Uma pequena oração

Antônio Carlos Miguel conta como Dionne Warwick, com sua voz límpida, técnica perfeita, divisão preciosa, teve vez em sua biblioteca musical

Para ser lido ao som de Dionne Warwick em I Say a Little Prayer, de Bacharach e David

Dionne Warwick em especial da CBS Television de 1969
(Foto: Domínio público/Wikimedia Commons)

Já na segunda década desse século, aguardávamos o início da reunião de conselheiros do Prêmio da Música Brasileira, quando Dionne Warwick entrou na conversa que jogávamos dentro. Não adentrou o recinto – sala e varandão da casa de Zé Maurício Machline, idealizador e sempre diretor-geral da premiação que começou como Sharp, então a empresa de seu finado pai, e que trocou de nome acompanhando o de seus novos patrocinadores, até chegar ao das últimas edições, interrompida em 2018 e aguardando melhores tempos. Mas, sim, a cantora estadunidense foi alvo de elogiosos comentários de um grupo que, entre outros, incluía o saudoso Zuza Homem de Mello, Wanderlea, Gilberto Gil, João Bosco e o anfitrião.

No afã de externar minha paixão, contei que, na adolescência, quase detestava-a, era muito “comercial” para meus padrões roqueiros. Guru Zuza não deixou passar: “Como você pode ter mudado tanto de opinião?”, algo assim. Tentei me explicar, de como, naqueles distantes tempos, a atitude, a transgressão comportamental e sonora (distorções, alto volume, gritos) contavam mais do que a limpidez, a técnica perfeita, as arrebatadoras canções de Bacharach & David. Foi uma fase em que até me forcei a concordar com a ideia de que Rolling Stones seriam melhores do que Beatles – sem nunca chegar ao “I hate Beatles” das camisetas que jovens da geração seguinte ostentavam no fim dos anos 1970 e início dos 80.

Agora, viajo além do que consegui então explicar – e, aparentemente, ser entendido por Zuza e demais. Mas, se tratava de virar alguma chave no cérebro e entrar em determinada sintonia. Mesmo que já não ouça tanto assim, ainda percebo muito beleza em Jimi Hendrix. Ou Janis Joplin, mesmo que, após virar devoto de Billie (e Ella, Sarah, Nina, Dinah…), hoje, eu me aplique mais da às vezes insuportável e querida pianista e cantora de jazz Blossom Dearie. Na época em que Dionne imperava nas rádios comerciais, entre o fim dos 1960 e início dos 1980, eu era do time de Aretha Franklin, que continuo gostando. Desta, agora, não só quando imperou como a Lady Soul, mas, também de muito de seu período inicial na Columbia, quando foi resgatada pelo produtor John Hammond do cativeiro que era o circuito gospel. Ela, adolescente, explorada pelo pai, reverendo totalitário tipo os que invadem o Brasil. Hammond, produtor fundamental para as carreiras de um elenco que vai de Billie Holiday a Bob Dylan, não percebeu que um mundo novo já tinha sido inaugurado por Ray Charles e tentou fazer de Aretha mais uma herdeira de Billie Holiday. Os discos desse período, entre 1959 e 1965, não tiveram o retorno financeiro almejado, mas, além de standards embalados em arranjos classudos, já traziam a essência do soul, que é algo do gospel em tratamento profano, encharcado de rhythm&blues. Uma coletânea disponível nas plataformas resume bem a fase pré-soul de Aretha, The Great American Songbook.

Voltando à cantora que motivou esse texto, só há umas três décadas, já imerso na grande canção pré-rock&roll, senti e vivi intensamente a música de Dionne Warwick, quase sempre como o veículo perfeito para o pop mais que perfeito de Burt Bacharach. É a tal sintonia, já que, virando alguma chavinha cerebral, ainda gosto de coisas aparentemente opostas. Como obscuros grupos psicodélicos que não sobreviveram ao progrock que os sucedeu. Deste subgênero, que, entre outras coisas, pretendia fundir o rock ao clássico orquestral (principalmente os românticos), guardo cada vez mais distância – alguma coisa de King Crimson, Pink Floyd e basta. Quando embarcávamos nesses e nos primeiros passos de EL&P, Yes, Gentle Giant, Van Der Graaf Generator, Brother e eu, com mesadas insuficientes para os LPs, cometemos o pecado de trocar em sebos dez por um. Então, as principais vítimas foram artistas do soul que até conviviam bem com Beatles & Stones e cia como James Brown, Aretha, Wilson Pickett, Arthur Conley, etc.

No fim da década de 1970, já com o diversificado gosto mais ou menos consolidado, entendi o valor antropo-sociológico do punk. Sem, no entanto, me entusiasmar, botar para rodar no toca-discos após a conferida profissional. Transposto para o Brasil, teve alguma veracidade nas bandas do ABC paulista ou da periferia carioca (o escritor João Carlos Rodrigues fez um documentário sobre), mas, estas nunca conseguiram o retorno midiático da suposta geração pós punk de Brasília, formada por filhos de diplomatas, militares e funcionários públicos. O cineasta Wladmir Carvalho tem um longa (e parcial) documentário sobre essa vertente. Nela, a Legião Urbana de Renato Russo e amigos ficou como exceção. O resto é resto mesmo.

Mas, após o apartheid que o breve surto progressivo provocou em nossa discoteca, alguns anos depois, administrando melhor a caixa de chaves ou disjuntores do cérebro, corremos atrás. E, já no século 21, o admirável mundo do streaming acabou de vez com o problema. Foi aí que Dionne, com sua voz límpida, técnica perfeita, divisão preciosa, teve vez em minha biblioteca musical. Então, para interromper o fluxo, digito Alfie e escolho a gravação de… Sei lá, são tantas. Vou procurar alguma que não conheço para servir de trilha sonora e despedida.

PS: algumas diferentes versões depois de Alfie, com a letra de Hal David ou instrumental, naveguei pelas de Dionne, Burt Bacharach, Bill Evans, Barbra Streisand, Dom Salvador, Pat Metheny, Joss Stone, Stevie Wonder, Brad Mehldau, Ronald Isley, Seiko Matsuda, John Scofield e não me cansei.

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