Maravilhoso mundo musical

Antônio Carlos Miguel escreve sobre Nelson Angelo, ou Nelsangelo, um músico que viaja em outras esquinas e além do tempo normal

Para ser lido ao som de Nelson Angelo em O Pensador

Pelo que a mensagem no zap deu a entender, Nelson Angelo quer aumentar seu público, chegar também àqueles que o desministro da Economia despreza, babás, faxineiras, pedreiros, porteiros e seus filhos, vestibulandos ou não. O primeiro sinal dessa mudança seria uma nova versão de Fogo Lento, que botou nas plataformas de streaming em abril. Mas, algumas audições depois, a bela canção, de melodia envolvente, harmonia rebuscada, em nada parece com o padrão que tem vigorado nas mídias. Ou na grande mérdia, como dizia o saudoso iconoclasta Ezequiel Neves, um conterrâneo e contemporâneo de Nelson que sempre passou longe das esquinas de Belo Horizonte nas quais este transitava.

Foto de 2014 que flagra Nelsangelo em seus domínios, no bairro carioca do Jardim Botânico

Após ouvir os questionamentos acima, em outra mensagem, o violonista, guitarrista, compositor, arranjador, cantor dá mais detalhes: “Estou de saco cheio de ficar fazendo música apenas para músico ouvir. Essa gravação de Fogo Lento é mais popular, mas não deixa de ser bem-feita. Fiz uma pesquisa com a faxineira que trabalha com a gente, ela mandou para as amigas, e foi incrível a resposta dessas pessoas. E ninguém sabia quem eu era, não tinha nada de Clube da Esquina, Nelson Angelo, nada, na boa. Sem forçar barra, eu quero me expor mais e vou ficar muito feliz de chegar perto. Não estou mudando a minha música, é a mesma coisa que sempre fiz. Mas, quero furar a barreira, chegar a outros lugares, além do público que sempre tive”.

Nada mais louvável. E, num mundo em que ainda existiam shows presenciais e festivais de jazz, mais de uma vez, pudemos comprovar que não há barreiras para a arte. Em concertos abertos ao povo, em praças públicas lotadas de cidades como Rio das Ostras ou Paraty, por exemplo, era emocionante assistir a famílias inteiras da região misturados a turistas e jazzficionados, todos viajando junto e sem preconceitos com a música das novas ou consagradas estrelas do jazz e do instrumental brasileiro.

A questão, numa era de tanta oferta e informação a um clique, é como chegar. Mesmo junto a formadores de opinião, jornalistas ditos especializados, o nome de Nelson Angelo Cavalcanti Martins pode soar distante. É lembrado por quem já se aplicou no tal aberto e influente Clube da Esquina de Milton Nascimento & galera; no álbum que ele lançou em 1972 pela Odeon com a então companheira Joyce (hoje Moreno), com quem teve as filhas celebrizadas pela mãe no sucesso “Clara e Ana”; ou ainda, no ano seguinte, no disco lançado na França que dividiu com dois outros “N”, Naná Vasconcelos/Nelson Angelo/Novelli (Selo Saravah).

No fim de 2020, quando digitalizava negativos P&B dos anos 70 e 80 e compartilhava na rede social parte do seu  acervo, Antônio Carlos Miguel foi avisado por amigos que identificaram Nelson Angelo como sendo o guitarrista que divide o palco com o flautista/saxofonista Nivaldo Ornellas. Foi um show de Egberto Gismonti, em 1976, no Teatro Tereza Rachel

São dessa época clássicos como Canoa Canoa (parceria com Fernando Brant) e Fazenda, ambas na voz de Milton Nascimento, e ainda Tiro Cruzado (parceria com Márcio Borges lançado no LP com Joyce). Através das décadas de 70 a 90, Nelson Angelo trabalhou com um time de sonhos da música brasileira – passa por Elis, Milton, Egberto, Edu Lobo, Johnny Alf, Alaíde, Nana, Beto Guedes, Simone, Sérgio Mendes, Francis Hime… – e também fez um montão de preciosos e obscuros álbuns independentes.

Em 2007, época em que ainda existia o mercado desse produto físico chamado CD, a dupla de garimpadores sonoros Ronaldo Bastos e Leonel Pereda fez para o selo Dubas Música, junto ao próprio, a coletânea nada óbvia, verdadeiro colar de pérolas que é Tempos Diferentes: O Maravilhoso Mundo Musical de Nelson Angelo. Para muitos – incluindo o então desinformado escriba que batuca esse teclado – foi o reencontro com uma obra formidável, ignorada por tantos e tanto tempo. As 11 gravações reunidas alternam material desses independentes e duas então inéditas, um standard jazzístico, Lullaby of Birdland, e um clássico instantâneo de Nelson, Itaobim, canção etérea, quatro versos apenas, densamente inspirados em Guimarães Rosa; apenas na voz e no piano do compositor. Ambos apenas com aspas, é claro. Desde então, a música de Nelson Angelo não parou, outros álbuns independentes saíram. Um deles, O Pensador, em fins de 2019, pelo selo Rocinante (do também compositor, violonista e cantor Sylvio Fraga), seria lançado em grande estilo não fosse a pandemia que botou o mundo em modo pausa. Passou meio em branco mas merece muita atenção. Está nas plataformas de streaming e tem lugar garantido na lista de melhores de qualquer ano, na obra de Nelson ou da música criativa mundial. É um passeio com outros arranjos e intenções por Hotel Universo (letra de Ronaldo Bastos), Tiro Cruzado (letra de Márcio Borges), Testamento (parceria com Milton), Canoa, Canoa e Fazenda. E ainda inéditas ou obscuras tão inventivas quanto Dendágua (que, antes de receber a letra de Márcio Borges, apareceu em 1988 no álbum Violão e Outras Coisas como Harmonia da Água) e Simples ou os temas instrumentais que dialogam com o jazz No Sul do Polo Norte e No Norte do Polo Sul.

Nessa era da informação abundante, foi necessário um zap anunciando a chegada discreta de O Pensador (pelo que consta, solenemente ignorado pelo que restou da imprensa no eixo Rio-SP) para digitar o nome do artista no buscador do streaming… E se deparar com quatro outros álbuns igualmente surpreendentes. Vitral do Tempo (2019), Trilha Sonora de uma Viagem (2008), Minas em meu Coração (2009) e Nelson Angelo 2018. O que tem o ano no título, ele próprio vendia, por R$ 4, 5. Sem capa, tinha um QR Code para os interessados pegarem a ficha técnica. Nas palavras do autor, “É caseiro, tocando coisas antigas como Caminhão Amarelo, música do disco com Joyce. Ou então canção com letra que Chico Salles me deu antes de subir. Também inverti o Luar do Sertão, que virou Sertão do Luar. É absolutamente despretensioso, mas, tem momentos agradáveis, sem pensar em mercado”.

No início de 2019, para os 70 anos que então completou, fez outro caseiro, Vitral do Tempo, este só disponível em plataformas digitais.

Há também o absolutamente pretensioso Trilha Sonora de uma Viagem. Feito em 2008 para um projeto de Minas Gerais… Ele pegou violão e gravador, viajando pelo interior de Minas, de ônibus, carro, de repente até carro de boi, e assim reunindo o repertório. “É uma espécie de opereta, pensando numa banda que passaria por diversas cidades”. No estúdio, Nelson Angelo pôde contar com orquestra; e gente que partiu cedo, os cantores e compositores Vander Lee e Flávio Henrique, este junto ao quarteto Cobra Coral. É desse disco que veio a agora regravada Fogo Lento e ainda invenções como Palmital (delirante tema instrumental que, entre outras belezas, cita a melodia mais que internacional de Garota de Ipanema, a mesma recentemente tão bem reaproveitada por Anitta em seu último feito, Girl from Rio).

Pegando carona no antetítulo da coletânea não óbvia da Dubas, trata-se mesmo de um maravilhoso mundo musical o de Nelsangelo – como me peguei falando, grafando nesses últimos zap-contatos. Soa mineirês, mas, ele disse não se lembrar de já ter sido assim chamado. E nesses tempos diferentes com tanto tempo sobrando – sim, para aqueles que não estão entre os desprezados por Paulo Guedes e seu chefe genocida -–a obra de Nelson Angelo é um tesouro a ser descoberto por muitos mais.

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