Cores e sons

Mú Carvalho fala sobre o grupo, suas ideias musicais, e lembra os amigos André Midani e Moraes Moreira

Para ser lido ao som de A Cor do Som em Frutificar

Arte: Mú Carvalho

Antônio Carlos Miguel deu em seu texto boa parte do retrato musical/familiar de Mú Carvalho. Eu acrescentaria lembrando que ele ainda é primo, pelo lado paterno, de Beto Carvalho (radialista e produtor musical), Guti Carvalho (produtor musical) e tio de Daniel Carvalho (músico e produtor musical). E, pelo lado materno, é primo do pianista Homero Magalhães e de seus filhos músicos Homero Magalhães Filho, Alain Pierre, Alexandre Caldi e Marcelo Caldi. Além de ser casado com a instrumentista Ana Zingoni. Assim, a música está e sempre esteve ao seu redor.

Na longa conversa que tivemos no ano passado, privilegiei meu interesse pela Cor do Som, grupo fundamental na minha formação musical e – mais ainda – na carreira profissional dele.  

Ao lado de seu irmão, Dadi, no baixo, e mais Armandinho (guitarra), Gustavo Schroeter (bateria) e Ary Dias (percussão), A Cor do Som revolucionou o pop brasileiro do período lançando em sequência quatro discos que até hoje são atuais e de extrema qualidade. São eles: A Cor do Som (Warner/1977), A Cor do Som ao Vivo em Montreux (Warner/1978), Frutificar (Warner/1979) e Transe Total (Warner/1980). A partir daí, o grupo entraria numa fase de decadência, com alguns rompimentos, saídas, discos mal produzidos e futuras reagrupações.

Ponte de transição entre o forró/samba/choro eletrificado dos Novos Baianos e as bandas de rock da Zona Sul carioca e da axé-music de Salvador, a Cor do Som foi no final dos anos 70 uma síntese do que se fez na MPB. Por ter atuado como elemento de ligação, a Cor do Som acabou se transformando em elo perdido, sem receber os elogios pelo pioneirismo, nem o sucesso pela divulgação do rock brasileiro. Essa experiência sonora era o resultado dos diferentes caminhos sonoros que uniam os integrantes da banda. Um deles estava na Ilha de Wight, dormindo em sleeping-bag com Gilberto Gil e Caetano Veloso, e presenciando o último concerto de Jimi Hendrix. Outro integrava os Novos Baianos quando foram visitados por João Gilberto e o mestre baiano pediu um minuto de silêncio e depois mandou ver, explicando que havia chegado a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor. Outros dois estão intimamente vinculados à eletricidade dos trios baianos, há mais de cinco décadas animando o Carnaval. E, por fim, ainda sobra espaço para um tecladista, que teve seu apelido retirado de um sintetizador – o mini-moog – e que estava ao lado de Gil na histórica primeira Noite Brasileira do Festival de Montreux – sobre isso também será falado na entrevista a seguir. Parafraseando Gil, eles foram os cinco cavaleiros do após-calipso, usando suas influências para mesclar Jimi Hendrix com Jacob do Bandolim, Eric Clapton com Ernesto Nazareth, Bob Marley com Waldir Azevedo.

A banda surgiu na metade dos anos 70. “Era o nosso hábito de tocar junto”, explicou Dadi, “e o que era apenas brincadeira, virou coisa séria depois que o Moraes Moreira no chamou”. O nome já existia – como sendo um trio que juntava Dadi, Pepeu Gomes e Jorginho Gomes –, mas foi Moraes quem serviu como aglutinador. “O primeiro disco do Moraes Moreira foi fundamental para que nós aprofundássemos nossas ideias comuns e pudéssemos desenvolver uma linguagem pessoal”, confirmou Gustavo. Depois destas experiências, a ideia era fazer música instrumental com sotaque brasileiro, mas o começo não foi dos melhores. Foram dois discos instrumentais, que somados não chegaram a dez mil cópias vendidas.

O segundo disco, gravado ao vivo no Festival de Montreux, trouxe quase que como um bônus track a reprodução de uma das mais sonoras vaias que um grupo brasileiro já levou. Mú, mais de 40 anos depois, avalia e diagnostica o que houve. Na época, o que salvou a banda de um vexame maior foi a solidariedade de Gilberto Gil, que subiu ao palco e num discurso incisivo e didático confirmou que o que a Cor do Som fazia era o que havia de mais genuíno na música brasileira.

Foi uma certa pressão dos empresários aliada aos “presentes musicais” oferecidos por Gil e Caetano que fizeram com que a banda resolvesse soltar a voz. Caetano fez Beleza Pura, Gil, Abri a Porta e Mu musicou uma letra de Moraes Moreira, fazendo com que o grupo passasse a vender mais de 90 mil discos. O sucesso se repetiu com Transe Total – já com parcerias com nomes conhecidos da baianidade como Antônio Risério, ou do rock nacional, como Rita Lee. O grupo cairia um pouco com Mudança de Estação e Magia Tropical e entraria em queda livre a partir de As Quatro Fases do Amor. “Depois de um determinado tempo, parecia que cada integrante queria seguir o seu próprio caminho”, diz Mú. O que era um projeto coletivo passou a ser cada vez mais individualizado. O começo do fim foi a partir da saída de Armandinho. A Cor do Som ainda tentou com Victor Biglione e depois com Perinho Santana, mas o som da cor já não tinha mais as mesmas tonalidades. A seguir, Mú fala:

AmaJazz – Você é contratado da Globo para que tipo de trabalhos?
Mú Carvalho – 
Assinei com a Globo em 1994 e venho fazendo música para novelas e minisséries, dramaturgia em geral. Gosto muito. Comecei a aprender essa linguagem bem antes, fazendo cinema, em alguns filmes com Neville de Almeida. Trabalhei no filme A Dama do Lotação, com Caetano Veloso, e a partir disso apareceram alguns trabalhos naquele final dos 70, início dos 80. Eu amo compor. Sem dúvida essa é minha atividade principal, e gosto muito de estúdio também. Mas fazer música para novela é uma escola. É diferente do cinema. Novela você tem que compor, arranjar e executar praticamente todo o material antes de sonorizar o primeiro capítulo. Além dessa correria, foi fazendo esse trabalho que amadureci nessa linguagem. Fazer música relacionada à cena é incrível. Às vezes não se deve interferir muito, já em outros momentos a música é protagonista.

Como você compõe?
Temos estúdio de pequeno porte, eu e a Ana, minha mulher, que também é instrumentista e cantora. Trabalhamos muito juntos, batemos uma boa bola.

Como é o teu trabalho em estúdio?
Estúdio é um ambiente que sempre gostei. Gosto de criar, tenho uma boa coleção de teclados vintage, sou apaixonado por timbres, acho que isso é outra coisa que sempre me liguei na música. Sou da época que a gente tinha que construir um som no sintetizador, não existia presets, e cada um tinha que ter ‘seu’ som. Assim, estou no Boogie Woogie, esse é o nome do nosso estúdio, de segunda à sexta. Quando a correria está grande por conta de algum trabalho, vou nos fins de semana também. Mas eu amo minha casa também. Tenho um bom piano na minha sala e os teclados que levo para os shows moram aqui em casa. Portanto nessa quarentena está tudo certo.

E como é o teu trabalho musical ao lado da Ana?
Ela é uma superparceira. Minha vida deu um upgrade a partir do momento que começamos a namorar. Ela é uma excelente professional. Ela toca guitarra e tem uma voz linda, canta muito bem.

E os teus discos-solo?
Dos anteriores, O Meu Continente Encontrado tem uma grande importância para mim porque foi produzido pelo Egberto Gismonti. Só por isso já valeu muito. Mas ao mesmo tempo tem uma sonoridade muito sintética. Era o meio dos anos 80, os sintetizadores e as baterias eletrônicas estavam bombando, e o Egberto gostava de programar a drum machine Oberheim que ele tinha. Então, tem uma sonoridade bem datada. O Ed Motta, que é bem ligado nisso, me disse que o Continente é um disco raro, e supervalorizado pelo mundo do vinil. Já o Pianista do Cinema Mudo é totalmente acústico, exceto alguns pianos digitais, mas é basicamente quarteto de cordas, piano, percussão e contrabaixo acústico. É um repertório bem representativo, tipo um cartão de visitas do meu trabalho.

Você tem outros interesses, como a pintura e a gastronomia. Como eles entraram na tua vida?
A pintura desde sempre. Comecei ainda no jardim de infância e seguiu até meus 15 anos. Quando comecei a trabalhar profissionalmente com a música, eu abandonei os pincéis. Em 2013, retomei com tudo. Estávamos em Paris, era meu aniversário e da Ana também, ela dia 5 de junho e eu 8 de junho. Ela deu uma saída e entrou numa loja daquelas de material de pinturas. Comprou uma caixa com tintas, pincéis e tudo mais e meu deu de presente. Ainda demorei um pouco para comprar uma tela. O que me deu um ‘drive’ foi conhecer o Gonçalo Ivo, que eu já era fã há anos. Ficamos amigos, passamos um fim de semana na casa dele em Teresópolis, comprei dois quadros. Fiquei vendo como ele trabalhava. Quando voltamos para casa retomei minha velha paixão pelas artes plásticas. A gastronomia também, coisa de educação. Minha avó e minha mãe cozinhavam muito bem, meu pai era um gourmand, gostava de comer bem, e de beber também.

Vamos voltar um pouco ao passado. Como surgiu a ideia da Cor do Som se apresentar em Montreux?
Tínhamos acabado de gravar nosso primeiro disco, em 1977. A WEA também tinha acabado de nascer no Brasil e o Midani fez uma festa no rooftop do antigo Hotel Nacional, em São Conrado no Rio de Janeiro, com alguns artistas que estavam contratados na gravadora. Havia um palco onde alguns se apresentaram; Guilherme Arantes, acho que as Frenéticas, mais alguém talvez que não me recordo agora, e A Cor do Som. Estava presente nessa festa o Claude Nobs, criador do Montreux Jazz Festival. O Claude realmente gostou muito do nosso som, tanto que o convite foi ali mesmo, logo depois que saímos do palco.

Qual era a expectativa de vocês?
Éramos todos meninos. Eu tinha 20 anos. Tudo foi acontecendo muito rápido e de forma natural também. Não existia deslumbre, a gente só queria tocar, se divertir. Porém, a gente acreditava de verdade na nossa música. Eu sempre achei, desde que comecei a tocar, que o mais importante em todas as artes é ter uma “cara” uma identidade, tanto na composição quanto na sonoridade, e sinceramente, sem falsas modéstias, isso eu sabia que a gente tinha. Não fosse assim não teria sentido colocar a alma e o coração nesse trabalho.

Você também fazia parte da banda do Gil naquele mesmo festival. Qual show foi antes?
O convite do Gil foi assim: eu estava tocando em Curitiba com A Cor do Som, dois meses antes da viagem para Montreux. Depois da passagem de som no Teatro Guaíra, quando chegamos no hotel, tinha um recado da WEA, pediam para eu tentar falar com o Midani. Ele foi direto, disse que o Gil, que naquela altura morava em Los Angeles, estava montando uma banda para tocar com ele em Montreux, e que os dois shows seriam no mesmo dia d’A Cor do Som, e no mesmo palco. Quando ele, o Gil, soube que a Cor do Som estaria lá, pediu para o Midani perguntar se eu toparia tocar com ele. Imagina a minha felicidade. Eu tinha 20 anos… Abrimos o show do Gil, nos dois shows em Montreux, e eu nem saia do palco entre um show e outro. Depois de uns dias, segui com o Gil. Tocamos no Festival de Jazz de Juan Les Pins, em Antibes no sul da França, Buenos Aires e alguns pelo Brasil.

Como foi montado o repertório do show?
Era exatamente o show que a gente vinha fazendo há alguns meses. Rodamos o Brasil tocando esse show e quando subimos no palco de Montreux estava tranquilo, exceto a questão de estarmos tocando no mesmo palco que na noite anterior estava o Ray Charles. Era muito para minha cabeça. Claro que foi muita emoção.

Como foi a recepção do público naquela que foi a primeira Noite Brasileira de um Festival de Montreux?
Sim, estreamos a Noite Brasileira na história do festival. Foram dois shows, um à tarde e outro à noite. O público da tarde era uma garotada mais jovem, uma galera mais tranquila e superparticipativa, foi uma delícia tocar, fomos muito bem recebidos. O show da noite foi diferente. Uma plateia mais fechada, bem tradicional e purista, nos pareceu. Quando tocamos Eleanor Rigby na levada de frevo, algumas pessoas vaiaram. E até deixamos isso no disco. O que eu entendi, anos depois, é que o frevo, que eles não conheciam, tem aquele bumbo reto, marcando todos os tempos fortes, assim como a disco music, que naquela altura era uma categoria de música que os jazzistas definitivamente achavam menor, desprezível mesmo. Mesmo assim o show foi muito bom. As outras músicas foram muito bem recebidas.[MP1] [MP2] 

A Cor do Som tinha contato com o Ivinho, que foi uma das outras atrações?
Na verdade não. Conhecemos ele lá. Uma figura. Um maluco-beleza muito talentoso.

Por que Aroldo fez parte do grupo naquele festival?
Foi um pedido do Armandinho. E a gente topou.

Você chegou a voltar novamente a tocar em Montreux?
Voltei em Montreux três vezes depois, mas sempre a passeio com a Ana. É uma cidade linda. Aquele lago, os alpes…

Você tinha alguma relação com o jazz? Quem você ouvia?
A casa dos meus pais respirava música. Minha mãe pianista, música erudita, tocava Bach, Beethoven, Chopin, Mozart e também alguns compositores brasileiros como Ernesto Nazareth, Zequinha de Abreu. Sou o caçula de cinco irmãos, e todos muito musicais. Minha irmã Heloísa, socióloga e pesquisadora de música, sempre comprava discos incríveis, bossa nova e jazz, o Sérgio de Carvalho, tem história no mundo fonográfico, produziu praticamente todos os discos do Chico Buarque, claro que também trazia discos maravilhosos. O Dadi, começou tocando numa banda de rock, antes dos Novos Baianos e sempre foi ligado em Stones, The Who, o Roberto também, todos curtiam música. E meu pai, um amante da música, sempre recebia em casa muitos artistas, era praticamente um sarau. Jorge Ben, Marcos Valle, Tavito, Roberto Menescal, nosso vizinho. Podes imaginar o ambiente que eu cresci? E o jazz sempre foi muito presente: Miles Davis, Chet Baker, Thelonious Monk, tinha discos de todos em casa, mas o divisor de águas foi o The Köln Concert, do Keith Jarrett. Quando ouvi esse disco fiquei completamente perplexo, apaixonado por aquele som, esse disco me marcou muito. O Keith Jarrett passou a ser um dos meus ídolos. Mas eu tenho muitos ídolos…

Você lembrou que a ida a Montreux teve a participação do Andre Midani. Fale um pouco da importância do Midani para a música brasileira:
A bossa nova, hoje, estaria ainda nos apartamentos da Zona Sul. Acho que essa frase resume a importância do Midani na indústria fonográfica. Ele tinha personalidade, coisa rara nos executivos da música no Brasil. Não imitava

ninguém, não olhava para quem “deu certo” para tentar fazer igual, pelo contrário, ele estava sempre a frente, tinha faro, sabia quando o trabalho era bom.

E a importância do Midani para a Cor do Som?
A mesma da bossa nova. Foi ele que quis ouvir a fita demo que havíamos gravado na Polygram. Soube que o pessoal lá achou que nosso som não era muito comercial, pediu para ouvir e na mesma hora nos chamou para assinar um contrato de três anos. Depois renovamos duas vezes. Ficamos dez anos na WEA.

Como foi para a Cor do Som ser uma das primeiras contratações da WEA?
Acho que fomos a galinha dos ovos de ouro da WEA nos primeiros anos. Tudo foi acontecendo muito bem, a gravadora sempre fazendo um trabalho muito bacana com a gente. Mas depois de cinco anos, quando chegou o movimento do rock nacional, fomos “atropelados”, não só na gravadora como também no sistema: rádios e imprensa.

Você e Dadi mantiveram contato com Midani até a morte dele. Como era o convívio pessoal e artístico com ele?
Sim, ficamos muito amigos. Sempre em contato. Minha irmã Heloisa Tapajós trabalhou com ele na escrita do livro Do Vinil Ao Download. Volta e meia fazíamos algum jantar aqui em casa. Fomos também na casa dele no Alto da Gávea, almoços, aniversários, e tínhamos conta na mesma agência do banco em Ipanema. Volta e meia a gente ficava de papo por ali.

Você é fundador da Cor do Som?
Sim, juntamente com o Dadi, o Armandinho e Gustavo. Depois da gravação do primeiro disco o Ary Dias também passou a ser integrante.

Como surgiu a ideia do grupo?
Quando o Moraes Moreira saiu dos Novos Baianos, ele procurou o Dadi pra montar uma banda para gravar o primeiro disco solo dele. Dadi convidou o Gustavo, que na época tocava bateria com A Bolha e Veludo, bandas de rock cariocas do underground prog. O Moraes trouxe o Armandinho da Bahia. Ninguém aqui conhecia o Armando, e todos ficamos impressionados com a destreza dele tocando bandolim e guitarra. Esse disco é basicamente esse power trio, eu apenas fui convidado para gravar um piano na música ‘Do Som’. Tinha um intermezzo nessa música com uma levada de foxtrot e o Moraes me convidou. Foi a primeira vez que entrei num estúdio. A partir daí o Moraes começou a ensaiar para tocar pelo Brasil e eu fui convidado para tocar. O power trio virou um quarteto. Aconteceu um show no Rio, no Teatro da Praia, o Sérgio, meu irmão que na época era produtor musical da Polygram, sacou que esse quarteto tinha uma sonoridade original, aquela coisa que eu escrevi no nosso outro papo, tínhamos uma “vibe” que não parecia com nenhuma outra banda. Ele, o Sérgio, então nos convidou para gravar uma fita demo. Conseguiu um horário no estúdio da Polygram e lá fomos nós. Foram apenas três músicas. Eu já tinha um bom material de composições, era o que eu mais fazia desde os 15 anos quando comecei a tocar. Apresentei uma música, um baião progresssivo, eles gostaram, tivemos a ideia de gravar uma do Ernesto Nazareth, afinidade em comum minha e do Armandinho, e a outra música foi um frevo do Osmar, pai do Armandinho. Esse frevo era instrumental também e se chamava Double Morse, que alguns meses depois ganhou uma letra do Moraes e passou a se chamar Pombo-Correio, um dos maiores hits do carnaval baiano.

Na época que o Dadi já tocava com os Novos Baianos qual era a tua relação com a música?
Eu era artista plástico. Eu pintava com guache sobre papel e óleo sobre tela. Desde os meus cinco anos até os 15, quando troquei os pincéis pelas teclas. Um desenho meu quase entrou na capa de um disco dos Novos Baianos. Mas nessa época que o Dadi estava nos Novos Baianos, eu estava tocando com a minha galera do Colégio Rio de Janeiro. Tinha um festival anual de música muito bacana. Conheci o Claudio Nucci, o Zé Renato, o Lobão, o Zé Luis, flautista, o Claudinho Infante, baterista. Formamos uma banda, o Semente. Eu, o Nucci, o Claudio Infante e o Zé Luis. Tinha também o Fernando Barroso que foi para Medicina mas acabou de certa forma voltando pra música.

Recupere um pouco a história daqueles anos dourados da Cor do Som? Porto Alegre era uma cidade importante para o grupo?
Porto Alegre era incrível. Todo o Brasil sempre teve muito carinho pelo nosso trabalho, mas Porto Alegre, puxa, a gente se sentia os Beatles. Lotávamos o Gigantinho, onde voltei uma década depois tocando com o Legião Urbana. A gente chegava no aeroporto e era recebido com as fãs cantando PalcoSemente do Amor, na saída do avião. E do Aeroporto ao hotel, do hotel para o Gigantinho éramos cercados por batedores da polícia, para garantir nossa chegada.

Por que houve a separação?
Depois de dez anos houve a saída do Armandinho, a entrada do Biglione, depois outras substituições. Acho que desgastou. E ainda tinha a questão das bandas do “novo” rock nacional. A imprensa nos abandonou, a gravadora também. Estava na hora de trilhar outros caminhos.

E por que houve a volta?
Em 1994, oito anos depois de cada um seguir seu caminho, eu já na TV Globo, mergulhado no meu estúdio, aparece o Armandinho no Rio para fazer uma temporada de três shows no saudoso Jazzmania, na praia de Ipanema. O Armando nos convidou para fazer uma participação. Olha, foi uma emoção. Vimos então que era a hora de nos reunirmos para fazer alguma coisa pela Cor do Som.

Como é tocar um mesmo repertório 30, 40 anos depois?
Sempre a mesma emoção. Mas a gente vem renovando um pouco o repertório, sem abandonar os velhos hits, claro.

Como foi o impacto com a morte do Moraes Moreira há um ano. Você ainda era próximo dele?
Uma tristeza imensa. O Moraes era nosso padrinho, tudo nasceu ali, naqueles shows do primeiro disco dele. E, no meu caso, um dos meus maiores parceiros: fizemos Swingue MeninaSemente do Amor. Puxa, sempre que eu fazia uma melodia e achava que parecia com ele, eu enviava e a letra chegava em poucas horas.

Você ainda convive com os outros quatro parceiros?
Sim. Sempre. Em 2018 lançamos um disco em homenagem aos 40 anos da banda. Muitos convidados ilustres cantando com a gente, nossos hits. Lulu Santos, Djavan, Gilberto Gil, Samuel Rosa, Moska, Natiruts, Flávio Venturini e até o Roupa Nova. Também gravamos um disco todo instrumental. São oito músicas, quatro delas do repertório de Montreux. Uma releitura maravilhosa daquelas músicas, e ainda outras quatro bem representativas também da nossa trajetória, como FrutificarPororocasTicaricuriquetô. Do setlist de Montreux escolhemos Espírito InfantilChegando da TerraArpoador e Dança Saci. Acho que tantos anos depois estamos tocando melhor.

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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