Sons que a estrada calou

Roberto Muggiati comenta a triste relação entre a música e os acidentes automobilísticos

Para ser lido ao som de Bessie Smith em Nobody knows you when you’re down and out

Packard de Bessie Smith, à esquerda, e o segundo carro que o atingiu enquanto ela estava ferida na estrada. (Foto: Domínio público)

Li há pouco no Estadão uma resenha de um livro póstumo de W.G. Sebald em que o autor Paulo Nogueira diz: “(Sebald) morreu em 2001, aos 57 anos, num acidente de carro. Por que tantos escritores são ceifados por veículos motorizados? Barbeiros? Azarados? Camicases?”.

A lista de Nogueira me levou imediatamente para a lista que venho elaborando nos últimos tempos sobre “cadáveres excelentes” em desastres de automóvel. Para ficar apenas na música, trata-se de um verdadeiro Quem-é-quem de notáveis do século 20: a cantora de blues Bessie Smith, em 1937, aos 43 anos, teve o braço amputado depois de um acidente numa estrada do Sul dos Estados Unidos e sua morte, atribuída à demora no atendimento hospitalar por motivos racistas, inspirou uma peça de protesto de Edward Albee, A Morte de Bessie Smith, em 1959. O trompetista de jazz Clifford Brown e o pianista Richie Powell, caíram de um viaduto na Pensilvânia, em 1956, num carro dirigido pela inexperiente mulher de Powell. Morreram todos. Clifford tinha 25 anos, Richie 24 e Ms. Powell 19. Em 1961, a sensação do contrabaixo no jazz, Scott LaFaro, do Bill Evans Trio, morreu num acidente em Flint, estado de Nova York, depois de acompanhar Stan Getz no Festival de Newport. Sua morte, aos 25 anos, deixou Bill Evans em estado de choque durante vários meses.

No Brasil, a música popular pagou um pesado tributo ao automóvel. Esta história cobre 45 anos e poderia se chamar De Chico Viola a Chico Science. Em 1952, no auge da fama, Francisco Alves dirigia sua Buick de São Paulo ao Rio na Via Dutra quando foi atingido por um caminhão e morreu carbonizado. A canção de Nássara e Wilson Batista cantada por Linda Batista o eternizou: “Chora Estácio, Salgueiro e Mangueira, todo Brasil emudeceu, chora o mundo inteiro, o Chico Viola morreu…” O Rei da Voz tinha 54 anos, 34 de carreira. Musa da bossa nova, a cantora Sylvia Telles escapou em 1964 com pequenas escoriações ao dormir no volante voltando de um show. Dois anos depois, quem dormiu ao volante foi seu namorado, Horacinho de Carvalho, na estrada de Maricá, e morreram os dois.  Sylvinha, 32 anos, viajaria no dia seguinte para gravar um álbum em Nova York. Maysa Matarazzo, musa da canção de fossa, vivia em depressão aguda, isolada na Região dos Lagos. Depois do casamento do filho no Rio em 1977, voltava para Maricá sozinha quando morreu num acidente na Ponte Rio-Niterói. Uma das últimas anotações no diário que mantinha desde a adolescência: “Hoje é novembro de 1976, sou viúva, tenho 40 anos de idade e sou uma mulher só. O que dirá o futuro?”. Gonzaguinha nasceu condenado a viver à sombra do Gonzagão. Mas conseguiu abrir seu próprio caminho e tudo ia às mil maravilhas quando a morte o pegou na estrada para Foz do Iguaçu, onde pegaria um avião para um show em Florianópolis. Em 1991, aos 45 anos. Em 1990, aos 19 anos, o filho de Gilberto Gil, Pedro, baterista promissor, morreu ao se chocar com uma árvore na Curva do Calombo, na Lagoa Rodrigo de Freitas; em 1998. Quase que no mesmo local, Oberdan Magalhães, arranjador, compositor, saxofonista e multi-instrumentista de funk, samba-funk, soul, jazz fusion e samba jazz brasileiro, um dos criadores da Banda Black Rio, morreu em 9 de janeiro de 1984 em um acidente de carro. Criador do mangue beat, Chico Science seguia em 1997 de Recife a Olinda quando foi fechado por outro carro e bateu num poste. Teria sobrevivido não fossem as falhas no cinto de segurança. A Fiat pagou dez milhões de reais à família, mas isso não trouxe Chico de volta. Tinha 30 anos.

No cipoal das estatísticas sobre acidentes de carros na internet, não encontrei uma resposta simples para esta pergunta: quantas pessoas morreram até hoje em desastres de carro? Mesmo porque – segundo estatística recente – a cada 24 segundos morre alguém em decorrência dessa causa. Cito um informe da Organização Mundial da Saúde que dá uma ideia da imensidão do problema: “De acordo com o Global status report on road safety 2018, lançado em dezembro de 2018, as mortes nas estradas continuam aumentando em todo o mundo e mais de 1,35 milhão de pessoas perdem a vida todos os anos em decorrência de acidentes de trânsito, o que significa que, em média, morre uma pessoa a cada 24 segundos. O documento revela ainda que as lesões causadas pelo trânsito são hoje a principal causa de morte de crianças e jovens entre 5 e 29 anos”.

A conclusão é arrasadora: desde que passou a ocupar o espaço das ruas – os primeiros carros já circulavam na segunda metade do século 19 – o automóvel já matou mais gente do que todas as guerras, os genocídios, atentados terroristas, as pandemias e outras causas somadas.

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