Dias de vinho e rosas à sombra do salgueiro chorão…

Roberto Muggiati garante: menos do que gustativas ou olfativas, minhas madeleines são musicais

Para ser lido ao som da playlist elaborada por Roberto Muggiati

Arte: Gilmar Fraga

Em meados de 2001, depois da falência da Manchete, eu trabalhava em casa, na vila em Botafogo. Lembro em particular os dias em que compunha um texto para o suplemento cultural do Valor Econômico sobre os 50 anos da publicação do Apanhador do Salinger e da escrita automática, num rolo de papel de telex, do On the Road, pelo Kerouac. Ao lado do computador, num velho sofá de couro, agonizava com uma insuficiência renal crônica meu querido sharpei Thelonious. Eu ouvia sem parar um álbum do Chet Baker (com Bill Evans, Herbie Mann, Zoot Sims, Pepper Adams) baseado em temas de Lerner & Lowe. Os dias finais do cão querido foram dolorosos, ele tentava ficar de pé e caía, não conseguia comer mais nada e chegamos, Lena e eu, a uma madrugada em que o sacrifício, no dia seguinte, era a atitude sensata e inevitável. Quase não dormi aquela noite e às cinco da manhã acordei em sobressalto com uma profunda sensação de vazio, de perda. Ao pé da nossa cama, Thelonious tinha acabado de morrer. No final da vila, havia um pequeno canteiro onde nascera uma casuarina. Árvore altaneira – Somerset Maugham escreveu sobre ela como símbolo da presença colonial britânica na Ásia em The Casuarina Tree – eu tinha alguns exemplares no meu sítio em Itaipava que chegavam a trinta metros de altura, o tronco reto, a casuarina da vila de Botafogo, pela exiguidade de terra no pequeno canteiro, cresceu em ziguezague, formando um exótico ideograma chinês. Com a ajuda de nossa fiel escudeira, a recifense Mequeia Reis do Oriente – cujo pai a botava para mergulhar no Beberibe e catar ostras e mexilhões – enterramos o Thelonious ao pé da casuarina. Apesar de ter definhado, ainda era um cachorro grande, tivemos de cavar a terra seca com uma velha enxada, eu não tinha pá. Thelonious inaugurou o que se tornaria nosso pet cemitary (Stephen King escreveu um Pet Sematary, que, como tudo seu, virou filme). Com o correr dos anos, outros cães e gatos de estimação teriam sua última morada naquele jardim da saudade.

Uma canção do álbum de Chet ficou particularmente associada para mim com a morte do Thelonious, só depois verifiquei seu nome, um tema do musical Paint Your Wagon, chamado I Talk to the TreesEu converso com as árvores. Tudo a ver, Thelonious…

Mas o gancho desta playlist tem a ver com Poinciana. Na primavera de 1963 eu vivia em Londres e estava perdidamente apaixonado pela mulher de um diplomata brasileiro, morávamos no mesmo bairro, Chelsea. Eu fazia as transmissões noturnas do Serviço Brasileiro da BBC aos sábados e domingos, tinha segunda e terça de folga, naquelas tardes eu tomava chá com a amada em sua casa de vila e discutia Proust, o casalzinho de filhos dormindo no andar de cima. Trocávamos olhares nas pequenas reuniões do gueto brasileiro – imaginem, na justificativa eleitoral de 1962 apenas 60 brasileiros compareceram ao consulado, nada a ver com a horda que infestaria a London London de Caetano dez anos depois. Espécie de DJ informal daqueles encontros, compareci certa vez com um LP que tinha comprado recentemente, Ahmad Jamal Live at the Pershing, gravado em 1958. A faixa de quase oito minutos, Poinciana, com sua vamp minimalista, influenciou a fase modal de Miles Davis iniciada com Kind of Blue, e Miles não fazia nenhum segredo disso, ao contrário, exaltava a música de Jamal. A versão de Poinciana pelo saxofonista Sonny Stitt com uma banda de metais também é uma das minhas madeleines musicais da vilegiatura londrina. 

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