Subo nesse palco

Antônio Carlos Miguel escreve sobre Mú Carvalho, tecladista, compositor e cantor que volta com seu cesto de canções em novo disco solo

Para ser lido ao som de Mú Carvalho em Alegrias de Quintal

Arte: Mú Carvalho

Nessa era da informação, em excesso e acessível instantaneamente com apenas alguns cliques na palma da mão, rola também muita desinformação. Daí a vontade de Mú Carvalho, após cinco álbuns instrumentais, reunir em seu novo projeto solo, Alegrias de Quintal, canções que escreveu através da carreira com diferentes parceiros e, assim, botar voz e alguns pingos nos is. Para ficar no exemplo mais gritante, quem glooglear Sapato Velho vai encontrá-la quase sempre creditada ao Roupa Nova. Sim, ela chegou às ondas radiofônicas com o grupo carioca e nunca mais saiu de seus shows, mas, essa é uma composição de Mú, Cláudio Nucci e Paulinho Tapajós. Agora, Sapato Velho volta encerado e brilhando como novo na voz de Zé Renato, uma das participações especiais no disco, e também ganha, no fim do álbum, uma versão instrumental com o acordeom de Mú “cantando” a arrebatadora melodia.

Mú (voz e teclados) formou um quarteto coeso e afinado, com Julio Raposo (guitarras), Lancaster Lopes (baixo) e Pedro Mamede (bateria), para passear com outro olhar por um repertório bem representativo de seu talento para a canção. Além de Sapato Velho, mais duas faixas têm participações especiais: Ana Zingoni canta em “Simplesmente pode acontecer”; e Tuca Oliveira, em A Voz de um Amigo. Ambas estavam inéditas e têm letra de Tuca, jovem cantor e compositor mineiro que é uma aposta de Mú, sendo que A Voz de um Amigo nasceu em inglês, em 2018, parceria com Jonas Myrin, compositor e produtor sueco baseado em Los Angeles que já tem dois prêmios Grammy na estante e músicas gravadas por, entre outros, Barbra Streisand e Andrea Bocelli.

Na abertura, o tema instrumental que dá nome ao álbum entrega mais uma aptidão, a de criar introduções para canções que A Cor do Som ganhou de outros compositores. Alegrias de Quintal reúne três dessas intros que viraram partes indissociáveis (mas vêm das mãos e mente de Mú) de Menino Deus (Caetano Veloso), Abri a Porta (Gilberto Gil e Dominguinhos) e Palco (por sinal, o título do álbum e do tema instrumental de abertura saiu de um verso pinçado da letra de Gil, “…eu, como devoto, trago um cesto de alegrias de quintal”).

Nas três músicas que completam o repertório, Mú também foge da simples regravação, procurando e encontrando novos caminhos. Magia Tropical (parceria com Evandro Mesquita lançada no álbum homônimo d’A Cor, em 1982) ganhou andamento mais suingado puxado pelo baixo de levada funk e pelo piano elétrico de sabor jazzístico. Duas parcerias com Moraes Moreira, Semente do Amor (gravada pela banda no álbum Transe Total, de 1980) e Swingue Menina (esta lançada em Frutificar, disco de 1979), comprovam a química perfeita que sempre existiu entre eles. Elas também funcionam como uma homenagem a um personagem fundamental na história d’A Cor – o grupo começou a nascer no disco de estreia solo de Moraes, ao sair dos Novos Baianos, em 1975.

Devoto da grande música, Mú Carvalho se mostra por inteiro nesse novo disco e, em tempos de confinamento sem fim, distribui alegrias de quintais para todos os ambientes.

Caçula de uma família muito musical, até os 15 anos, Maurício Magalhães de Carvalho pensava em fazer Artes Plásticas. Mas, acabou sequestrado pelo piano e pelos temas clássicos tocados por sua mãe, Dona Flavita. O baixista Dadi, cinco anos mais velho, e mais dois saudosos irmãos, a pesquisadora de MPB Heloísa Tapajós e o produtor musical Sérgio Carvalho, também reforçaram essa paixão. Aos 16, Mú estreou no grupo Semente, ao lado de Cláudio Nucci, Cláudio Infante e Zé Luiz. Em seguida, junto a Dadi, acompanhou Jorge Ben e Moraes Moreira. No primeiro álbum solo de Moraes, nasceu A Cor do Som, que estreou em 1976. A banda, após idas e vindas, tem se mantido com toda a força e a sua formação original no século 21. Paralelamente ao grupo, Mú trabalhou com diversas estrelas da MPB e gravou cinco álbuns instrumentais: Meu Continente Encontrado (1985), O Pianista do Cinema Mudo (2002), Óleo sobre Tela (2005), Ao Vivo (2008) e Elétrico Nazareth (2013). Ele também tem em seu currículo dezenas de trilhas sonoras para o cinema e para a TV. Contratado da Rede Globo desde 1994, é compositor e produtor das trilhas de muitas novelas e séries e, no momento (junho de 2021), trabalha na música original da próxima produção das 21 horas, Um Lugar ao Sol. Ah, nos últimos anos, o personagem de perfil renascentista também retomou pincéis, tintas e telas. Quem quiser conhecer a faceta de Mú enquanto artista plástico pode acessar uma exposição virtual em seu site: www.mucarvalho.com/paintings. Dois quadros do músico, Frevo em Sol Maior e Concerto para Sintetizador e Orquestra, ilustram os dois textos.

2 pensamentos

  1. Belo texto Antonio! Parabéns e obrigado por compartilhar mais informações sobre este músico genial. Sempre respeitei o trabalho da Cor do Som, mas fui literalmente atropelado e me apaixonei na hora quando ouvi o Elétrico Nazareth em 2013, que disco bom! Que bela releitura da obra do Ernesto! Nos disco Acabou Chorare dos Novos Baianos a banda se “dividia” em 2 partes, o Regional do Moraes e A Cor do Som do Pepeu, mais elétrica e roqueira, onde tocava o Dadi. Sabes mais sobre essa conexão? Grande abraço. Roni Barboza

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