Take It Easy, My Brother Charlie

Roberto Muggiati recorda um curioso encontro ocorrido há quase 60 anos

Para ser lido ao som de Charlie Watts em Take the A Train

Arte: Gilmar Fraga

Levou tempo para a ficha cair – na época em que as fichas ainda caíam. Londres, outubro de 1962, no Ronnie Scott’s Jazz Club original, no 39 da Gerrard Street, no Soho. Você descia uma escada funda e estreita como um funil, quase na vertical, e fosse o que Deus quisesse – um incêndio ali, não escapava ninguém. Mas a música era tão genial que a pequena plateia, casa sempre cheia, não se sentia ameaçada. Judeu escocês – que combinação! – o “proprietor” cuidava de tudo: da bilheteria, da cozinha, das bebidas, das toaletes, além de tocar um razoável tenor à la Lester Young com seu trio. Havia também o vibrante grupo da casa, um quinteto de hard bop coliderado pelo trompetista Jimmy Deuchar e pelo genial sax tenor/flautista/vibrafonista Tubby Hayes – “Tubby” de gorducho, o coração não aguentou, foi direto pro céu aos 38 anos.

Recém-chegado a Londres, trabalhando no Serviço Brasileiro da BBC, morando em Kensington (metrô Gloucester Road), logo me tornei frequentador assíduo. Não era para menos: a caminho do exílio europeu, geralmente para morar num acolhedor país nórdico, fugindo do racismo, os melhores jazzistas americanos faziam uma temporada de um mês no Ronnie Scott’s. Em outubro daquele ano foi Dexter Gordon; em novembro, outro tenor sensacional, Johnny Griffin, o conhecido “Little Giant”. O repertório de Dex girava em torno de dois álbuns da Blue Note do ano anterior, Doin’ Alright e Dexter Calling.

Apesar da qualidade da música, os preços eram módicos. Você ficava sócio do clube, mediante uma anuidade pela carteirinha que lhe garantia acesso grátis; pagava apenas a consumação. O problema com os pubs e as casas noturnas britânicos era a complicada legislação que regia o horário permitido para a venda de bebidas alcoólicas. Numa noite de sábado – eu fazia 25 anos – estava com o amigo Narceu de Almeida e à meia-noite fomos desagradavelmente surpreendidos pela recusa do garçom de nos servir novas doses de uísque.

Teríamos de aguardar uma hora a seco até o início do set final de Dexter. As mesas, todas cheias, eram coladas umas nas outras. Um rapaz ao lado, aparentando uns três ou quatro anos a menos que eu, explicou-nos então em bom e pausado inglês: “To have a glass of spirit after midnight you have to order some kind of food together. I’d suggest some cheap burger, I guess you’re not going to eat it, anyway…”.

Agradeci efusivamente a generosa dica que nos salvou a vida naquela noite. Ao final da apresentação de Dexter Gordon, lá pelas duas da manhã, nossa mesa estava entulhada de hambúrgueres fedorentos e murchos que tinham servido apenas como pedágio para adquirirmos a preciosa seiva escocesa. O mesmo aconteceu com a mesa do meu salvador, um rapaz simpático e elegante, também acompanhado de um amigo. Poucos anos depois comecei a ver seu rosto com insistência em jornais e revistas. Era Charlie Watts – imaginem só! – o baterista dos Rolling Stones, que acabou numa das bandas mais famosas do planeta sem gostar muito de rock, sua paixão era mesmo o jazz. E seu companheiro era o vizinho Dave Green – amigo de Watts até o fim – Dave não virou superstar, mas concretizou o sonho de se tornar um bem-sucedido baixista de jazz.

Só agora fiquei sabendo o nome completo de Watts: Charles Robert. Era um rapaz que como eu amava Bird, Diz & Monk…

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