Quando Lennie Dale morou em Porto Alegre

Coreógrafo teria passado um ano na capital gaúcha dando aulas numa academia de dança

Para ser lido ao som de Lennie Dale em Um Show de Bossa

Foto: Reprodução

Dizem que Lennie Dale teria morado em Porto Alegre. Nas minhas pesquisas informais nunca descobri nada muito certo. Teria sido no final dos anos 70 ou logo no começo da década seguinte, bem depois do grande sucesso da terceira das suas três fases mais importantes no Brasil – a do samba-jazz no Beco da Garrafas, a das parcerias com Elis Regina e, principalmente, a que esteve à frente do Dzi Croquettes – e antes do derradeiro êxito, como coreógrafo na abertura da novela Baila Comigo, em 1981 Ou seja, Lennie Dale por aqui teria vivido num período de ostracismo, talvez com dificuldades financeiras e precisando voltar às aulas de dança como professor para reforçar o orçamento. Como não existe nada muito claro, até as lembranças são difusas. O mais provável é que o ano tenha sido o de 1980 e o local a Academia Mudança, na Avenida Independência.

Se confirmada essa residência porto-alegrense, Lennie Dale se integraria a um grupo eclético que iria de Rubem Braga a João Gilberto, de Otto Stupakoff a Elke Maravilha, de Ivan Pedro de Martins a Zé Rodrix. Todos, pelos mais variados motivos, passaram algumas temporadas por aqui – e em todos os casos Porto Alegre acabou tendo uma certa importância no desenvolvimento pessoal e/ou profissional desses personagens. Uns vieram por motivos políticos, como Ivan Pedro, outros pela praticidade familiar, os casos de Stupakoff e Elke. Lennie é bem provável que tenha vindo por alguma oportunidade profissional. Já João Gilberto aqui veio aportar pela caridade de um amigo que queria vê-lo afastado do perigoso vício que o cantor baiano tinha pela maconha. Zé Rodrix veio atraído pela promessa de uma efervescência cultural prometida pela capital gaúcha. E um destes veio por um motivo mais grave: Rubem Braga fugiu do Rio de Janeiro depois de seu envolvimento com uma mulher casada e consequente gravidez dela.

Nenhum viveu aqui o auge de sua trajetória. O Lennie Dale, então próximo dos 50 anos e que aterrissara em Porto Alegre numa nova fase de sua vida, já era um fenômeno intenso e amplo, com uma contribuição à cultura brasileira que começara pelos grandes espetáculos do teatro de revista no início dos anos 60, passara pela profissionalização e pelo amadurecimento dos shows da bossa nova e chegara até à televisão feita no Brasil a partir da década de 70.

Seu estilo inovador como dançarino – que misturava passos acrobáticos com performances atléticas – e seu refinamento como coreógrafo já havia atraído discípulos (Betty Faria, Elke Maravilha, Miéle, Elis Regina e Ney Matogrosso) e admiradores, em especial Walter Clark e Daniel Filho, que souberam aproveitar seu talento em musicais televisivos. Na Globo, Lennie Dale foi figura fácil no Fantástico, no TV Mulher e em dezenas de participações especiais em novelas e programas musicais. E bem antes disso, Elis Regina dizia que a ideia do famoso gesto de “puxar a rede com os braços” quando cantou Arrastão e venceu o 1º Festival de MPB da TV Excelsior em 1965 tinha sido de Lennie Dale. Era ainda uma figura exuberante, quase sempre vestido com roupas espalhafatosas – sendo mais espalhafatoso ainda quando ficava quase que completamente nu, com o corpo apenas coberto por botas de cano alto, uma minúscula sunga e muita purpurina. Era um mestre rígido e temperamental que ajudou boa parte dos bailarinos que tinham destaque nos programas televisivos e – mais ainda – se fez presente no desenvolvimento artístico das Frenéticas, de Nelson Motta, de Gilberto Gil e até de uma discípula bem mais nova, Claudia Raia.

Nascido Leonardo La Ponzina, em Nova York, em 1934, Lennie Dale chegou ao Brasil no começo dos anos 60. Seu primeiro laço com o Rio Grande do Sul foi o fato de ter sido trazido para o Rio pelo gaúcho Carlos Machado, o Rei da Noite. Os dois haviam se conhecido em Roma, onde Lennie era um dos coreógrafos de Cleópatra, filme com Elizabeth Taylor. No Rio, Lennie não apenas continuou trabalhando com Machado como também passou a frequentar o Beco das Garrafas, aproximando-se de Elis, Leny Andrade e Simonal. Nos anos 70, viraria um mito da dança, liderando os Dzi Croquettes e se apresentando no Brasil, em Portugal e na França. A vida desregrada e fora de qualquer parâmetro fez com que Lennie entrasse e saísse de vários projetos artísticos. Essa postura errante talvez explique a curta temporada do coreógrafo em Porto Alegre. De volta ao Rio, muito doente, debilitado por anos de vida dedicados ao excesso, Lennie buscaria tratamento médico em Nova York e atravessaria sua última década de vida afastado dos palcos e das telas. Morreria nos Estados Unidos, aos 59 anos, em 1994.

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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