Rota do Brasil

Disco produzido por J.C. Botezelli mostra como Nino Rota era íntimo da alma musical brasileira

Para ser lido ao som de Zé Nogueira em Amarcord

Foto: DexMorgan/Domínio público/Wikimedia Commons

“Quando pensei no disco, ficava imaginando o Nino Rota andando pelo Brasil, da fronteira com o Uruguai às praias do Nordeste”, me explicou J.C. Botezelli, o Pelão, produtor deste trabalho e responsável por inúmeros projetos que valorizaram a música brasileira, como os discos pioneiros de Cartola e de Adoniram Barbosa e os livros e as caixas de CDs da série A Música Brasileira deste Século por seus Autores e Intérpretes. “Optei por Nino Rota porque ele é o mais brasileiro dos compositores italianos.

Nino Rota por Solistas Brasileiros foi gravado em 1991. Na época teve uma tiragem pequena de mil LPs feitos por encomenda para uma indústria alimentícia. Persistente, Pelão não abandonou a ideia de lançar o álbum comercialmente e, em 2001, voltou a conversar sobre o projeto com o também produtor Mário de Aratanha, então dono da gravadora Kuarup, que topou ir em frente.

Pelão conheceu a música de Nino rota no final da primavera de 1973, em Curitiba, na casa do crítico musical Aramis Millarch. “Nunca mais me separei do Nino Rota: no dia a dia, nos namoros, no casamento, no nascimento de minhas filhas, nas viagens… Enfim, falei e ouvi sobre Nino Rota, sobre como sua alma se identifica com os brasileiros e como sua música me acompanha, misturando seus sons com os do Brasil”, diz Pelão.

No repertório, Pelão misturou composições feitas para Coppola, Zefirelli e, principalmente, Federico Fellini, retiradas de filmes como Romeu e JulietaRocco e seus IrmãosO Poderoso ChefãoA Estrada da VidaA Doce VidaOito e Meio e Amarcord. Quando convidou os músicos, Pelão sabia exatamente o que queria. “O Luiz Carlos Borges, meu amigo desde os tempos da Califórnia da Canção, nunca havia ouvido Nino Rota. Eu mandei a ele La Gradisca si Sposa e se ne va. Joel Nascimento, com seu bandolim, mostra em Terra Lontana como a música brasileira está próxima da italiana. E o saxofonista Zé Nogueira, exímio intérprete de chorinhos, fez uma das mais belas versões de Amarcord que já ouvi”.

Nino Rota foi um dos mais prolíficos e importantes compositores de trilha sonoras, mas chegou ao cinema não por alguma afinidade artística e sim por vislumbrar ali uma maneira de ganhar a vida fazendo música. Nascido em dezembro de 1911, em Milão, Nino foi um garoto prodígio que se apresentava em óperas e oratórios antes dos 15 anos. Após se formar no Liceo Musical, em Bari, passou a compor para teatro e também para o cinema, porém sem obter nenhum reconhecimento. Seu primeiro trabalho de destaque foi a trilha para Roma Cidade Aberta, em 1946, e, três anos depois, fez a trilha de La Montagna di Cristallo, produção anglo-italiana dirigida por Edoardo Anton e Henry Cass. Nesses trabalhos começam a se destacar duas de suas virtudes: a rapidez em compor e a capacidade de aliar lirismo à tragédia.

Com esses dois filmes, Nino Rota colocou a música italiana no mapa das trilhas e, como tantos outros compositores europeus surgidos a partir dos anos 20 – Max Steiner, Erich Wolfgang, Dimitri Tiomkin, Bronislau Kaper e Franz Waxman – ele passou a ser assediado pelos estúdios americanos. Recluso e mal-humorado, Nino Rota nunca teve interesse em sair da Itália. Decisão acertada, pois sua sorte mudaria logo depois, quando em 1952 aproximou-se de Fellini e compôs a trilha para Lo Sceicco Bianco. Primeira de uma série, a trilha integraria uma parceria afinada que eu quase três décadas foi responsável por clássicos como A Estrada da VidaOito e Meio e Amarcord. Rota dizia pensar em sons e imagens como se fossem uma coisa só e conseguia criar cenas, climas e estados de espírito peculiares para cada filme.

Nos anos 70, Rota iria emprestar seu talento para uma produção de Francis Ford Coppola, O Poderoso Chefão. Para esta trilha, há uma história curiosa: como Nino Rota se negava a sair de sua casa em Bari, Coppola teve de ir lá para pedir a trilha ao compositor. Em três dias as músicas estavam prontas. Rota recebeu o pagamento, nunca se interessou em ver o resultado – e nem sequer foi aos Estados Unidos para receber o Oscar.

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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