O enclave dos amorosos João e Zuza

Tárik de Souza conta como se sentou no chão em frente a João Gilberto e se concentrou numa mensagem telepática recebida por ele

Para ser lido ao som de João Gilberto em Amoroso

Daniel Kondo

O título do livro Amoroso – Uma Biografia de João Gilberto, do jornalista e historiador Zuza Homem de Mello, soa duplamente apropriado. Tanto o biografado quanto o autor foram pessoas amorosas, gentis, sensíveis. Conheci bem os dois. Além da amizade, desenvolvi uma relação profissional profícua com o querido paulistano Zuza, José Eduardo Homem de Mello (1933-2020), de quem tive a honra de editar dois livros antológicos para a coleção que dirigi na editora 34. A Canção no Tempo, em dois volumes (1997, 1998), parceria dele com o grande pesquisador Jairo Severiano, e A Era dos Festivais – Uma Parábola (2003), só de sua autoria, ambas inescapáveis obras de referência sobre a MPB.

Por sua vez, o baiano João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira (1931-2019), cuja obra, obviamente, eu já degustava desde o final dos anos 50, fiquei conhecendo numa tumultuada entrevista coletiva na cobertura do promoter Ricardo Amaral, em Ipanema, no Rio, em 1971. Ele tinha acertado uma excursão com o cantor e convocou a imprensa para entrevistá-lo. Eu trabalhava na semanal Veja e estava em desvantagem em relação a repórteres dos jornais diários, que publicariam suas impressões no dia seguinte. Convocado como se fosse uma exclusiva, eu teria que correr atrás do prejuízo. Me sentei no chão em frente ao cantor e – mesmo sem acreditar neste tipo de magia – me concentrei numa mensagem telepática, que ele recebeu. “E você, porque não está perguntando nada?”, questionou João. Disse que preferia conversar com ele à parte, e, por mais incrível que pareça, ele topou. Me recebeu dois dias depois, em seu apartamento no então tradicional Hotel Glória, onde estava hospedado com a sua mulher na época, a cantora Miúcha. Conversamos durante horas, sem direito a gravador ou mesmo anotações.

 “Quero que seja uma conversa entre nós e não uma entrevista”, pediu. Como tinha ficado com a caneta suspensa na mão, preparada para as anotações, acabei utilizando-a como baqueta, acompanhando discretamente João ao violão, enquanto ele exemplificava teorias cantando. Moveu compassos, deu umas entortadas nos tempos, e eu segui firme. Fui elogiado: “Não perdeu o ritmo. Bom brasileiro!”. Nascia a única entrevista oficial de João Gilberto para as extensas (seis) páginas amarelas de Veja, e uma amizade que durou alguns anos. Com direito a uma visita à casa da atriz e produtora teatral Ruth Escobar, em São Paulo. E um acesso privilegiado aos bastidores do especial da TV Tupi, que ele gravou com Caetano Veloso e Gal Costa. Além de muitas horas de conversas telefônicas, o meio de comunicação preferido por João. E ainda um presente especial. Um estafeta do apart-hotel do Leblon, onde João se hospedava, todo paramentado, me bateu à porta para trazer uma bebida israelense hermeticamente embalada. Dentro, disfarçada, uma porção da célebre maconha “da lata”, que a tripulação do navio Solana Star desovou na orla carioca, em 1987. Era o “Nelson”, como ele chamava em seu código peculiar.

Autor de João Gilberto, um pequeno livro editado na coleção Publifolha, em 2001, Zuza vai muito além em Amoroso. Destila muito mais horas de voo com seu biografado, além de esmiuçar sua história, passo a compasso, como nunca tinha acontecido antes. Curiosamente, um capítulo que abre várias portas para a percepção da monumental obra do artífice da bossa nova, se passa em Porto Alegre, em 1955. Até então, João acumulava experiências artísticas frustradas. Um início tímido, aos 16 anos, num primeiro conjunto vocal (febre exportada pelos EUA durante a II Guerra), ainda na Juazeiro natal, ao lado do futuro cantor, compositor e violonista Walter Santos, Enamorados do Ritmo. Depois, no Rio, foi convidado a substituir o pernambucano Jonas Silva, no Garotos da Lua, contratado da rádio Tupi. Gravou dois discos 78 rotações, onde sua voz de crooner ficou registrada pela primeira vez, no bolero Quando Você Recordar e no samba Amar é Bom. Estrearia solo em 1952, na linha vocal do ídolo Orlando Silva, com Meia Luz, do compositor potiguar modernista Hianto de Almeida. E sua primeira composição seria gravada por uma namorada, a cantora Marisa Gata Mansa, Você Esteve com meu Bem?, parceria com Russo de Pandeiro.

Mas a nova experiência frustrada num conjunto vocal, o Quitandinha Serenaders, formado por três gaúchos e um carioca, o violonista e compositor Luis Bonfá, seria decisiva. João foi convocado a substituir Bonfá, que saíra em carreira solo. Apesar do acerto não ter funcionado, Luís Telles, um dos gaúchos do grupo, se revelaria clarividente, ao enxergar naquele errático novato um projeto de grande artista. Além de acolhê-lo em sua casa no Rio, Telles bancou uma hospedagem de “sete ou oito meses” do ainda desconhecido, no luxuoso e tradicional Hotel Majestic, de Porto Alegre, projetado pelo arquiteto alemão Theodor Wiederspahn, em 1933, que costumava receber de personalidades como Getúlio Vargas e João Goulart, a cantores no auge do sucesso como Francisco Alves e Vicente Celestino. Telles ainda o introduziu na boemia da capital gaúcha. João passou a levar voz e o violão do Clube da Chave, de Ovídio Chaves (co-autor do sucesso Fiz a Cama na Varanda, com Dilú Melo) ao restaurante Treviso, que funcionava no Mercado Público, além de El Farolito, Clube do Comércio, boate Cote D’Azur e Associação Leopoldina Juvenil, onde foi contratado para se apresentar num baile animado pelo modernista conjunto Norberto Baldauf. Também se apresentou no auditório da rádio Gaúcha, como “um cantor de rádio do Rio de Janeiro”.

João foi acolhido também por D. Boneca Regina, uma eventual colunista de jornal e espécie de mecenas, cuja casa vivia repleta de artistas. Em seu aniversário de 24 anos, numa festa surpresa na casa dela, os amigos se cotizaram e lhe deram um violão novo. Numa carta mais tarde à Malu, neta de Boneca, João, a seu estilo, agradeceu as benesses. “Porto Alegre é uma terra tão boa, é uma gente tão boa, que a trata a gente como se a gente já tivesse morrido”. Certamente, entre os que ele teve especial apreço, estava o violinista e pianista Armando Albuquerque, posteriormente professor de harmonia da UFRGS. Foi exatamente essa – a harmonia – a valiosa contribuição do erudito Armando – com quem se encontrava em sessões musicais nos sábados à tarde –para a bagagem musical de João. Chegaram a fazer um duelo de dissonâncias ao piano e violão para êxtase dos amigos, que conviveram então com um mito afável e acessível.

Foi ainda o mesmo mentor gaúcho Luis Telles que o levou a mais uma temporada longe do Rio, desta vez em Diamantina, MG, na casa de Maria Conceição Oliveira Paz, a Dadainha, irmã mais velha de João. Foi lá que ele teria aperfeiçoado a célebre batida da bossa, num banheiro da residência. Sua acústica era proporcionada por uma claraboia, cuja “reverberação sonora conferia ao som da voz e do violão certo brilho e profundidade’, escreveu Zuza. A volta ao Rio do futuro astro ainda passou por percalços, até o encontro com Tom Jobim. Ele o levou a participar, apenas ao violão, em duas faixas, do disco Canção do Amor Demais, que trazia suas parcerias com Vinicius de Moraes e a voz de Elizeth Cardoso. Dali para a reestreia solo, no 78 rotações em que João demonstrou que sabia o que queria, e instalou sua interpretação de Chega de Saudade (“impôs dois microfones para si próprio, voz e violão, surpreendendo o diretor técnico Z.J. Merky”) como marco inaugural da bossa nova.

Aliando “causos” minuciosamente pesquisados em inúmeras entrevistas, e suas análises técnicas, de contrabaixista que estudou com Ray Brown, na Scholl of Jazz, de Tanglewood e cursou ainda a Juilliard School, de Nova York, Zuza traça um retrato ampliado do gênio divisor de águas da MPB. Do sucesso brasileiro e a impensável explosão internacional, aos conflitos deste êxito com a personalidade arredia e reclusa do mito, desapegado da fama e da fortuna. O biógrafo amoroso destrincha a sensação da perda do amoroso amigo e ídolo num artigo que escreveu para o jornal O Estado de São Paulo, logo após a morte do gigantesco artista, em 2019, aos 88 anos.

“Ouvir João Gilberto requer aprendizado. Requer concentração apuradíssima para se usufruir de tudo ao mesmo tempo: a precisão micrométrica do violão, a identificação das notas formando acordes, as sutis alterações harmônicas, o balanço rítmico irresistível, a destreza de seus dedos apertando as cordas do braço do violão, a posição da mão direita no jogo do vai e vem, a justeza equilibrada entre o volume do instrumento e o da voz, a dicção impecável, a emissão na medida certa, a minúcia das quase imperceptíveis mudanças na divisão, as defasagens rítmicas e alterações melódicas, a argúcia dos silêncios, a supressão do supérfluo, a valorização dos esses, dos erres, das consoantes e vogais, do sentido das palavras, das profundas notas graves, a capacidade de fazer vir à tona a intenção do verso, a delicadeza em mostrar a música como nunca se ouviu antes. É o requinte da elevada depuração para o ouvido humano. Saber ouvir João Gilberto, eis a questão”. Que as novas gerações também aceitem esse proveitoso desafio.

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