Como vai a sua vida?

João Maldonado questiona: que outra pergunta poderia fazer um músico que uniu os orixás ao jazz?

Para ser lido ao som de Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz em A Saga da Travessia

Arte: Daniel Kondo

Toda vez que encontrava meu amigo Letieres Leite, era essa a pergunta que iniciava a nossa conversa: “Como vai a sua vida?”. Se eu tiver que responder neste momento, devo dizer que estou triste pela partida tão prematura do maestro e lamentando os momentos que poderia ter absorvido mais dele. A partir dos meus 18, 19 anos, quando o conheci, aprendi muito com Letieres Leite. Eu era meio imaturo, músico de bar iniciante. Mas hoje o admiro tanto pelo seu legado e pelo seu incansável incentivo para que ouvíssemos nossos corações – brasileiros – de forma poética.

Conheci o Letieres Leite lá pelos anos 1980. Ele se apaixonou perdidamente por uma gaúcha e trocou a Bahia por Porto Alegre, aliás, em um momento pulsante da cidade. Aqui conheceu o grande amor e teve sua filha, Júlia.

O baiano, fã incondicional de Weather Report, tocava nos poucos lugares da capital que valorizavam a música instrumental, como a Sala Jazz Tom Jobim, nos altos do restaurante Lugar Comum, e o Rocket – bar onde estourou o Garotos da Rua. Seus parceiros eram Nei Lisboa, Paulo Dorfman, Alegre Corrêa, Luizinho Santos, Dudu Trentin, Gringo, Jua Ferreira, Fernando Paiva, Glauco Sagebin, Conrado Pecoits, Marcio Tubino, do Raiz de Pedra. Um dia, subi” ao palco” para uma canja na apresentação de Letieres e dali nasceu uma amizade.

Tive o privilégio de frequentar a sua casa, pertinho do IPA. Conheci a Jaqueline, sua mulher, e a Júlia. Ele também se sentou à mesa da minha casa com minha família, no famoso prédio rosa da 24 de outubro. Os encontros constantes se estendiam aos ensaios da banda Pirulito Cinzento, nome inventado por Letieres e Espírito da Coisa. Eu queria viver aquilo. A convivência era de entusiasmo e, como um bom baiano, ajudou a abrir meus caminhos. Fiz da música a minha vida.

Foto: Arquivo pessoal

A sua despedida dos palcos de Porto Alegre aconteceu no dia 25 de setembro de 2015, com a big band baiana Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz. Eles estavam no Theatro São Pedro, em um show especial em homenagem a Dorival Caymmi. E eu estava lá, literalmente, de camarote. Todos os músicos de branco, emanando uma energia que me marcou para sempre. Uma orquestra rítmica e melódica sem nenhum instrumento harmônico. Eu vi ali a união dos orixás com o jazz.

Nosso último encontro foi em 2017, no Aeroporto de Guarulhos. Ele embarcava para Salvador com três troféus que acabara de receber do Prêmio da Música Brasileira. E eu ali, aos 51 anos, ainda me sentindo um guri diante da grandeza de Letieres e de tudo que construiu e fez pela música brasileira. Quando o maestro me viu, a primeira e última pergunta foi: “Como vai a sua vida?”.


Os sons das ruas

Márcio Pinheiro

Há pouco mais de dois anos, conversei rapidamente com Letieres Leite sobre música. O resultado – bem sintético e objetivo, como seu estilo musical – segue aí:

O que existe de jazz no teu trabalho?

Em princípio as improvisações, são baseadas nos mesmos fundamentos: improvisação em chorus sobre acordes e determinadas concepções harmônicas.

Quais foram as influências que tiveste para formar a Rumpilezz?

A música afrobaiana – a religiosa e a da rua – e o jazz universal

Quais músicos de jazz te inspiram?

Weather Report, Miles Davis, John Coltrane, Gil Evans e Wayne Shorter.

Como foi o tempo que viveste no Rio Grande do Sul e como isto fez parte da tua formação?

Foi um período de grande crescimento e diversidade musical. Tenho grande carinho por este período de minha vida. Além de toda experiência tocando com músicos incríveis, eu tive a oportunidade de escrever meus primeiros arranjos para grande orquestra quando trabalhei com a OSPA no começo dos anos 80.

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