Citações, apropriações, confusões no jazz e arredores

Antônio Carlos Miguel escreve sobre como, a partir do improviso, é possível transformar qualquer tema, até o mais velho, em algo novo e único

Para ser lido ao som de Maria Bethânia em De Manhã e também de McCoy Tyner em Peresina

Arte: Daniel Kondo

Desde que música é música, composições podem nascer inspiradas a partir de outras. Sejam frases, riffs, citações da melodia ou apropriações quase completas, nestes casos, esticando muito o conceito de autoria. É procedimento comum, ou melhor, potencializado no jazz, a partir do improviso, com a capacidade de transformar qualquer tema, até o mais velho, em algo novo e único.

Para criar Koko, clássico instantâneo e fundador do bebop, por exemplo, Charlie Parker usou as mudanças de acordes de Cherokee (Indian Love Song), que o compositor e bandleader inglês Ray Noble lançara em 1938. Este era o primeiro dos cinco movimentos de sua Indian Suite (completada por Comanche Dar DanceIroquoisSeminole Sioux Sue), o que nos permite imaginar que Noble também teria se pautado por algo da cultura dos povos originários da América do Norte para sua obra. Mas, Cherokee na gravação da orquestra de swing britânica, que confiro em tempo real via streaming, em nada remete ao que temos como referência musical indígena nos Estados Unidos. Esta, muito mais aquela distorcida por Hollywood do que a registrada em pesquisas de campo por antropólogos e musicólogos. E a composição de Noble também não é automaticamente reconhecível em Koko.

É caso bem diferente o de Japanese Folk Song, que Thelonious Monk apresentou ao mundo do jazz em 1967, no álbum Straight no Chaser. A sonoridade nos leva sem escalas ao Extremo Oriente e, na época, o pianista contou para produtores da Columbia ter se inspirado em canção folclórica que ouvira durante turnê pelo Japão. Só na edição em CD, em 1996, ficamos sabendo que aquele era um clássico por lá, Kojo No Tsuki (ou Moon Over the Desolate Castle), editada em 1901 por Rentarõ Taki e, posteriormente, muito usada em filmes dos anos 40 e 50, tanto em produções japonesas quanto chinesas. Mesmo que de forma acelerada, por muitos dos 16 minutos e 43 segundos dedicados ao tema, Monk segue a melodia de Taki, este, um pianista e compositor que morreu aos 23 anos, em 1903, após contrair tuberculose durante seus estudos no Conservatório de Leipzig, na Alemanha. Por linhas tortas, de alguma forma, a música do jovem compositor japonês ganhou maior projeção e eternidade graças a Monk.

Prosseguindo no tema principal dessa narrativa, McCoy Tyner citou um clássico da MPB em sua Peresina, lançada no álbum Expansions, de 1968. Em texto de contracapa, Thornton Smith escreve que a composição lembra uma canção romântica brasileira, sem dizer qual. Por um desses acasos, ali pelo meio dos anos 70, Expansions rodava muito no toca-discos do apartamento de um amigo no qual eu morei por um período. E logo percebi que o refrão usado por Tyner vinha de De Manhã, o primeiro sucesso de Caetano Veloso, lado B do compacto com Carcará lançado por Maria Bethânia. Cronologicamente, tal conexão era possível. De Manhã entrou no repertório de Opinião em 1965, quando Bethânia foi convocada por Nara Leão para ocupar seu lugar no show; enquanto o álbum Expansions foi registrado numa sessão única, em 23 de agosto de 1968. Resta saber como a canção teria chegado aos ouvidos de Tyner. Conferindo a ficha técnica e os nomes dos músicos, esbarramos na provável resposta: Wayne Shorter. Afinal, principalmente nas intervenções do saxofonista é que os ecos de De Manhã mostram a cara em Peresina, bem mais do que no piano de Tyner. Talvez não por acaso, em 1970, Shorter casou com uma portuguesa, Ana Maria, muito ligada ao Brasil (até a morte desta num desastre de avião em 1996). E, em 1975, o saxofonista protagonizou um dos melhores encontros do jazz com a música brasileira, Native Dancer, álbum dividido com Milton Nascimento (e ainda Wagner Tiso, Robertinho Silva e Airto Moreira).

Por volta de 1976, eventualmente, frequentávamos Julio Barroso e eu o sempre aberto apartamento de Dedé e Caetano na Praia do Leblon. Certa noite, levei o LP de McCoy Tyner para mostrar minha descoberta, mas, pelo que me lembro, ninguém deu muita atenção ao elo entre De Manhã e Peresina. Agora, também me pergunto o por quê desse título, uma palavra até então inexistente. McCoy Tyner já partiu, mas, Wayne Shorter está aí para talvez esclarecer.

Mais de uma década depois, esbarrei em outra citação que demorei algum tempo para identificar. Em 1987, entrou na trilha sonora de casa Passarim, álbum no qual Tom Jobim apresentou entre tantas outras novas belezas a engenhosa Chansong. Título inspirador, a fusão dos termos em francês e inglês para “canção”; e uma letra em inglês salpicada de expressões francesas (bouquet, touché, pince-nez, pas-de-deux…) e duas ou três palavras em português – incluindo a cervejística Brahma, “let’s have a…”. É letra muito pessoal, como um diário de Jobim sobre sua volta aos Estados Unidos para gravar, com total liberdade, no selo Verve. E aqui, para fazer justiça, vale um parêntese, o contrato foi assinado após negociações costuradas por Carlos Alberto Sion, que acabou injustamente limado da produção do disco. Cerca dois anos após o lançamento de Passarim, tive a oportunidade de entrevistar o compositor. Pauta que vendera para uma ambiciosa publicação paulistana que vinha circulando com textos também traduzidos para o inglês e o japonês. Na época, eu ainda colaborava com as revistas Manchete e Fatos & Fotos e o finado Jornal da Tarde (a vertente mais arejada do Estadão), mas, Jobim gostou da ideia e do perfil da revista, marcando o papo para seu escritório informal, a churrascaria Plataforma. A revista faliu pouco tempo depois, o texto não foi publicado e parte da conversa só veio à luz após a morte de Tom, em página que dividi n’O Globo com Mário Adnet, que também guardava entrevista inédita.

Naquela tarde da Plataforma, num determinado momento, falei de minha paixão por Chansong, de como, de alguma forma não muito clara, remetia-me a Cole Porter. Em meio a baforadas do charuto, Tom riu, disse que aquele era um craque mesmo, e seguimos. Muitos meses depois, mergulhado numa nova gravação de Na American in Paris, a sinfonia de Gershwin que desde a infância frequentava a discoteca de meus pais e meus neurônios, a ficha caiu. Lá pelos 17 minutos, perto do fim, um trecho da melodia se encaixava perfeitamente nos versos “Oh, it’s been a long, a very long time/Since a Brazilian has been in Paris com você”. Refrão que ao voltar no fim Chansong tem o segundo verso trocado, mas, em cima da mesma frase melódica de An American in Paris: “Oh, it’s been  a long, a very long time/Since a Brazilian has danced with you le pas-de-deux”.

Por volta de 1993, já no Segundo Caderno d’O Globo – onde, por sinal, encontrara um ambiente hostil ao maior compositor brasileiro então vivo; “Tom Jobim é um chato”, ouvira de meus colegas em coro após sugerir uma grande entrevista em minha primeira reunião de pauta –, voltei a me encontrar com ele. Era uma coletiva no Jockey Club, onde faria um show, mas, momentos depois, tivemos direito a uma foto exclusiva. Aproveitei para lembrá-lo de meu encantamento com Chansong e comuniquei-o de minha descoberta: a conexão era com George Gershwin, e não Cole Porter. Tom riu de novo, concordando também quando comentei que se tratava de homenagem, muito distante de um plágio. Um brasileiro em Nova York citando An American in Paris de um de seus mestres nos Estados Unidos.

Para fechar, vamos à confusão: um bolero roubado sem querer (e saber) por John Lennon. Lançado em disco em 2017, Ay Amor! (Biscoito Fino), começou a nascer nos palcos, em show da paulistana Fabiana Cozza e do pianista cubano radicado em São Paulo Pepe Cisneros. É dupla se transformando em um, o pianista e cantor Bola de Nieve. Também compositor, assinando com parte de seu nome de batismo, Ignacio (Jacinto) Villa (Fernandéz), o cubano Bola é creditado em quatro das 15 faixas de Ay Amor. No entanto, em parceria com o maestro e arranjador mexicano José Sabre Marroquín, também é o autor de uma quinta, Es tan Dificil, que, no disco de Fabiana, vinha atribuída a John Lennon. Crédito que me deixou mais intrigado após ir conferir It’s so Hard, rock que foi o lado B do compacto com Imagine, lançado pelo ex-beatle em 1971. Nos anos 1970, era comum na América Latina traduzir para o espanhol os títulos das canções em inglês. Num compacto simples argentino que pesquei na rede, podemos ver o lado B de Imagine, a tal Es tan Dificil que gerou o erro em série, replicado em inúmeras coletâneas, artigos e sites na internet dedicados a Bola de Nieve. Erro que se propaga desde o início dos anos 70, quando o álbum póstumo El Inolvidable Bola de Nieve (Kubaney / Regis) creditou ao ex-Beatle a autoria de Es tan Dificil, o bolero, que nada tem a ver (melodia ou letra) com It’s so Hard. Esta lançada por Lennon em seu segundo LP solo de estúdio, Imagine, que saiu na Inglaterra em setembro de 1971 – um mês antes da morte do cubano, em 2 de outubro de 1971.

Tirando o engano (não tão justificável em tempos de acesso à informação a poucos cliques e segundos), o álbum de Cozza & Cisneros é boa porta de entrada ao universo de Bola de Nieve. Personagem que conheci antes de ouvir, através da literatura de Guillermo Cabrera Infante, cubano que, após o encanto inicial, rompeu com o regime de Fidel. Por sinal, no período em que viveu em Londres, Cabrera Infante chegou perto de outro Beatle: foi o roteirista de Wonderwall (1968), o filme psicodélico de Joe Massot com trilha sonora de George Harrison (registrada no primeiro voo solo de um dos Fab Four, em LP que também inaugurou o selo Apple). Mas, esse disco, fruto da fascinação de Harrison pela Índia, é também outra história.

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