Linda flor na flora da canção

Antonio Carlos Miguel conta como uma valsa de Debussy virou sua mais recente obsessão musical

Para ser lido ao som de Ike Quebec em Linda Flor

Reprodução da capa do livro Havana para um Infante Defunto

Um dos efeitos colaterais da quarentena foi a releitura de títulos que repousavam na estante desde as distantes primeiras doses. Entre estes, Havana para um Infante Defunto, que se revelou tão apaixonante quanto no fim dos anos 80, quando devorei o romance de G. Cabrera Infante (segundo a tradução de João Silvério Trevisan para a Companhia das Letras). Três décadas depois, com a música do mundo disponível a um toque, foi leitura acompanhada por muitas das referências musicais que percorrem o livro já a partir de seu título-paródia de Pavane pour une Infante Défunte de Ravel.

O nome de um dos capítulos é tema de outro impressionista e, desde então, virou obsessão desse escrevinhador, La Plus que Lente. É uma valsa mais que lenta, como se entrega no título, com a força imagética que caracteriza a obra de Debussy, e do impressionismo em geral. O narrador-personagem-alter ego de Infante comenta sobre a influência que Claude Debussy exerceu juntos a compositores e/ou pianistas cubanos, notadamente, Ernesto Lecuona e Bola de Nieve, e ainda Frank Domínguez e Meme Solis (os dois últimos desconheço e aguardam busca em aplicativos).

Livro regurgitado, La Plus que Lente continuou frequentando meus neurônios, volta e meia, trechos da melodia me tomavam e muitas vezes me levavam a procurar alguma gravação diferente e saciar o novo e saudável vício. Nessas recaídas, uma impressão de reconhecer o tema de Debussy em canção brasileira me perseguia. Até, certo dia, cair a ficha e chegar a Linda Flor (Ai, Yoyô), composição de Henrique Vogeler, com letra de Luiz Peixoto e Marques Porto, que, desde seu lançamento em 1929, por Aracy Cortes, vem sendo regravada. Na verdade, como Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello revelam (no volume 1 de A Canção no Tempo), duas outras letras já tinham frequentado a melodia de Vogeler, mas, foi a cantada (na peça Miss Brasil, então com o título de Yáyá) e gravada por Aracy Cortes que vingou, entrando “para a história da música popular brasileira como o primeiro samba-canção a fazer sucesso”.

A frase melódica do tema de Debussy que provavelmente foi o gatilho para Vogeler só aparece nos segundos finais da valsa original – na La Plus que Lente gravada por Nelson Freire lançada em 2009, por exemplo, começa a 37 segundos do fim. Saudável citação ou apropriação que gerou algo novo e belo. Assim como na Natureza, onde, segundo Lavoisier, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, a mais que lenta valsa de Debussy gerou linda flor na flora da canção brasileira. Quem googlear na internet atrás de Linda Flor e Debussy, chegará a artigos e blogs que confirmam essa associação.

Assim como a cubanos, o impressionismo de Debussy impressionou a muitos brasileiros. Um deles, Henrique Gypson Vogeler, carioca de pai alemão e mãe brasileira (ou afro-brasileira, pelo que se percebe nas poucas fotos conhecidas do filho), que morreu aos 56 anos, em 1944. O Dicionário Houaiss Ilustrado Música Popular Brasileira (criação e supervisão geral de Ricardo Cravo Albin) dedica alentado verbete ao compositor, pianista, regente, orquestrador, letrista e diretor de gravadora, autor de dezenas músicas para operetas, comédias musicais e afins. Em outro blog, há cerca de 20 outras composições de Vogeler, gravações dos

anos 1929 e 30, que me soam… antigas, catalogadas como canção, samba, samba-fox, toada, samba estilizado. Nada que me capture ou se equipare à Linda Flor de perfume debussyano. Esta inebria, seja na voz de Aracy Cortes ou Gal Costa, passando por Elizeth Cardoso, Ângela Maria, Jane Duboc, Jussara Silveira, Alcione & Bethânia, Tetê Espíndola, Dori Caymmi; ou em versões instrumentais cantadas pelo violão de Baden Powell, pelo saxofone de Leo Gandelman, pelo piano de César Camargo Mariano e também pelo jazzman Ike Quebec – Linda Flor fechava o LP Soul Samba, que o saxofonista lançou pela Blue Note, em1962, poucos meses antes de sua morte, em janeiro do ano seguinte. 

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