Jazz em Curucaca

Roberto Muggiati recorda seu encontro com Hermeto, na serra catarinense, abaixo de zero

Para ser lido ao som de O canto do Curucaca, de Hermeto Pascoal

Arte: Daniel Kondo

Em julho de 2009, a convite de Abel Silva, lancei em Florianópolis meu livro Improvisando Soluções, num evento geminado com um “laboratório” do grande Hermeto Pascoal. Subimos então a Serra até Urubici, onde já rolava um festival de jazz promovido por Abel. Ficamos hospedados em Bom Retiro – ao contrário do que o nome indica, um dos locais mais frios da Serra de Santa Catarina – numa pousada recém-inaugurada: o Hotel Curucaca, uma beleza, mas ainda sem serviço de calefação. Pior é que os quartos ficavam no subsolo com piso de cerâmica. O radiador elétrico que me forneceram não fazia o menor efeito, tive de dormir com todas as roupas da minha mala superpostas no famoso efeito cebola. O chuveiro podia ser quente, mas o ar que o cercava era glacial. Hermeto, na sua condição de superstar, ficou numa cabine com lareira com sua nova mulher, a cantora lírica Aline Morena, quarenta anos mais moça, transformada em parceira performática do Bruxo. Ele fora casado uma vida inteira com sua conterrânea Ilza, famosa autora das feijoadas de sábado no ashram de Hermeto na Rua Vitor Guizard, 333, Bairro do Jabour. Quem tocava com a banda do Hermeto tinha de morar por perto, o Bruxo ensaiava rigorosamente todas as tardes da semana. Havia músicos gringos que vinham de longe visitar o Mestre, seguiam do aeroporto do Galeão diretamente para o Jabour, e depois se mandavam, sem sequer um vislumbre do Pão de Açúcar ou sem pisar as areias de Ipanema.

De Hermeto para Muggiati

Conheci Hermeto na noite de segunda-feira, 16 de julho de 1979, no aeroporto do Galeão, embarcávamos no mesmo voo para Genebra, a caminho do Festival de Jazz de Montreux, era sua primeira turnê europeia, com a banda que incluía os saxofonistas Nivaldo Ornelas e Cacau, o tecladista Jovino dos Santos, o baixista Itiberê Zwarg, o baterista Nenê, a vocalista Zabelê e o percussionista Pernambuco. A sala de embarque era um verdadeiro cafarnaum, Hermeto embarcando um varal completo de potes, panelas, frigideiras e chaleiras de todos os calibres – como se as salas internacionais não dispusessem dos mais sofisticados kits de percussão. Como editor da Manchete, eu tinha fechado mais um número da revista e adiantado o “miolo” do seguinte, para voltar aos meus dias de repórter e acompanhar de perto a investida do Bruxo num dos principais festivais de jazz do mundo. Na segunda seguinte, amanheceria no Rio para fechar outro número e escrever a reportagem especial sobre a Noite Brasileira, com Hermeto e Elis dividindo o cartaz. Lembro vivamente vários detalhes da viagem: de minha conversa com Nivaldo Ornelas na parada em Dacar, ao longo dos anos eu brincaria com ele: “Cara. nos conhecemos debaixo do verdadeiro calor senegalesco, não foi?” Um voo de longa distância, quando o tempo é claro, oferece algo mágico: sobrevoamos o globo terrestre como quem estuda um mapa numa aula de geografia. Na altura do golfo de Biscaia eu estava sentado ao lado de Zabelê – a vocalista, casada com Nenê – de repente ficamos em silêncio admirando aquele ângulo reto perfeito e a linha que sobe vertical do sul para o norte ao longo da costa de Bordeaux. O avião parecia ancorado no céu a dez mil metros de altitude e eu não viajava só no espaço, mas também no tempo. Naquela quina exata ficava Fuenterrabía, no País Basco, uma praia deserta de areias finas ideal para ler Proust. Agradeço a dica da amiga amada Elizabeth Gallotti. Mais um parêntese: normalmente não usaria o termo “dica”, só o fiz em homenagem à recém-desaparecida poeta Olga Savary, que introduziu a palavra em nos jornais, uma abreviatura de “indicação”. Faz-se urgente a publicação de uma enciclopédia sobre a contribuição dos jornalistas para o enriquecimento do nosso vocabulário…

Tempos depois, Hermeto lançou um álbum, Só não toca quem não quer, em que cada faixa era dedicada a um crítico de música – marqueteiro astuto aquele alagoano de Lagoa da Canoa. ou Olho d’Água Grande, município de Arapiraca. A minha música chamava-se, significativamente, Viagem, um forró futurista levado por flautas em uníssono.

Voltando à Serra catarinense. Antes do almoço, no sábado, a companhia se juntou ao redor da grande lareira da pousada, assando pinhão e tomando uísque. O filho mais velho de Hermeto, Fábio, mostrou-se grande connoisseur – e consumidor – do velho Scotch. No fim da tarde, rumamos para São Joaquim, onde Hermeto se apresentaria num Centro de Convenções recém-inaugurado, por isso mesmo sem calefação. Temperatura local zero grau, sensação térmica de menos dez. Mas Hermeto – ironicamente, com suas chaleiras, – transformaria o local num caldeirão. Pena que tivéssemos se suportar o frio de São Joaquim sem o espetáculo da neve. Depois do show, a galera faminta foi recebida nos restaurantes do São Joaquim Park Hotel, uma torre feiosa no meio da cidade sem graça de prédios baixos. A listagem do menu era variada e atraente – carnes, peixes, frutos do mar, massas, receitas diversas – mas a comida era borrachuda, grudenta e insossa. A volta à pousada, às duas da manhã por estradas de serra estreitas e sinuosas, com caminhões a quase cada curva ameaçando nos jogar pelo despenhadeiro, só foi concluída com sucesso graças à perícia e ao sangue frio do Abel, com a namorada no banco dianteiro; Aline, Hermeto e eu jogando conversa fora no banco traseiro.

No Hotel Curucaca eu costumava acordar cedo e compartilhei o café duas manhãs seguidas com Hermeto e Aline. Foi uma oportunidade rara de ouvir de primeira mão episódios sobre a fabulosa carreira do Bruxo e esclarecer dúvidas, como a sua participação num dos álbuns mais importantes de Miles Davis, o duplo Live-Evil, de 1971. Hermeto participou de três das oito faixas e compôs duas delas, Little Church e Nem Um Talvez. Ao contrário do que eu imaginava, não guardou nenhum rancor pelo fato de os temas terem sido por muito tempo creditados a Miles Davis. “O sujeito estava ali totalmente focado no seu som, não tinha tempo para pensar nessas frescuras!”, justificou Hermeto. Expliquei a ele a minha tese do motivo que teria levado Miles a surrupiar composições alheias – no álbum Quiet Nights ele assina nosso popular Prenda Minha como Song #1… Quando gravou sua primeira composição, aos 17 anos, Donna Lee – baseada na sequência de acordes de (Back Home Again in) Indiana – Miles viu a música creditada a Charlie Parker e levou o trauma pelo resto da vida. Olhando-me com aqueles olhos de chinês, Hermeto dava a impressão de não me levar muito a sério – “Estes intelectuais!…” parecia estar pensando.

O café da manhã do domingo estava cercado por um ar melancólico, as malas de Aline e Hermeto já na portaria aguardando o transporte que levaria o casal de volta aos shows e às turnês pelo mundo afora. Me fez lembrar outro domingo, quase exatamente trinta anos antes, no aeroporto de Paris/Charles De Gaulle, em que vi Hermeto e Elis desaparecerem nos tubos de acrílico da conexão para Tóquio, onde outro festival de jazz os aguardava, Hermeto coloca sobre a mesa um papel que tirou do seu alforje, é uma folha arrancada de um caderno de música em espiral com um tema que compôs para mim, no tom do si bemol do sax tenor. Confesso que eu estava passando por tempos difíceis, afastado do meu Martin Indiana vintage, sem preparo técnico e emocional para encarar a bela e complexa melodia do Hermeto.

O tempo passou. Um dia, escrevendo um release para um novo álbum do Mauro Senise (meu professor de saxofone durante dez anos) e do pianista Gilson Peranzzetta, perguntei aos amigos se não gravariam para mim a partitura do Hermeto. Aproveitando uma brecha de estúdio, eles fizeram esta bonita interpretação. Batizei a música de O Canto do Curucaca, um pássaro da região. Tem tudo a ver. E assim seguimos nosso caminho, afrontando pandemias e pandemônios, unidos pela força da música.

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