Na marca do Cal

Fabiano Maciel explica quem é este americano com nome de sueco e que se amarrava em jazz latino

Eu poderia deixar apenas este link, com Cal Tjader se apresentando na Mansão Playboy em 1959, como minha colaboração para AmaJazz. Apertar o botão de enviar, fechar o computador e voltar à procrastinação nossa de cada dia. Mas aí o Márcio Pinheiro e a Cássia iriam me amaldiçoar e tudo que eu não estou precisando no momento é de mais gente me amaldiçoando. No vídeo, o anfitrião da casa das coelhinhas, Mr.Hugh Hefner apresenta o Quinteto de Cal Tjader. A banda tem duas figuras que ainda ficarão famosas, Willie Bobo, que está na bateria e Mongo Santamaria, ainda Ramón “Mongo” Santamaria na percussão. O time se completa com Eddie Coleman no baixo e Loonie Hewitt no piano. Eles começam atacando com Cubano Chant, de Ray Bryant (outro que merece um artigo só para ele), o clima esquenta e eles mandam o hit Poinciana para encerrar a sessão com Doxie, de Sonny Rollins. Música Cubana e Jazz. Jazz e Música Cubana. Enquanto Fidel botava para quebrar na Sierra Maestra, Cal Tjader botava para quebrar na Mansão Playboy.

II

Vou contar aqui e mentir que vou sair correndo: nunca li uma linha sequer do seu Marcel Proust! Por pura preguiça. Sempre tinha outra coisa na estante que me apetecia mais. Mas encarei Um Amor de Swann no Cinema 1– Sala Vogue, na Avenida Independência, e gastei algumas semanas do ano de 1984 pensando na Ornella Muti. Em busca do tempo perdido. Esta é a vibe da neurastenia pandêmica e cada um tem as madeleines que merece. Eu tenho uma coleção de madeleines. Uma delas é musical, uma memória totalmente abstrata, uma lembrança que é mais de uma atmosfera do que de uma música específica. Infância. Casa de vô, rádio ligado na Guaíba. Propaganda dos jatos Caravelle da Cruzeiro. Música ambiente muito antes das músicas para aeroportos do Brian Eno. O que estas músicas tinham? O som de vibrafone. Som de vibrafone junto com órgão Hammond são as minhas madeleines favoritas. Certamente no paraíso, a música que rola na chegada é com vibrafone.  E mais, no paraíso, a música que rola tem vibrafone, andamento “só no sapatinho” e cubanos na percussão. É a música que o Cal Tjader, um americano descendente de suecos fez com muita chinfra.

Os pais de Cal Tjader eram artistas de vaudeville. Nos anos 30, ainda guri, ele sapateou em alguns filmes de Hollywood.

III

Nos anos 90, pegando carona na explosão do acid jazz, as gravadoras relançaram vários discos que estavam no limbo há pelo menos 30 anos. Para facilitar a vida da moçada, a Verve jogou nas lojas algumas coletâneas com o filé-mignon do jazz “rebolation”, colocando na roda as faixas que continham a matéria prima original dos samplers de muitos DJs e de grupos como US-3. Numa destas coletâneas, tinha uma faixa chamada Along Comes Mary, tocada por Cal Tjader. Cal o quê? Como se pronuncia isto? Eu estava entrando no paraíso. Música cubana, vibrafone e órgão. Claro que já tinha ouvido a mistura antes, num disco do Lionel Hampton, ao vivo no Muzeval de Amsterdam, que eu gastei de tanto ouvir o No me Esqueça. Mas o Lionel Hampton, mesmo sendo o pai de todos e de ter cadeira cativa no senado romano, nunca teve uma cozinha tão poderosa tocando junto com ele. E como acontece com os neuróticos, mesmo quando entram no paraíso, ficam possuídos, e eu comecei a pesquisar e a procurar mais material deste desconhecido que tinha um sobrenome estranho pacas. Vale lembrar que nos anos 90 já tinha internet mas ela ainda não era esta coca-cola toda. E antes de falar da vida de Cal Tjader, segue o link da versão original de Along Comes Mary com os Association. Por algum motivo, a música caiu no gosto dos jazzistas. Hugh Masekela também gravou. E a versão de Cal Tjader transformou a “Maria chegando junto” em outra parada. Detalhe: Ray Barreto e Armando Peraza na percussão e um tal de Chick Corea no piano.

IV

Você sabia?

* Os pais de Cal Tjader eram artistas de vaudeville. Nos anos 30, ainda guri, ele sapateou em alguns filmes de Hollywood.

* Tjader queria ser Gene Krupa. Até o dia em que viu Lionel Hampton tocar vibrafone usando duas baquetas em cada mão.

* Começou a carreira em São Francisco, bem acompanhado no Jazz Workshop Ensemble, que tinha Dave Brubeck e Paul Desmond como integrantes e uma jogada meio cooperativada, um combo sem líder e sem dono.

* Tem dois discos do Brubeck trio com Cal Tjader, onde ele se reveza entre vibrafone, bateria e bongôs. Ouça aqui.

* Nessa época, o dono de um clube onde Tjader fazia uma temporada, pediu para que ele ouvisse um jovem cubano tocar. Armando Peraza, que era o faxineiro do clube, destruiu tudo e Cal Tjader descobriu que queria ter nascido no Caribe.

* No começo dos anos 50, Tjader, como quase todos os músicos de jazz, alternava temporadas com seu próprio grupo com outras tocando e gravando com outros músicos. Vince Guaraldi (mais um com cadeira cativa no senado romano e que também iria mais tarde mexer com Cuba e Brasil) foi pianista da banda de Tjader. E Tjader foi vibrafonista no conjunto de George Shearing.

* Numa noite em Nueva York, no intervalo de seu show com Shearing, ele foi espiar o que tava rolando no vizinho Palladium Ballroom. E viu Machito e Tito Puente colocarem a plateia em transe. Com um detalhe importante: usando vibrafones em suas orquestras. Cal Tjader descobriu que queria montar uma orquestra assim também.

* Até o final dos 50 os discos do Cal Tjader Afro-Cubans, venderam mais do que pão quentinho a ponto de serem a sensação do Festival Modern Sounds of Pasadena de 1956.  O Cal Tjader Mambo Quintet foi o mais aplaudido pelo público, o que enfureceu o genial, pero marrento, Miles Davis. Os arranjos acubanados de Tjader para clássicos da canção americana tocavam no rádio e faziam o povo dançar, músicas que não necessariamente tinham sido feitas para se dançar. Aqui está It Ain’t Necessarily So, de George Gershwin.

* No início dos anos 60, assim como 9 entre 10 jazzistas, Tjader também descobriu a bossa nova, gravou primeiro um disco, Cal Tjader Plays Contemporary Music of Mexico and Brazil, com arranjos de Clare Fischer e daí até o fim de sua vida, sempre manteve um pé na Pindorama. Separei aqui duas belezuras: Canto de Ossanha, da dupla Baden-ViníciusAleluia, do Edu Lobo.

* Na sequência, com arranjos de Lalo Schifrin, lançou em 1963 pela Verve mais um disco que vendeu como água: Several Shades of Jade

*Algumas informações biográficas sobre cal tjader foram encontradas em artigo de Duncan Reid na Revista Wax Poetics. A tradução foi feita por Rodrigo Ribeiro Pinto.

*A versão original de “Along Comes Mary” com o grupo Association está na trilha da série “O Gambito da Rainha”, o que gerou uma nova sobrevida à canção.

V

No meio dos anos 60, Tjader gravou seus discos mais importantes.  O primeiro é Soul Sauce de 1965. Ele começa com um petardo chamado Guachi Guaro e termina com João, uma homenagem a… João Gilberto. Na sequência ele gravou dois discos junto com Eddie Palmieri, El Sonido Novo e Bamboléate. A banda de Palmieri usava trombones e flautas no lugar dos tradicionais trompetes dos conjuntos latinos. Caray! Ouça aqui: Los JibarosLos Bandidos e Bamboléate.

Estes álbuns deram novos rumos e significados para o jazz, para a música cubana, para a música latina e para a música feita para dançar. Discos que anunciavam o que seria feito logo depois, com propostas mais radicais por gente como Ray Barreto, Mongo Santamaria, Willie Bobo e até mesmo Santana que foi a estrela maior da efervescente cena “Chicano Power” que agitou a Califórnia no início dos anos 70.

VI

Os anos 70 foram de quase ostracismo para Cal Tjader, que continuou gravando até que no final da década, faturou um Grammy e caiu na estrada novamente. Morreu nas Filipinas, de ataque cardíaco. Nada mais antagônico que vibrafones e ataques cardíacos. Mas eu imagino o balaco que deve ter rolado no paraíso. E se o som do vibrafone ainda não fez cafuné no seu cangote, vá correndo procurar os discos do Milt Jackson, de Gary Burton (tem um lindo dele com o Piazzolla), do Lionel Hampton, de Roy Ayers, do Dave Pike (tem um álbum que me amarro, com um pé na pista e outro na pilantragem, Jazz for the Jet Set), e claro, os discos de Cal Tjader.

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