Nara Leão pede passagem

Cantora que completaria 80 anos no próximo dia 19 permanece sendo uma grande referência cultural. O Canto Livre de Nara comprova isso

Para ser lido ao som de Nara Leão em Dez Anos Depois

Foto: LaedapoyS2Sz, CC BY-SA 4.0 /Wikimedia Commons

Se alguém perguntar por Nara Leão diga que ela está por aí, com uma discografia imensa – sonegada aos brasileiros, mas amplamente divulgada no exterior, em especial no Japão, mercado que ela soube inaugurar e que se mantém em crescente expansão no interesse pela música brasileira. Nara está também na voz de diversas cantoras da nova geração, que não deixam de emular sua influência mesmo mais de três décadas após a sua morte. E está – principalmente – em O Canto Livre de Nara Leão, documentário dividido em cinco partes que mapeia toda a trajetória musical, e também pessoal, da cantora.

Intérprete com um talento inato para ser produtora (como destaca o amigo Roberto Menescal, figura fundamental no filme e na vida dela), Nara era inquieta e inovadora. Nasceu na bossa nova, cresceu nos shows universitários, subiu o morro para ouvir sambistas tradicionais, foi a primeira a usar a classificação, hoje corriqueira, de MPB, e protestou (cantando e falando) contra a ditadura que se instalava no País. Sobre este episódio, um dos melhores da minissérie, vale lembrar a crítica que Nara faz aos militares, classificando-os como inúteis e quase indo presa por isso. Seu pai, o advogado Jairo Leão, ao saber do perigo que ela corria, desestimula que a filha fuja ou se esconda. “Eu não concordo com o que ela falou. Mas se ela falou, que assuma, como está assumindo”, disse ele defendendo a coragem da filha.

Até lançar seu primeiro LP, em 1964, pela Elenco, Nara havia participado dos primeiros shows universitários da bossa no Rio e em São Paulo. Com Carlos Lyra, compositor integrante do Centro Popular de Cultura da UNE e mais o namorado dela na época, o cineasta Ruy Guerra, Nara montou para o disco um repertório repleto de outras tendências. Seu trabalho não seria um rompimento completo com a bossa nova, mas uma guinada para a ala regional/nacionalista engajada. Com o disco, Nara abriu o catálogo da Elenco e lançou várias músicas que se tornariam importantes, como Diz que Fui por Aí (Zé Kéti e H. Rocha), Consolação (Baden Powell e Vinícius de Morais), O Morro (Feio não é Bonito) (Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri), e O Sol Nascerá (Cartola e Elton Medeiros).

O disco provocou polêmica, pois ela havia escolhido um repertório contrário ao que vinha interpretando. Ainda no aziago ano de 1964, Nara participaria, ao lado de Zé Kéti e João do Vale, do show Opinião, de Gianfrancesco Guarnieri, dirigido por Augusto Boal. Na época, Nara também se apaixonou pelo poeta Ferreira Gullar, não só intelectualmente, mas nunca houve nada entre eles e Gullar acabou se transformando em amigo e conselheiro de Nara por quase toda a vida. O poeta maranhense é outro que tem participação fundamental no documentário.

A bossa nova de Nara não se restringia ao banquinho e ao violão. Ela se interessava por todas as bossas e todas as novidades. Em seus 47 anos de vida, Nara sempre gostou de cantar e, nos últimos anos, não deixava sem resposta quem insistisse em dizer que não tinha voz. Muito dessa segurança ao cantar se deve ao professor Eládio Perez-González, que em 1978, ao ser procurado por Nara por causa das sucessivas dores de garganta que ela sentia quando cantava, descobriu que Nara sempre cantou numa frequência grave demais e que ela tinha voz de soprano, não de contralto. Gostava também de ouvir as canções que chegavam a ela. Era curiosa e exigente nas montagens dos repertórios e sabia antecipar tendências, como confirmam os discos dedicados aos songbooks de Chico Buarque e Roberto e Erasmo Carlos. Sobre este disco dedicado aos dois símbolos da Jovem Guarda, Nara desafiou seus amigos mais próximos, que não entendiam a razão da sua escolha. É ótimo ver no documentário um momento raro da música brasileira, quando um compositor esculhamba a obra de outro, como no caso de Edu Lobo e Dori Caymmi falarem com desprezo sobre as composições de Roberto e Erasmo.

Nara foi autora de uma discografia eclética e ao mesmo tempo sólida e coerente, que até hoje serve de ensinamento aos novos intérpretes. Artista que sempre assumiu um compromisso com o pioneirismo e com a coerência musical, Nara Leão persiste ainda como uma referência 20 anos depois de sua morte. Capixaba, nascida em Vitória no dia 19 de janeiro de 1942, filha de uma professora, a dona Tinoca, e de um advogado, Jairo Leão (que entrou para a história por ter sido o dono do apartamento que serviu de berço à bossa nova), Nara surgiu ofuscada pela exuberância de Danuza, a irmã mais velha e que, já nos anos 50, era uma modelo famosa e casada com o jornalista Samuel Wainer. Intimidada, Nara preferiu ressaltar o seu jeito calado, mas sem esconder o bom humor.

Nara fez muito em muito pouco tempo. Nos últimos dez anos, foi assombrada por um tumor cerebral que se manifestou pela primeira vez em 1979, quando ela tomava banho e passou a sentir tonturas. Chegou a procurar um médico, que diagnosticou um câncer, mas não falou nada a ela, explicando a gravidade da doença ao pai da cantora, que se suicidou dois anos depois e não contou o que sabia a ninguém. Na fase final, Nara conviveu com o sofrimento, teve tonturas, amnésias e ausências. Na luta contra o câncer, tratou-se com médicos no Brasil e nos Estados Unidos, buscou cuidados convencionais e alternativos e, ao apresentar sinais de melhora, acreditava que ficaria recuperada. Infelizmente, não teve tempo. Foi internada no dia 18 de maio de 1989. Morreu 20 dias depois. 

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.