São bonitas as canções

Eric Nepomuceno conta a história de uma música que havia sido escrita anos antes e depois ficou lá, esquecida, não num fundo de armário: num fundo de fita

Para ser lido ao som de Edu Lobo e Chico Buarque em Cambaio

A parceria entre Edu Lobo e Chico Buarque rendeu canções definitivas. O que pouca gente sabe é que acabou salvando do esquecimento uma música perdida.

Tudo começou graças ao método de trabalho dos dois: Edu compõe, grava numa fita que é enviada ao parceiro. Chico então ouve e reouve enquanto persegue, com obstinação de peregrino, a palavra exata, a imagem definitiva.

Em outubro de 2000 ele recebeu de Edu uma fita com dois temas novos: canções lentas, melodias de rara beleza e estrutura intrincada. Logo depois viajou para Roma levando na bagagem um walkman com a fita. Em longas caminhadas, ouvia e reouvia as duas canções. Certo dia de um outono especialmente belo ele, caminhante obcecado, perambulava pelas ruas de Roma, gravador ligado, fone preso ao ouvido, memória acesa. Visitou a casa onde morou menino com a família, visitou o bairro e a rua e a casa onde anos depois morou exilado, e continuou. Foi até a ruela onde Bertolucci rodou O Assédio, e justamente ali, olhando o velho prédio do filme e sempre ouvindo um dos temas lentos de Edu, sentiu que tinha finalmente descoberto o caminho da letra.

A música havia acabado e Chico, desajeitado como sempre, tentava tatear o botão para rebobinar a fita e ouvir de novo, e de novo, a melodia. Houve um intervalo minúsculo, e de repente outra música explodiu: uma canção acelerada, ritmada, forte. Nada a ver com o clima sereno e profundo da que ele estava ouvindo. Chico ficou hipnotizado por aquela música inesperada e ali mesmo começou a nascer outra letra, para outro tema – noturno, sufocado, agoniado.

De volta ao Brasil avisou a Edu: “Fiz a música do rato” O parceiro não entendeu: como uma canção lenta e triste podia servir para um tema violento, duro? Foi preciso que Chico levasse a fita para que Edu enfim descobrisse que aquela canção ritmada, forte, agoniada, tinha sido escrita anos antes e depois ficou lá, esquecida, não num fundo de armário: num fundo de fita. As tais melodias lentas que embalaram a caminhada romana de Chico? Vão bem, obrigado. Uma se chama A Moça do Sonho. A outra, Cantiga de Acordar. A que ele salvou do esquecimento se chama Ode ao Rato. As três fazem parte de Cambaio. E agora Edu, antes de mandar fitas para seus parceiros, faz questão de ouvir cada uma até o fim, ida e volta. Para salvar, por antecipação, qualquer canção que tenha se extraviado no esquecimento.

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