Pegadas de um gênio para não-puristas

Antônio Carlos Miguel, que foi apresentado à arte de Gary McFarland por Ed Motta, Kassin e João “Perna” Duprat, traça um panorama completo da obra deste músico pouco lembrado

Para ser lido ao som de Gary McFarland em Today

No espaço de uma década, esse vibrafonista, compositor, arranjador, maestro e cantor/assoviador produziu uma surpreendente e meio que bipolar obra. Nela, transitou entre um jazz orquestral e camerístico, que dialogava com o clássico, e uma aparentemente fusão diluída com pop e bossa nova. A morte, em circunstâncias obscuras, tirou de cena um criador que arriscava novos caminhos para o jazz e só começou a ter seu trabalho plenamente reconhecido três décadas depois.

Na tarde de 2 de novembro de 1971, Gary McFarland saiu de um estúdio de gravação em Nova York e foi encontrar dois amigos no 55 Bar, no Village. Alguma conversa jogada dentro, até o músico cair no chão, morrendo antes de chegar ao hospital. A suspeita inicial, de um ataque cardíaco por causas naturais, logo foi descartada. Era improvável a hipótese de uma ocorrência tripla – o escritor David Burnett entrou em coma e morreu ainda alguns dias após; enquanto o amigo sobrevivente, o baterista Gene Gammage, também foi internado em estado grave –, o que se confirmou com a autópsia: doses muito acima do tolerável de metadona líquida foram detectadas no corpo de McFarland. A droga, normalmente usada para o tratamento de viciados em opiáceos como a heroína, teria sido adicionada aos drinks dos três. Na época, as mortes não foram investigadas a fundo: tentativa de triplo suicídio ou atentado? E, neste caso, quem teria batizado as bebidas?

Só dois anos depois, em uma entrevista para a Playboy, o novelista Mason Hoffenberg deu uma pista. Então lutando contra o vício em heroína, ele encontrou o amigo David Burnett no tal bar e, ao sair, esqueceu um cesto com roupas que levara à lavanderia e duas garrafinhas de metadona. Mas, nunca se soube o que levaria McFarland e amigos pegar os frascos e adicionar seu conteúdo ao que bebiam.

Então aos 38 anos, Gary McFarland não tinha razões para se matar. Mesmo que sua carreira como solista, compositor e arranjador dividisse a crítica e não fosse exatamente um sucesso comercial. Dez anos antes, ele lançara o primeiro álbum em seu nome, The Jazz Version of “How to Succeed in Business Without Really Trying”, como o título entrega, uma versão jazzística, de big band, para o musical de Frank Loesser lançado na Broadway no início de 1961. Naquele mesmo ano, ele dividiria os créditos do álbum All the Sad Young Men, Anita O’Day com The Gary McFarland Orchestra. No texto de contracapa, os compradores eram informados de que Anita tinha o suporte do “mais moderno som orquestral” de sua carreira. Arranjador e regente Gary McFarland, também assinava três canções no repertório. E, em 1962, seria a vez de McFarland dividir os créditos com Stan Getz em Big Band Bossa Nova, novamente como arranjador, condutor e autor de quatro canções – estas passaram em branco, sem o autêntico “bossa-novismo” das autênticas Manhã de Carnaval (Bonfá e Maria), Chega de Saudade (Tom e Vinicius), Samba de uma nota só (Tom e Mendonça) e Bim Bom (João Gilberto).

Bons cartões de visita, comprovando o potencial e as conexões daquele jovem de 27 anos, nascido em Los Angeles, criado no Oregon, e que descobriu o vibrafone e o jazz quando serviu o exército. Mas, o pulo de gato aconteceu em 1963, em LP ainda creditado à Gary McFarland Orchestra, desta vez com um “special guest soloist”, nada menos do que Bill Evans. São oito temas, todos de McFarland, gravados entre 18 de dezembro de 1962 e 24 de janeiro de 1963 no Webster Hall, em Nova York, altamente viajantes. Night Images, a segunda faixa, com seus cinco minutos e 55 segundos, resume tudo. Dá para cravar como a melhor composição para uma noite silenciosa e evocativa. Impressionista, traduzindo em música as imagens noturnas, que devem ser consumidas nessa situação, em altas horas, por poucos, talvez ninguém mais do que o solitário ouvinte. Introduzido pelo vibrafone de McFarland, o tema prossegue com um naipe de cordas, depois flautas, até cair nas mãos de Bill Evans, num piano delicado que se mistura à sutil e minimalista orquestra. Pausas, silêncios dividem lugar com os timbres melancólicos e apaixonantes. É um jazz camerístico, que cabe dentro do estilo que o arranjador americano Gunter Schuller batizou nos anos 50 como Third Stream, uma corrente que combinaria a música clássica com o jazz.

Ainda em 1963, Point of Departure, este creditado a McFarland (sem a Orchestra) e com mais destaque para seu vibrafone, mantém a vertente, com traços do hard bop e da cena musical avant-garde. No tema Amour tormentoso, somos introduzidos a uma das marcas de McFarland em muitos dos discos que faria a seguir, os vocalises. Estes, tinham sido uma sugestão de Creed Taylor, ao perceber que, durante os ensaios, o vibrafonista costumava entoar a melodia das composições cantando sem a letra ou assoviando.

Soft Samba, álbum gravado entre setembro e outubro de 1964, e lançado pela Verve em marco de 1965, traz outras novidades além dos vocalises. O jazz é trocado por uma bossa pop; o compositor é substituído por sucessos do momento, incluindo quatro canções de Lennon & McCartney. Numa delas, I Want to Hold your Hand, o violão de pegada bossa foi garantido por Antonio Carlos Jobim, que ainda tocou em La Vie en Rose – enquanto no restante do álbum a guitarra está nas mãos de Kenny Burrell.

Antes de qualquer um no jazz, ou na pretensa música séria da época, McFarland percebeu a riqueza da obra dos Beatles. E isso também antes destes voarem bem mais alto, a partir da trilogia Rubber SoulRevolver e Sgt. Pepper. Aplausos aos Beatles e, na outra ponta, à bossa nova, que, como descreveu McFarland para Felix Grant, “soprava uma brisa suave, uma música deliciosamente poética”. Em 1965, a revista Down Beat, abriu espaço para o músico rebater com o artigo “Confissões de um não-purista” aos críticos que condenavam sua adesão ao pop: “Os Beatles estão realmente sintonizados e têm aquela pequena embalagem extra de mágica, que diferencia o superior do comum”.

Ele estava descobrindo a pólvora, mas, na época, público e críticos de jazz torceram os narizes; e o mercado pop tampouco se encantou. McFarland não teve um décimo do sucesso que, um ano depois, conseguiu com fórmula similar Sergio Mendes, à frente de seu Brasil ’66.

Ainda em 1965, também pela Verve, The In’Sound avançou por essa trilha. O repertório alternava quatro composições de McFarland com seis recriações, que iam de I Concentrate on You (Cole Porter) a Satisfaction (Jagger & Richards) – esta, injetada de leveza e bossa nova, quase o contrário do que faziam os então frenéticos Rolling Stones. Pop e delicioso para quem não tem preconceitos.

Nos seis anos seguintes, Gary McFarland se alternou entre essas duas, a princípio antagônicas, vertentes. Jazz e clássico como em The October Suíte (Impulse, 1966), com o pianista Steve Kuhn, tão bom quanto o que dividiu três anos antes com Bill Evans. São seis longos temas de McFarland, que não toca vibrafone, ocupando-se com os arranjos e a regência dos instrumentistas: um trio de piano, baixo (Ron Carter) e bateria (Marty Morell), eventualmente acrescido de naipes de cordas e sopros e harpa, tudo usado de maneira parcimoniosa e camerístico. Com resultados perfeitos e que serviriam de inspiração para pouco depois o produtor alemão Manfred Eicher criar o selo ECM Records, e contratar Steve Kuhn.

Ainda na praia jazzística estão Scorpio and Other Signs (Verve, 1968) e America the Beautiful (1969), esta, uma ambiciosa suite orquestral lançada originalmente no selo Skye, que McFarland criou em parceria com o guitarrista Gabor Szabo e o também vibrafonista Cal Tjader. No Skye (que faliu dois anos depois), eles também investiram na estreia de uma dupla de irmãs de São Francisco, Wendy & Bonnie. Mais um fracasso comercial, apesar da curiosa aventura de jazz, folk e pop-psicodélico oferecida pelo álbum Genesis.

Mudando a chavinha no cérebro, também é possível viajar longe com esses discos de abordagem bossa-pop-jazzy. Em Simpático (Impulse, 1966), em dupla com Gabor Szabo, os dois assinam (individualmente) sete das 11 faixas. O repertório é completado por duas dos Beatles, The Word e Norwegian Wood, o standard Nature Boy (Eden Ahbez) e Cool Water (Bob Nolan).

Does the Sun Really Shine on the Moon? (1968) abre com God Only Knows (o clássico instantâneo de Brian Wilson com os Beach Boys), tem ainda mais do pop do período, Beatles (Here, There and Everywhere) e Rolling Stones (Lady Jane), e ainda um aceno à bossa nova, na bela e melancólica versão de O Amor em Paz (Tom e Vinicius), mas, não se sabe porquê, com o título O Morro.

No ano seguinte, Today (Skye) é outro álbum admirável e esquisito – aqui, usando a acepção do termo em inglês, esquisite, ou seja, requintado, sofisticado. Poderia acrescentar lesado, como prova a arrastada versão da beatle Because na abertura. Clima que prossegue nas 12 faixas, chegando ao andamento de lesma imprimido a Suzanne, com McFarland mais declamando do que cantando a letra de Leonard Cohen. Esquisitíssimo e viciante, já que aos poucos o arranjo revela a beleza de uma das mais criativas melodias do canadense, quase sempre mais grande poeta do que compositor.

Belezas que até hoje incomodam muitos. Na breve resenha do site Allmusic, Douglas Payne reserva apenas duas das cinco estrelas possíveis para o álbum e acusa McFarland de “criminosamente desperdiçar um elenco all-stars”, com, entre outros, Hubert Laws, Curtis Fuller, Sam Brown, Ron Carter, Grady Tate e Airto Moreira. O crítico apenas salva o “excelente cover” de Get Back. Mas, entre as canções dos Beatles, a mais inventiva releitura é a imprimida a Michelle, na qual a óbvia associação à França é trocada por sotaques espanholados e mouros. O tema é apresentado por violão, assovio e vibrafone mas, a partir do meio, se descola, com o improviso de Laws na flauta, voando alto e fazendo a conexão inusitada com os sons do Oriente Médio. O Brasil também teve vaga nesse álbum, com uma correta Desafinado (Tom e Vinicius) e, para fechar em alta, um Berimbau (Baden e Vinicius) na base de vibrafone, flauta e vocalises.

O último disco lançado em vida, Butterscoth Rum (1971), é creditado a Gary McFarland e Peter Smith, este um cartunista que assinou as letras. Sim, dessa vez, McFarland canta, enquanto o formato está mais próximo do pop, sem tinturas bossa-novistas. Foi ignorado na época e, agora, o crítico da Allmusic dá apenas uma estrela e meia, detonando as “letras beatnik e pessimamente interpretadas”. OK, gosto se discute, no entanto, talvez o senhor Payne não tenha chegado até à penúltima e fascinante faixa, a impressionista Rain on the Ocean.

McFarland não teve muito tempo para saber qual a resposta do público. Segundo depoimentos de amigos e da companheira (com quem teve um casal de filhos), na época, ele planejava investir em trabalhos para os palcos e as telas. Mas, a metadona líquida, adicionada não se sabe como ou por quem, abortou seus projetos e sonhos.Esquecida por décadas, já no novo milênio, a música de McFarland renasceu via o interesse de (sempre eles) colecionadores japoneses e DJs londrinos espertos. Em 2014, foi lançado nos EUA em CD/DVD This Is Gary McFarland: The Jazz Legend Who Should Have Been a Pop Star (Century 67). Entre os petiscos, um registro até então inédito de show em 1965 do Gary McFarland Quintet e um documentário dirigido por Kristian St. Clair, jogando mais luz sobre o até então obscuro e brilhante criador. O elo perdido entre o jazz e o rock, segundo declarou St. Clair em entrevista, esquecendo da bossa nova, também fundamental para a fusão não-purista de Gary McFarland.

2 pensamentos

  1. Brilhante resenha, conselheiro, e repleta de informaçãoes que desconhecia. Espero ao menos que desperte a curiosidade da moçada para esse artista genial e visionário (ou será audionário?). A suíte America: the beautiful não sai do meu toca-discos, em especial a faixa Last Rites to the promised land, uma suíte dentro da suíte. Aliás, o sr Szabo, parceiro nessa empreitada e também adorado pelos puristas de plantão, é outro que merece um resgate com toda pompa.
    E esses avaliadores da Allmusic não entendem nada de coisa nenhuma.

  2. Brilhante resenha, conselheiro, e repleta de informaçãoes que desconhecia. Espero ao menos que desperte a curiosidade da moçada para esse artista genial e visionário (ou será audionário?). A suíte America: the beautiful não sai do meu toca-discos, em especial a faixa Last Rites to the promised land, uma suíte dentro da suíte. Aliás, o sr Szabo, parceiro nessa empreitada e também adorado pelos puristas de plantão, é outro que merece um resgate com toda pompa.
    E esses avaliadores da Allmusic não entendem nada de coisa nenhuma.

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