De: Maricota Duhá-Klinger / Para: José Antônio Severo

Maria Duhá Klinger lembra seu amigo de juventude, o jornalista José Antônio Severo, que morreu na última sexta-feira

Para ser lido ao som de Chico Buarque em Olê, Olá

Querido amigo Severo,

Puxa vida! Você se foi e não deixou aviso na porta.

Se me lembro bem, a música era Ole, Olá, de Chico Buarque. O ano? 1966. Nos conhecemos, em Porto Alegre, quando eu cursava o último ano do segundo grau, então chamado Clássico, no Colégio Bom Conselho. Você namorava a Tita, tia da querida Ana Luiza Job, que estudava comigo, na mesma sala de aula. As festas na casa da Ana eram memoráveis. Esses encontros reuniam intelectuais, jornalistas, artistas locais e, também, aqueles músicos famosos de passagem pela cidade. Além, da gente, uma entourage de jovens, que como eu, deslumbravam-se com a cena e com os participantes.

Você estava sempre lá. Era assíduo. Recém chegado de Caçapava do Sul. Começando a trabalhar na Zero Hora. Você cortejava a Tita, que estava regressando do Rio, depois de um malfadado casamento. Tita era loura e linda.  E, também trabalhava na Zero Hora.

Depois que vocês fechavam o jornal íamos todos beber chope e comer sanduíche aberto nos barzinhos da Independência. Tita transformou-se na minha melhor amiga e, mesmo contra a vontade dos meus pais, eu saía quase todas as noites para essa boemia desenfreada. Terminávamos a noite no Zé do Passaporte. Não havia crime. Porto Alegre era uma festa. Éramos felizes. E sabíamos. Lembra?

Quase imediatamente o teu talento para o jornalismo foi reconhecido, e as oportunidades para mudar-se para o eixo Rio-São Paulo abundaram. Você partiu levando consigo a festa e a Tita debaixo do braço.

O teu crescimento profissional foi retumbante. Você e a Tita viviam em Sampa. Eu mudei-me para o Rio, mas nunca perdi o contato com vocês. Já no Rio, quando eu te apresentei ao Carlinhos de Oliveira, que era amigo do Luiz Carlos Maciel, que também era gaúcho, intelectual e jornalista, foi amor à primeira vista. Vocês três viraram “amigos de infância”. Que trio! A boemia agora era no Antonio’s e nos botequins de Ipanema, do Leblon e da Lapa.

Um dia você apareceu, dizendo que o jornalismo criava limites para extravasar a imaginação. Assim nasceu o teu primeiro livro A Invasão. Com muita honra fui convidada para ser a sua agente literária. O trabalho nunca se concretizou. Eu já estava de partida para Nova York. Perdi a oportunidade de ter uma carreira no mundo das letras.

A tua veia literária rolou abundantemente. General Osório e seu TempoRios de SangueCinzas do Sul e Os Senhores da Guerra são o resultado de profundas pesquisas. O ex-prefeito de Porto Alegre, José Fogaça fez o seguinte comentário quando soube da tua passagem: “Considero Os Senhores da Guerra um dos textos mais eloquentes e arrebatadores da literatura rio-grandense, desses de se ler com sofreguidão e interesse do início ao fim. Um cara de uma simplicidade extrema. Inversa à sua poderosa literatura”.

Você sempre esteve presente na minha vida, mesmo anos depois, comigo já morando nos Estados Unidos, sempre nos encontrávamos. Você era um jornalista consagrado. Levava a notícia na alma. Sempre tinha uma novidade e um generoso convite para algum trabalho interessante. Há algumas semanas trocamos mensagens. Combinamos: “Vamos nos encontrar quando a pandemia acabar”. 

Esta carta de despedida vai pela Amajazz,  já que você sempre foi amante da boa música. Me lembro do orgulho que você tinha da cantora cult, carioca e internacional, Carol Saboya, filha da tua sobrinha Ana Luiza e do maestro Antonio Adolfo. E, depois da morte prematura da Tita, você casou-se com a cantora Célia irmã gêmea da Celma, estrelas no circuito de rodeios de São Paulo e da área rural do Brasil. A música sempre esteve presente na tua vida. Pai honrado de três homens – Julio, Marco e Otávio – sem nunca ter tido filhos. Herança da Tita.

Emocionante o que o Marco escreveu para você: “Aos nove aninhos de idade tive o grande privilégio de ganhar um pai. José Antônio Severo. Homem de fibra que me resgatou de um péssimo cenário e fez seu papel com louvor. Digo a todos que ele não é mais que um pai. Foi meu professor, minha referência como ser humano, profissional hiper genial, parceiro, cúmplice, amigo nas horas certas e incertas. Um avô amoroso e carinhoso. Único que me apoiou e que esteve incondicionalmente ao meu lado nas horas mais dramáticas e cruéis da minha vida. O homem que me ensinou, dentre outras milhares de coisas, o que é caráter, índole, postura, família e, principalmente o que é AMOR. Vá com Deus meu amado pai! E tenho certeza que um dia estaremos juntos nos nossos papos de pura sabedoria que duravam noites a fio. E obrigado pelo universo de amor que deixastes no meu coração! Endless Love Dad!”

Você foi uma figura épica. Um ser humano excepcional.  Maior do que a vida.

Obrigada, companheiro. Valeu!

Um beijo,

Cotinha

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