Presente cotidiano

Antônio Carlos Miguel reflete sobre a previsão de Luiz Melodia e pergunta: quem vai querer comprar música em tempos de nuvem?

Para ser lido ao som de Luiz Melodia em Presente Cotidiano

A foto de autoria de Antônio Carlos Miguel foi feita em 1979 no Polytheama, campo de Chico Buarque. ACM conta:
“A camisa que ele veste, lembrando a de seu Vasco da Gama, é a do Estácio Holly Futebol Clube, nome sugerido por Ricardo Augusto. Este, cantor e compositor baiano que morava então no Rio, foi parceiro de Melodia em muitas canções, incluindo Mistério da Raça, O Morro não Engana, Morena Brasileira, Frágil Força e O Sangue não Nega. Ricardo lembra que o time era formado pela turma do Estácio (Nelson Galinha, Carlinhos etc.) que jogavam muito, reforçado por Afonsinho, Ney Conceição e mais vários músicos, tipo Perinho Santana, Macalé e, eventualmente, com o próprio Ricardo. Assim, a equipe foi até a final do campeonato, quando uma regra casuística implantada na hora do jogo impediu os dois craques profissionais de jogar a final, porque era contra o time do Chico. ‘Daí perdemos em campo, depois de muita confusão do joga, não joga’, conta Ricardo.”

“Tá tudo solto na plataforma do ar /Tá tudo aí, tá tudo aí /Quem vai querer comprar banana? /Quem vai querer comprar a lama? /Quem vai querer comprar a grama?”

Não fosse o fato de esses versos terem quase cinco décadas de vida daria para pensar que o tema de Luiz Melodia em Presente Cotidiano é a situação da música e dos seus criadores nesses tempos digitais. Com quase toda a música gravada desde o início do século passado disponível na nuvem, nas plataformas de streaming, a preços de banana ou gratuitos (para quem não se importar com a interrupção dos anunciantes nos serviços que têm essa opção), quem vai querer pagar?

Grandes gravadoras parecem finalmente começar a recuperar seus lucros, associadas às empresas de streaming, mas, artistas, criadores, produtores viram seus rendimentos desabar. E, com a pandemia da Covid-19 passeando pelo alfabeto grego, a retomada dos shows ainda continua incerta. Quem vai querer pagar para se contaminar?

Música lançada por Gal Costa em 1973 no álbum Índia e, cinco anos depois, regravada pelo saudoso cantor e compositor do Morro de São Carlos (no LP Mico de Circo), o cotidiano daquele presente parece mais presente ainda em 2022. “Tá tudo solto na feira, nobre lugar/Tá tão ruim, tá tão ruim/Quem vai querer comprar banana?” prossegue a letra de Melodia, poeta da canção que se encaixa na máxima de Ezra Pound como “antena da raça”, antevendo os novos e duros tempos que viriam para criadores e produtores de conteúdo musical.

Como sabemos, as gravadoras multinacionais – a partir da segunda década do século 21 reduzidas a três, Sony, Universal e Warner –, voltaram a ganhar muito dinheiro com o novo modelo, após quase perderem o bonde digital que começou dar as caras na virada do milênio. Na época, tentaram barrar a troca de arquivos musicais pela Internet sem entender que aquele era um caminho sem retorno. Mesmo que a volta do vinil seja uma realidade, esse formato é e vai continuar sendo um nicho. O custo de fabricar, estocar, distribuir para lojas e aguardar compradores para discos físicos (em qualquer tecnologia, dos pioneiros rolos de cera ao natimorto DVD-Áudio na primeira década desse século) não fecha a conta. E a alardeada maior qualidade do áudio do vinil versus streaming deve ser relativizada. O primeiro depende de muitos fatores, passando pelo vinil utilizado, por toca-discos (já a partir da agulha), amplificador, caixas de som, acústica do ambiente. Ou seja, apenas para o 1% da população que enriqueceu ainda mais em plena pandemia. A parcela dos outros 99% que tem um celular conectado na grande rede se dá por satisfeita com o que acessa através de Spotify, Apple, Tidal, Deezer e similares.

Artistas com sólidos catálogos e poder de barganha tentam renegociar os royalties de suas obras agora licenciadas nas plataformas. Afinal, na época em que assinaram contrato, o atual modelo não existia e os percentuais que recebiam pela venda dos discos obedecia a outra lógica (a tal logística de gravar, prensar, estocar, distribuir…). No streaming, a música de catálogo, já gravada, tem custo perto de zero para as gravadoras, portanto, é justo que compositores, intérpretes, arranjadores, produtores e demais envolvidos na criação de determinado conteúdo recebam mais.

Se esse é um tema que vem sendo discutido, e com melhoras para alguns veteranos com bons advogados, novos artistas não têm a mesma sorte. Principalmente aqueles que fazem música fora do circuito de views, likes, tik-toks. É a turma que, como nós aqui nessa revista digital, ama jazz, bossa, clássico, instrumental, choro e riso. Quem vai querer comprar?

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