Na contramão, atrapalhando o tráfego

Antonio Carlos Miguel escreve sobre Get Back, o BBB do Bem no reality show dos fab infinitos

Para ser lido ao som de Beatles em Let It Be

Foto: Disney/Divulgação

Quem já maratonou as oito horas de Get Back, certamente anda enfrentando um efeito colateral: dias depois, ainda permanece horas e horas ruminando trechos das composições que os Beatles criaram a partir do zero naqueles dias, em janeiro de 1969, em que ficaram trancados em estúdios de Londres e arredores. No momento, por exemplo, ou desde a noite de ontem, minha mente é invadida por algo tipo… “Ah… Ah, Ah, Ah, Ah… I dig a pony”.

Como John Lennon relatou tempos depois, essa canção nasceu a partir de um riff e uma sequência nonsense de palavras, o que por aqui compositores chamam de monstro. Mesmo depois de trabalhada, comparada a tantas outras da dupla, não está entre as melhores letras, mas, cumpre seu papel como petardo pop, gruda no cérebro, funciona como um irresistível mantra. Como esta, pelo menos quatro outras já encantaram meus neurônios nos últimos dias, fossem com riffs igualmente pegajosos – I’ve got a FeelingDig It e Two of Us – ou melodias fascinantes como a da balada The Long and Winding Road.

Com Get Back, o documentário dirigido por Peter Jackson em três capítulos que desde novembro passado vem rodando no canal Disney +, os quatro marmanjos de Liverpool conseguem ser trend topics mais uma vez. Sim, o termo é recente, veio com a Era da Internet, mas, desde que a beatlemania se instalou, a partir de 1964, quando conquistaram os EUA, o grupo foi capaz da proeza de se manter no topo. Principalmente, graças a capacidade de evoluir artisticamente. E, politicamente, andar do lado certo da história. Agora, cinco décadas após a separação e com dois mortos, eles parecem mais vivos do que muitos vivos. Graças a 60 horas de filmagem e 150 horas áudio produzidos em janeiro de 1969, quando, sem saber, os quatro e o então também jovem diretor Michael Lindsay-Hogg estavam inventando o formato do reality show. Esse BBBeatles é mais um ponto para o grupo que, entre outros feitos, ressuscitou o rock, inventou os videoclipes e os álbuns conceituais e deflagrou uma revolução comportamental com seus cabelos longos e ideais libertários.

Cercado de muitos problemas, antes, durante e depois de chegar às lojas (em maio de 1970), o disco que se chamou Let it Be (também o nome do filme dirigido por Lindsay-Hogg e que estreou na mesma época), acabou sendo o último lançado pelo grupo. Mas, após as sessões de gravação e o show-surpresa no terraço do prédio da Apple beatle no centro de Londres, eles voltaram aos estúdios e lançaram, em setembro de 1969, o álbum Abbey Road, este, com muitas músicas que começaram a ser criadas nas mesmas sessões que agora vêm à tona. Entre outras, somos em Get Back apresentados aos rascunhos de I Want YouMaxwell’s Silver HammerOh, DarlingPolythene Theme e She Came in the Bathroom Window.

Naquele início de 1969, os conflitos que um ano e meio depois levariam ao fim já eram muitos. Mas, os caras que foram mais populares do que Jesus Cristo continuavam com poder e dinheiro para bancar e se divertir ainda muito em uma experiência como a registrada em Get Back. Gastar quilômetros de filmagens em película 16mm e gravações em fitas de áudio sem plano definido. A ideia era acompanhar passo a passo o trabalho de criação de 14 faixas inéditas para um novo disco e também um show com esse novo material.

No primeiro, e maçante para muita gente, capítulo, eles estão num enorme galpão de cinema, Twickenham Studio, nos arredores de Londres. Em meio aos rascunhos das inéditas e passeio por canções de outros que fizeram suas cabeças na adolescência ou continuavam fazendo – como a então recente Going up the Country, do grupo de blues-psicodélico Canned Heat, que Paul canta imitando o falsete de Alan Wilson (este, um geniozinho que viria a morrer de overdose aos 27 anos, em setembro de 1970). Através das oito horas editadas por Peter Jackson, a partir das filmagens feitas entre 2 e 31 de janeiro de 1969 pela equipe de Lindsay-Hogg, também aparecem rascunhos de músicas depois aproveitadas nas carreiras solos de Lennon (Jealous GuyGimme Some Truth), McCartney (Back Seat of My Car) e Harrison (All things must pass).

No início da imersão, eles, Lindsay-Hogg e demais pessoas da equipe, sonham como locação para o show as ruínas de um anfiteatro em Sabratha, perto de Tripoli, na Líbia. O delírio no Norte da África foi abandonado. Eles pensaram em trocar por um parque, mas acabaram optando pelo bem mais prático show-surpresa no topo do prédio, no centro londrino, que abrigava o selo Apple, em 30 de janeiro. Nesse dia, já contavam com o auxílio mais que luxuoso de um quinto membro, o tecladista Billy Preston, então com 24 anos, que eles tinham conhecido em Hamburgo, em 1962, período em que o adolescente tocava com Little Richard. Num dos ensaios, sem a presença de Preston (que estava em Londres para participar de um show da hoje esquecida cantora Lulu), eles cogitam chamá-lo para o grupo. Os Beatles terminaram e o tecladista acabou trabalhando tanto com Harrison quanto com os Rolling Stones.

A essa altura, imagino que ninguém aguente mais relatos sobre Get Back, portanto, chega de blábláblá. Vamos para o fim, o gozo que é a íntegra da apresentação na cobertura do prédio. Os cerca de 42 minutos nos quais eles serviram três doses de Get Back, duas de I’ve Got a Feeling e Don’t let me Down e uma de I Dig a Pony e One After 909 – esta, então inédita, mas, uma das primeiras composições de Lennon. Até a polícia mandar o faz tudo Mal Evans desligar o PA. Afinal, como o corpo de trabalhador cantado por Chico Buarque em Construção, aquele que acabou sendo o derradeiro show dos Beatles estava atrapalhando o tráfego.

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