Cruel é isso tudo

Marginal e genial, Sérgio Sampaio, como ele dizia, ainda tem que acontecer e precisa ser (novamente) descoberto mais de duas décadas depois de sua morte

Para ser lido ao som de do disco Tem que Acontecer 

Foto: Arquivo pessoal
Leros, boleros, tangos e outras delícias

O desvio artístico de Sérgio Sampaio era claro e pode ser resumido por uma história emblemática: em 1978, ele se apresentava no Teatro Opinião, no Rio, e quando cantava a música Pobre Meu Pai, um gato preto, que morava no teatro, colocou-se a sua frente e só levantou quando a música acabou. A história entrou para o folclore musical e o próprio Sampaio fazia questão de espalhá-la para exaltar as tragédias e os azares de sua vida. 

Em 2005, quase 12 anos depois de sua morte, Sampaio foi lembrado por um discípulo temporão, o maranhense Zeca Baleiro, produtor de Cruel, disco que Sampaio planejava lançar em 1994 – depois de 12 anos sem gravar. Os derradeiros e incompletos registros deixados por Sampaio podem servir de resumo para a compreensão de uma carreira ao mesmo tempo errante e instigante, como demonstram os versos líricos de Brasília (Quase que ando sozinho por todos os bares frequento lugares / Namoro suas filhas, Brasília) ou então a acidez e a ironia de Pavio do Destino (O bandido e o mocinho / São os dois do mesmo ninho), Rosa Púrpura de Cubatão (Ó, minha amargura, minha lágrima futura / Vai morrer a criatura que lhe amar) e Polícia, Bandido, Cachorro, Dentista (Eu tenho medo de polícia, de bandido, de cachorro e de dentista / Porque polícia quando chega vai batendo em quem não tem nada com isso).

Artista autodidata e intuitivo – “Músico é Hermeto, Egberto. Eu não sou. Toco no violão como quem toca no corpo de uma mulher sem saber as zonas erógenas”, explicava –, Sampaio sempre fez questão de viver na periferia artística. Costumava encarar o fracasso quase como uma filosofia de vida e, às vezes mesmo de maneira amarga, gostava de brincar com o próprio insucesso.

Conterrâneo de Roberto Carlos – os dois nasceram em Cachoeiro do Itapemirim –, Sampaio chegou a flertar com o sucesso com a explosão de Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua, marcha-rancho com levada pop que trazia na letra um acento de protesto. A canção se transformou num dos maiores hits de 1972 e, na época, ele chegou a ser apontado por uma revista como sucessor do Rei. Debochado, Sampaio apressou-se em ridicularizar qualquer comparação, mandando o seguinte recado em Meu Pobre Blues: “E agora que esses detalhes / Já estão pequenos demais / E até o nosso calhambeque não te reconhece mais / Eu escrevi um blues/ Com cheiro de uns dez anos atrás / Que penso ouvir você cantar”. 

Apesar da iconoclastia, Sampaio nunca se recuperou de ter perdido a efêmera fama passando a ter nas duas décadas seguintes uma carreira inconstante, quase sempre atrapalhada pelos problemas alcoólicos e pelas internações até morrer no dia 15 de maio de 1994, aos 47 anos, vítima de uma crise de pancreatite. Maiúsculo, música que fecha Cruel, destaca quase todas as agruras da vida do músico e ressalta a precariedade das condições artísticas que Sampaio atravessava na época. Por essas dificuldades propositais – a gravação da última faixa é repleta de barulhos da rua e de portas batendo ao fundo – os efeitos procuram deixar claro que Sampaio estava escrevendo seu testamento. Estava se despedindo.

PS: Sérgio Sampaio é jazz? Eu acho que é. Pela vida errante, pelas vicissitudes, pela arte feita no improviso, pela proximidade com grandes instrumentistas (Paulo Moura, Luiz Alves, Laércio de Freitas, João de Aquino, Mauricio Einhorn…), Sampaio era um cantador andarilho e um bluesman que fazia sambas.   

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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