Em busca da nota impossível

Roberto Muggiati explica que se Sonny Rollins escapa a qualquer definição lógica é justamente porque escolheu o estilo mais subjetivo da música para se expressar

Para ser lido ao som de Sonny Rollins em Saxophone Colossus

Foto: Yves Moch/CC BY-SA/Wikimedia Commons

Como explicar um músico que no auge do sucesso abandona tudo para passar as noites tocando saxofone numa ponte suspensa entre o Brooklyn e Manhattan? Não há explicação quando o músico se chama Theodore Walter “Sonny” Rollins. Até a altura desse episódio, ele havia passado por uma infinidade de experiências – do inferno das drogas aos tranquilos jardins de pedra dos mosteiros japoneses; dos neuróticos relacionamentos e pressões do showbiz às sessões de ioga nos ashrams da índia; das frenéticas turnês internacionais ao disciplinado estudo musical e à prática incessante do  instrumento. Se Sonny Rollins escapa a qualquer definição lógica é justamente porque escolheu o estilo mais subjetivo da música para se expressar. E o seu jazz é uma linguagem capaz de traduzir emoções complexas, dentro de um contexto psicossocial bastante amplo. Como diz Rollins: “Aquilo que você toca depende da sua vivência e isso o torna de certa forma político, mas eu não procuro deliberadamente falar de política através da minha música”. E explica: “Nasci num apartamento em NovaYork, na rua 137. Foi em 1930, mas tive de aumentar a idade para conseguir documentos de trabalho. Perto de casa ficavam o Savoy Ballroom e o Cotton Club. Eu passava todo dia por eles com uma vontade louca de entrar. Mas não era preciso ser maior de idade para frequentar o Apollo e lá eu vi praticamente todo mundo – Duke Ellington, Count Basie, Lionel Hampton, que dias aqueles! A gente comprava algumas balas e assistia a um filme policial e depois ouvia os músicos aquecendo nos bastidores e então apareciam no palco e tocavam para valer. O que me deu vontade de ser músico foi ver um saxofone no seu estojo. Tão bonito e reluzente, me apaixonei pelo instrumento. Além do Harlem, havia muita música interessante rolando na rua 52 (hoje batizada de Swing Street), e eu ia para lá com outros garotos da vizinhança. Passávamos lápis de sobrancelha em torno dos lábios e usávamos chapéus imensos bem enfiados na cara para que ninguém visse que éramos menores. Charlie Parker tocava por lá e nós o chateávamos um bocado, mas o Bird sempre foi muito legal. Ouvi Parker pela primeira vez aos 15 anos. No começo não entendi. Depois correu um boato de que ele tinha morrido. Sua gravadora lançou seus discos e não se ouvia outra coisa no Harlem. Ao mesmo tempo, era um devoto de Coleman Hawkins – eu tinha um sax-alto, mas queria um tenor para ser igual a Hawk. Consegui meu primeiro tenor aos 16 anos, e então todas estas influências se entrelaçaram e as pessoas me chamaram de ‘o Bird do tenor’”.

Sonny Rollins teve a oportunidade única de tocar com esses dois mentores. Com Parker gravou nas sessões de 1953 do grupo de Miles Davis; com Hawkins, tocou no Festival de Newport de 1963, e daí nasceu a ideia de um álbum reunindo os dois, com um trio rítmico. De Coleman, Rollins tirou também a ideia de partir para longos solos de sax-tenor sem nenhum acompanhamento: “Hawkins tinha gravado um solo famoso, Picasso, e então eu vi que isso era possível. Na verdade, ele me falava sempre de uma ópera que faríamos para dois sax-tenores, cada um assumindo um papel”. Rollins realizou seu sonho de tocar saxofone totalmente solo num concerto no Salão das Esculturas do Museu de Arte Moderna de Nova York em 1985 – quase uma hora de som reproduzida em The Solo Álbum.

Embora o sucesso tivesse chegado cedo para Rollins, por volta dos 20 anos, ele sucumbiu, como a maioria, ao grande flagelo dos jazzistas. As drogas surgiram como um furacão no início dos anos 50. “Muitos caras voltavam da Coréia cheios de heroína. A droga era farta e entrei numa pior. Foi uma coisa que todos nós atravessamos. Uns conseguiram se safar, outros, não”.

A luta de Rollins para “se safar” começou em 1952, quando passou oito meses no Hospital Federal de Lexington, no Kentucky, tentando se livrar da dependência dos tóxicos. Fracassou, e voltou para lá em fins de 1954. Dessa vez eu tinha uma forte motivação. “Charlie Parker disse que eu poderia ser um grande músico se não fizesse besteira, e suas palavras me tocaram. Parker já não conseguia mais se livrar e queria provar aos músicos mais jovens, com o seu martírio, que a droga não levava a lugar algum – a não ser ao cemitério. Eu queria mostrar a ele que ouvira seu recado. O triste é que Parker morreu em março de 1955, quando eu ainda estava trancado em Lexington”.

Anos depois, Sonny comentaria: “Quando descobrimos que Billie Holiday e Charlie Parker usavam drogas, achamos que aquilo não devia ser tão ruim – e talvez fosse a chave de sua criatividade. Charlie Parker era um sonho. Foi um líder muito importante para nós. Nós o víamos como uma figura de Jesus Cristo que se deixou crucificar lutando pela liberdade, e até o fato de que usava drogas era uma espécie de sacramento”.

Na sua volta, considerado uma das forças do novo estilo chamado de hard bop, Rollins teve uma fase de ouro no quinteto de estrelas com o trompetista Clifford Brown, o pianista Richie Powell, o baixista George Morrow e o baterista Max Roach, e gravou intensamente para a Prestige, álbuns como Saxophone Colossus e Tenor Madness, este com John Coltrane, a nova voz do saxofone, com seu timbre metálico e seu fraseado anguloso. Apesar do sucesso, Rollins resolveu dar uma parada, em 1959: “Eu estava fumando e bebendo demais e queria endireitar minha saúde. Sempre desejei aprender música formalmente e era uma boa ocasião para estudar uma nova abordagem do instrumento. Interessei-me, também, por metafísica e pelo homem utópico. Coltrane e eu trocávamos livros sobre esses assuntos o tempo todo”. Foi a fase em que aquela figura de 1,90m de altura assombrava as madrugadas na passarela de pedestres da ponte de Williamsburg. “Comecei a caminhar pela ponte e achei um lugar soberbo para praticar sax. Você pode ver todo o cenário, a silhueta dos prédios, a água, o porto. Pode tocar ao volume que quiser. Faz você pensar. A grandiosidade da vista lhe dá perspectiva”.

O segundo retiro espiritual de Rollins começou em 1968, uma época em que o mercado musical vivia a ditadura do rock. “O país estava tumultuado e eu queria sair por uns tempos. Queria também me aprofundar em outras questões não musicais e, assim, fui à Índia, para conhecer sua cultura e descobrir seus segredos”. Ele passou também algum tempo no Japão, estudando zen-budismo. A influência do zen é clara nesta frase: “Quando toco, não gosto de programar demais meu pensamento. Quero ter a mente limpa para exprimir espontaneamente no saxofone as minhas experiências de vida”.

Num perfil publicado na Rolling Stone em 1990, Scott Spencer escreve: “A força, daqueles tempos até hoje, tem sido não só uma obsessão, mas uma marca de Rollins. Um homem alto, fisicamente imponente, comparado no passado ao arremessador dos Dodgers de Brooklyn, Don Newcombe, e, por pelo menos um crítico de jazz, ao Otelo de Shakespeare, Rollins manteve, desde os anos 1950, um regime de alimentação natural, exercício, halterofilismo e disciplina espiritual. Bebe moderadamente, há muito tempo largou o cigarro e, relutantemente, a maconha.

Desde cedo ele sempre treinou diariamente pelo menos cinco horas diárias no saxofone; ainda garoto, praticava escalas horas a fio, aperfeiçoando seu timbre, sua destreza e sua excepcional resistência atlética, que o fizeram bater recentemente, num duelo de saxofones, um dos talentos jovens mais notórios, Branford Marsalis. Toda esta exuberância se apoia numa filosofia de vida relativamente simples: o amor ao que faz. Diz Rollins: “Felicidade é tocar saxofone. A música é uma coisa universal e democrática. Amo o jazz. Acho que o jazz é a música do futuro, do passado e do presente”.

No cenário do jazz, Rollins continua sendo um “titã do saxofone”. Foi na época de suas explorações noturnas na ponte (de que resultou o álbum The Bridge) que Sonny Rollins – e ele já dominava a técnica do saxofone como poucos – começou a aprofundar suas pesquisas em busca da “nota impossível”. O saxofone é um instrumento que, teoricamente, só pode tocar notas isoladas; ao contrário dos instrumentos harmônicos, como o piano ou o violão, ele só emite uma nota de cada vez. Há muito tempo os saxofonistas vinham tentando romper essa barreira. O próprio Coleman Hawkins já havia tentado. Sonny Rollins foi um dos pioneiros da técnica do false fingering ou fakefingering, uma maneira torta de tocar sax e alterar o timbre das notas, utilizando um dedilhado alternativo. Ao encontrar esta nova maneira anticonvencional de tocar saxofone, Sonny Rollins, ao lado de John Coltrane, tornava-se uma espécie de “homem utópico” do saxofone, buscando – e pela primeira vez encontrando – a nota impossível do jazz.

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