A primeira morte de Peter Bogdanovich

Cineasta morto no dia 6 de janeiro passou a metade final da vida sobrevivendo a uma tragédia que lhe deixou perdido e devastado

Para ser lido ao som de Louis Armstrong & Ella Fitzgerald em They All Laughed

Lápide da atriz Dorothy Stratten

Peter Bogdanovich e Dorothy Stratten se conheceram em outubro de 1979 numa festa na discoteca da Mansão Playboy, de Hugh Hefner, três meses antes do começo da década que iria consagrá-la – e destruí-la.

Dorothy tinha 19 anos, chegara há pouco do Canadá, mantinha um relacionamento confuso e abusivo com Paul Snider, seu namorado de juventude, havia recentemente recebido a fortuna (para a época) de 200 mil dólares e era ambiciosa. Peter recém completara 40 anos, vinha de sucessos e fracassos em Hollywood e de dois casamentos desfeitos, o primeiro com Polly Platt, com quem teve duas filhas, o segundo com Cybill Shepherd. Estava solteiro, aproximou-se de Hugh Hefner e virou cliente frequente da Mansão.

Naquele janeiro de 1980, Bogdanovich pensou pela primeira vez em Dorothy para o papel na comédia They All Laughed (Muito Riso, Muita Alegria), estrelada por Audrey Hepburn e Ben Gazzara. Ele a dirigiria e, de acordo com um amigo, Bogdanovich teria comentado: “Ela é perfeita… Não apenas por seus peitos e bunda. Ela sabe atuar”. Dorothy foi à casa de Bogdanovich, em Bel-Air, para conhecer o roteiro. Os dois se acertaram.

As filmagens estavam previstas para começar em dois meses, no final de março, em Nova York. O grande problema de Dorothy era evitar que Snider fosse atrás dela. Ele era agressivo, inconveniente, gostava de se meter nos estúdios, interferir nos contratos e arrumar confusão.

Com o envolvimento profissional surgiu de forma instantânea uma atração afetiva. Dorothy e Peter optaram pela discrição. Ao contrário do caso dele com Cybill, iniciado no set de filmagem de A Última Sessão de Cinema, com Polly ao lado, agora era diferente. Peter fazia questão de manter tudo em segredo. A semelhança era o caso ter surgido num set de filmagem e Dorothy – assim como Cybill – ser loira e ter um ar ingênuo e indefeso – além de ser absurdamente linda. Mas agora Peter aprendera a lição: muita divulgação geralmente causa estragos. Dorothy, então, nem sequer comentava que era casada.

Nos primeiros dias em Nova York, ela passou mal. Estava se alimentando pouco para manter o peso e também foi surpreendida pelo ritmo de trabalho de Bogdanovich, que pela primeira vez na vida parecia interessado em respeitar os prazos de filmagens. A situação entre os dois só passou a ficar mais clara depois de ela se mudar do Wyndham Hotel, onde estava hospedada toda a equipe, para a suíte do Plaza, onde estava Peter. Naqueles dias, Bogdanovich ficou tão impressionado com a performance de Dorothy nas telas que ligou para Hefner, na Califórnia, para dizer que pretendia aumentar o papel dela.

Já quem ligava e não recebia retorno era Snider. Desconfiado e revoltado, Snider conseguiu falar com Dorothy pouquíssimas vezes naquele período, com ela quase sempre sendo lacônica nos telefonemas. Quando ele encerrava a conversa dizendo “eu te amo”, ela nem sequer respondia.

Paul e Dorothy voltariam a se encontrar no final de abril, num dos intervalos das filmagens, quando ela foi a Vancouver visitar a mãe. Numa das conversas, Dorothy lhe pediu um tempo e mais liberdade. Isso o deixou furioso. Ela voltou a Nova York depois de outra discussão. A partir de então, Snider – que parecia convicto de já ter perdido a mulher – passou a tentar evitar perder o que lhe parecia mais valioso: dinheiro.

Sua primeira tentativa foi um desastre. Ele se aproximou de uma garota de 17 anos de Riverside que havia descoberto numa feira automotiva. Ensinou-a a andar como Dorothy, a se vestir como Dorothy e a usar o cabelo como Dorothy. Dentro da estratégia grotesca de Snider, ela inclusive se mudou para a casa que ele e Dorothy compartilhavam. Mas ela não era uma estrela. E mais: faltou combinar com a Playboy. Hefner e o estafe da revista não se interessaram pelo genérico oferecido por Snider.

Em seguida, Snider voltou a propor que ele e Doroythy retomassem o casamento em outras bases, já que nos últimos meses ela havia se transformado num fenômeno. Ela, aconselhada por advogados, obviamente não aceitou. Por fim, Snider resolveu seguir o manual do homem traído e contratou um detetive particular para segui-la.

Aí já estamos em meados de julho, perto do final das filmagens. O que o detetive descobriu não havia nada de novo. Dorothy e Peter estavam tendo um caso. As provas, que o detetive havia conseguido roubar entre os papéis de Dorothy eram fotos, poemas e cartas enviadas a ela por Peter. A confirmação só piorava a vida de Snider. Ele não apenas perdera Dorothy como perdera para um homem mais rico, mais famoso, mais preparado, em resumo, mais poderoso.

A situação ficaria ainda mais humilhante para Snider depois de ele ter visto o casal brilhando na Hefner’s Night’s Dream Party, no dia 1º de agosto. Dias antes, sabendo da festa, Snider ligou para os assessores de Hefner tentando conseguir um convite. Foi informado de que os convites já haviam sido enviados para o novo lar de Dorothy, a casa de Peter, e caberia a ela definir com quem iria à festa. Dorothy não parava de crescer. Foi lembrada até para integrar o elenco do seriado Charlie’s Angels (no Brasil, As Panteras) e se deu ao luxo de recusar.

Com o sucesso vinha o remorso. Dorothy diria a amigas próximas que não queria continuar com Snider, mas, ao mesmo tempo, sentia-se ainda responsável por ele. Bancava boa parte de suas contas e continuava falando com ele por telefone. Ligações que misturavam agressões, questões práticas, ameaças, pedidos de reconciliação (por parte dele), recusas (por parte dela). Na última conversa, ela acabou aceitando encontrá-lo para um almoço. A data: 8 de agosto.

Snider viu na confirmação uma chance. Ficou eufórico e acreditou que tudo ficaria bom para os dois. Nada se confirmou. O almoço transcorreu num clima terrível, com Dorothy confessando que estava apaixonada por Peter.

A semana entre os dias 8 (uma sexta) e 14 (uma quinta) de agosto foi conturbada. No sábado, 9, Snider, pelos classificados, comprou uma espingarda Mossberg de calibre 12. Entre domingo e segunda, Dorothy havia prometido retornar a ele para tratar das questões financeiras. Ela já estava sendo assessorada por advogados que a aconselharam a encerrar o assunto oferecendo uma quantia fixa. Seria a melhor maneira de acabar com uma chantagem que poderia se arrastar por anos. Dorothy não ligou nos dois dias combinados, deixando Snider ainda mais enraivecido. Na terça, ela fez contato e marcou a reunião para dois dias depois.

Na quarta, Snider foi ao Vale de San Fernando buscar a arma na casa do homem de quem havia comprado. Nesse meio tempo, Bogdanovich descobriu que Dorothy havia sido seguida pelo detetive. Ficou furioso. Dorothy não deu bola. Ela confiava na sua capacidade de persuasão e de que Snider concordaria com o acordo que ela iria propor.

Dorothy chegou confiante para o encontro com Snider na casa dele em West Los Angeles. Snider havia alugado o imóvel – uma casa de estuque de dois andares em estilo espanhol perto da rodovia Santa Monica – quando ainda alimentava a ideia de que ele e Dorothy morariam juntos. A casa, pertencente a um jovem médico amigo dele, tinha uma sala de estar e um quarto no andar de cima, que o médico usava. Paul ficara com a parte de baixo e os fundos da casa.

Dorothy chegou por volta do meio-dia na quinta-feira, 14 de agosto. Os dois ficariam sozinhos no local. A dupla de amigas com que dividia o imóvel com Snider havia viajado naquela manhã. Retornaram por volta das oito horas da noite, viram o carro de Dorothy estacionado e, ao entrarem na casa, notaram que a porta do quarto estava fechada. Se reconciliaram, concluíram.

Como o tempo passava, uma das amigas resolveu bater na porta. Não obteve resposta. Chamaram o médico. Ele foi lá, bateu e – ainda sem resposta – abriu a porta, que não estava chaveada.

***

Ninguém sabe o que houve nas horas em que os dois ficaram sozinhos. A investigação policial concluiu que Dorothy andou pela casa, já que sua bolsa e documentos estavam noutra peça. Havia anotações de Snider, que pedia por volta de 7,5 mil dólares. Na bolsa de Dorothy havia mil dólares, o que se conclui que ela estava disposta a pagar algo.

O único tiro que a matou foi disparado à queima-roupa e a bala penetrou logo acima do olho esquerdo. Um dedo de Dorothy, provavelmente colocado à frente do rosto na hora do disparo, ficou grudado na parede oposta. O estrago foi tão grande que o rosto dela ficou completamente desfigurado, encharcado por uma massa de sangue. De acordo com a polícia, Snider atirou em Dorothy uma hora após sua chegada. Pouco tempo depois, Snider então cometeu suicídio. Os dois corpos estavam nus.

***

Hefner foi avisado pela polícia e se encarregou de dar a notícia a Bogdanovich. “Eu larguei o telefone, caí no chão, tentei arrancar o linóleo com as unhas”, disse Bogdanovich ao escritor Peter Biskind anos mais tarde. “Era assim que as pessoas faziam durante os bombardeios pesados, durante a guerra. Tentavam cavar o chão com as mãos para tentar fugir. Eu queria cavar um buraco no chão e sumir”.

Depois de ter sido amparado e sedado por amigos, Bogdanovich saiu de casa cinco dias depois para providenciar a cremação de Dorothy. Suas cinzas foram colocadas em uma urna e sepultadas no Westwood Memorial Park, em Los Angeles.

Oito anos depois, Bogdanovich se casaria com Louise, irmã caçula de Dorothy. Ela estava com 20 anos – a mesma idade que a irmã tinha quando morreu – Peter, 49. Ficaram juntos até 2001. Nesse período, Bogdanovich teve uma carreira muito irregular, principalmente se comparada aos seus áureos tempos do começo dos anos 1970. Além da tragédia, Peter ainda enfrentou um processo de falência, perdendo tudo e tendo que se mudar para o apartamento de um amigo. Na mesma entrevista a Biskind, confessou: “No dia em que Dorothy foi morta, eu deixei de me importar com a minha carreira; era como se uma bomba tivesse explodido e eu tivesse sobrevivido, mas não era mais a mesma pessoa”.

Anos mais tarde numa festa, ao encontrar um amigo que há muito não via, se apresentou: “Lembra-se de mim? Eu costumava ser Peter Bogdanovich”.

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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