Criador e criatura

Roberto Muggiati destaca que muito se falou em Raul de Souza o trombonista e compositor mas pouco se falou no inventor, o único músico brasileiro que criou e patenteou um instrumento

Para ser lido ao som de Raul de Souza em Sinfonia nº 3 de Brahms

Foto: Reprodução

Raul de Souza começou a tocar na contramão do seu ofício – não num trombone de vara protocolar, mas num velho trombone de pisto, que foi o que seu pai, pastor evangélico, pôde comprar para o filho que já mostrava pendores musicais, tocando pandeiro na igreja, aprendendo bumbo, pandeiro, caixa e prato e tocando tuba na banda da Fábrica de Tecidos Bangu. Esse handicap inicial foi benéfico, obrigando-o a ser o melhor de todos. Graças a seu talento fenomenal, Raul em poucos anos teve acesso aos melhores trombones de vara da praça. Mas guardou laços afetivos com o velho trombone de válvula. Foi isso o que o levou, quando morava em Los Angeles, em 1975, a encomendar ao artesão Dominique Calicio “um trombone em dó de quatro válvulas cromáticas (ao invés dos três pistos convencionais), com dois gatilhos de correção de afinação e um registro para mudança de tessitura para notas mais graves; e, ainda, um captador eletrônico e pedais que permitem vários efeitos como wahwah, delay, refrão e oitavador”.

O pianista e produtor norte-americano George Duke descreveu o caráter sonoro do instrumento como uma “mistura entre um trombone tenor e uma trompa”. Raul pode ser ouvido no novo instrumento, batizado de Souzabone, já em seus álbuns de sucesso Sweet Lucy (1977) e Don’t Ask My Neighbours (1978). O próprio Raul ilustra a sonoridade e os efeitos do souzabone nesta gravação de 22 de outubro de 2012 em São Paulo, (Teatro Anchieta do Sesc Consolação) nos dois minutos que antecedem À Vontade Mesmo. Ele toca a cappella o poco allegretto da Sinfonia nº 3 de Brahms (variações de Haydn), popularizada em 1961 como tema do filme Aimez-vous Brahms? (Mais uma vez Adeus), baseado no romance de Françoise Sagan. No segundo minuto ele aciona no pedal os ricos recursos eletrônicos do Souzabone. Raul criou o instrumento para ser compartilhado generosamente pelos companheiros de música, mas esbarrou na realidade de que nem todo trombonista é um Raul de Souza. Muitas vezes ele se queixou comigo da resistência da maioria dos músicos ao desafio do novo. Enquanto não surge uma nova geração mais curiosa e mais ousada, teremos de nos contentar com as gravações que Raul deixou, dedilhando o seu souzabone. O que não é pouco…

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