Apetite jazzístico

Pablo Fabián* estreia na AmaJazz explicando o que há em comum entre jazz e bolinhos de arroz

Para ser lido ao som de Duke Ellington em Sonnet in Search of a Moor

Foto: Domínio público/Wikimedia Commons
Foto: Domínio público/Wikimedia Commons

Da resistência natural de músicos “submetidos” a uma matemática primitiva de bandas marciais, surge a sátira polirrítmica, o deboche sincopado, o improviso puro e simples, a tristeza desavergonhada e a alegria alegórica. Os ritmos marciais ingleses e irlandeses, o Cajun, a evangelização do negro americano assim como o “swing” que transborda das almas dos subjugados, são os ingredientes explosivos que dão vida a um ente livre, irreverente, extremamente criativo, burlesco e mordaz. E assim nasce, na finaleira do século 19, sem idade ou sexo definido, um ser com todas as idades, de todos os sexos nas mais inimagináveis e criativas posições: o jazz.

Me criei em ambiente musicado, do erudito ao clássico, jazz, blues, um pouco de tango e música flamenca. A eletrola lá de casa estava sempre ativa. Minha irmã, quase 10 anos mais velha que eu, me mostrou Pat Boone, Paul Anka, The Platters, Nat King Cole, Dave Brubeck, Elvis Presley, Celly Campello e mais um monte de nomes que se perderam nas memórias da música.

Na adolescência, ao som dos Beatles, mergulhei na Tropicália. Caetano me apresentou Noel Rosa, Ary Barroso, Vicente Celestino. Tom Zé e Rogerio Duprat me devolveram ao jazz – Sérgio Mendes, Egberto Gismonti, Nana Vasconcelos, Tom Jobim, Heraldo do Monte, Hermeto e mais uma turma de gigantes. Daí o mergulho sem volta num jazz que nasce na América mas que se classifica como “sem fronteiras”, patrimônio de uma parcela “especial” de humanos distribuídos por todas as partes do planeta.

O zen não é religião, é filosofia, é estilo de vida. O jazz também. Não se limita a ser música, é estilo, é jeito de olhar e se relacionar com a vida. Sem dúvida, é a música a grande materializadora do jazz. Aliás, a título ilustrativo, meu neto, filho de meu filho Carlos, chama-se Jazz (sem nenhuma interferência minha).

Mas, como inserimos “Bolinhos de Arroz” nesta partitura? Acabei de fazer uma referência ao zen, estado de presença. Dentro dessa categoria (de estar totalmente presente) incluo algumas atividades que – para mim – são zen: andar de moto, fazer sexo, cozinhar e ouvir jazz. São atividades que me fazem estar concentrado, focado, totalmente presente. Embora eu não tenha intenção de profissionalizar nenhuma delas, ocupam um espaço importante na minha vida, dedico a elas uma significativa parcela de meu tempo e de minha atenção.

No que diz respeito a cozinhar, sou criterioso, curioso e regular. Regular no sentido de que pratico diariamente. Nessa lida, dentro de um ambiente que incide na qualidade de vida e na economia doméstica, o reaproveitamento está na minha mira. E assim como no jazz, não existe desperdício.

Na cozinha, muito pouco é lixo, temos sim, sobras. Sobras do banquete de ontem, sobras (arestas) de legumes, carnes, etc, que serão dignificados com um novo significado, apresentado um resultado único, carregado de dose dupla de amor (cabe lembrar que cozinhar é um ato de amor, cozinhar com o “já cozinhado” é dose dupla).

No jazz não tem bola perdida, dentro dessa generosa matemática, entro e saio de portas e janelas onde me relaciono, inclusive, com outros temas e estilos, temperando e enriquecendo a ideia inicial.

E o bolinho de arroz?

Vamos lá. Na sua definição, bolinho de arroz é um ícone do aproveitamento. E dificilmente faremos bolinhos de arroz iguais de uma leva para outra. Eles terão sempre uma dose criativa de interferência com a presença de elementos inusitados que esperam por nós nos mais variados potinhos dentro da geladeira. O bolinho de arroz tem uma essência muito simples, uma matemática quase elementar em suas combinações e proporções. Assim como o Jazz que, com uma frase muito simples, agrega elementos sonoros e temporais, transformando a ideia inicial em pura magia.

Logicamente, fazer uma analogia e definir jazz como “Bolinho de Arroz” pode ser uma leviandade, pois muitas das manifestações sonoras que compõem essa coletânea podem ser assemelhar a sopas, drinks, tortas etc…

Outro dia enquanto ouvia Sonnet in Search of a Moor, de Duke Ellington, tive a inspiração de fazer os bolinhos. Simples, seguindo uma linha musical, não necessariamente lógica, com uma tendência levemente dissonante, dentro de uma melodia que beira o elementar e apresenta um resultado irresistível.

O segredo? A medida de cada coisa, a proporcionalidade entre o básico e a ousadia.

Eis a receita:

Bolinhos de arroz à Duke Ellington

Ingredientes:
400g de arroz branco cozido
2 colheres (sopa) de farinha de trigo
2 ovos
1/2 xícara de leite
1 molho de salsinha picada
1 colher (chá) de bicarbonato
sal e pimenta do reino

Modo de preparo:
misturar tudo até ter uma massa homogênea
fazer o formato com colher de sopa
fritar em óleo bem quente

* Pablo Fabián é publicitário, gestor estratégico e improvisa temperos e sabores em seu canal no youtube, Motivo de Sobra

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