. Por um lado, o livro é gostável, não só por ser bem escrito, mas porque o tema é importante: nunca será demais um livro sobre João Gilberto, a esfinge que mudou o rumo da música brasileira e boa parte da internacional. Por outro, é decepcionante pois apesar do subtítulo não é uma biografia.

O que será então? Arrisco que seja um estudo detalhado dos discos e shows do biografado, com detalhes técnicos musicais inéditos e surpreendentes dos bastidores. Temos o artista, mas falta o homem, o cidadão – que surge em raros momentos, principalmente no início. Estamos mais próximos do ensaio O Balanço da Bossa, de Augusto de Campos do que de uma biografia narrativa mais tradicional como a do Nelson Rodrigues pelo Ruy Castro ou dos capítulos de Chega de Saudade desse mesmo autor.

A elegância de Zuza omite saborosas possibilidades indiscretas como a que João Gilberto foi iniciado nas drogas pelo sambista Wilson Batista em pessoa na Rua do Lavradio em 1952; teve o apelido de “Zé Maconha” antes da fama; que percorria as madrugadas de Copacabana com Dolores Duran/Johnny Alf/João Donato até o sol nascer e outras peripécias. Inclusive as imprudências da cocaína, plena de anedotário por vezes hilariante como o que entreteve um camburão da polícia levando os meganhas cantarem em coro O Barquinho enquanto o traficante apavorado assistia tudo pela janela. Terminou bem, ainda bem. Faltam detalhes da estadia no México (onde se consultava com uma psicanalista chamada dra. Joyce, essa ele mesmo me contou) e conheceu a obra de Paramahansa Yogananda.

Sem maldades. Nada de gato pulando janela nem famosa cantora nordestina de voz estridente passando baralho por debaixo da porta carta por carta sem ele abrir. E também sem as dores e delícias de sua vida particular embora com poucas frases discretas o autor defina muito bem o caráter e o temperamento belicoso da moçambicana Maria do Céu Harris e da baiana Cláudia Faissol – principalmente dessa última, o que vem a ser muito esclarecedor.

Mas o leitor merece mais. Como Zuza faleceu na mesma noite em que deu ponto final ao livro, acredito que iria revê-lo e introduzir novos fatos. Infelizmente não deu tempo. Fica assim um livro meio incompleto, entretanto recomendável por que único.

Zuza chegou a me procurar me pedido historinhas. Eu só tinha uma, mas sugeri outras. Conheci e convivi com João Gilberto por volta de 1972/73. Eu morava em Nova York na casa do Fabiano Canosa onde Glauber, que eu já conhecia do Rio, aparecia por lá. Numa dessas, João Gilberto estava junto. Depois disso saímos várias vezes. Quando Glauber foi-se, João Gilberto manteve o contato e num certo momento eu ia levar comida para ele no Hotel Bolivar, em Central Park West. Diziam que ele nem abriria a porta, mas acho que foi com minha cara pois eu entrava e ficava de papo horas a fio. Isso aconteceu muitas vezes, no mínimo umas oito. Voltei para o Rio e ele logo me ligou querendo saber como a cidade estava etc, mas a casa não era minha e reclamaram da duração do telefonema. Ele nunca mais ligou nem mais o vi. Mas anos depois, quando eu produzi os CDs do Johnny Alf, ele soube e quis ouvir antes mesmo de sair. Dei uma cópia para o Otavio III entregar a ele. No período de Nova York, existe também a personagem Lucimar, uma telefonista brasileira que fazia as ligações internacionais dele gratuitas só pelo papo. Ela adorava soul e James Brown e eu trouxe uns LPs para ela, que era simpaticíssima, mas deve ter sido despedida quando descobriram.

Johnny Alf me contou disse que João Gilberto fumava muita maconha e eu acredito que foi a cannabis que abriu sua cuca e o fez criar a tal batida que viria de um baterista que esqueci o nome agora por sua vez saído do piano do Johnny Alf.

Do tempo que convivi com João Gilberto, posso testemunhar que ele, ao vivo, era bem vivaz, tinha papo para qualquer assunto, era engraçado, ficava dedilhando até que de repente toda a sala estava falando baixo no tom do violão. Um mago. Mas foi ficando cada vez mais autocentrado – mas aí eu já estava longe.

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