Uma alma dividida

Marvin Gaye sabia ir do sussurro ao grito, despontando como um cantor de jazz e soul que se alternava entre o romantismo edulcorado de Nat King Cole e a aspereza do R&B de Ray Charles

Para ser lido ao som de Let’s Get it On
Marvin Gaye em foto de 1966 (J. Edward Bailey | eBayfrontback/Domínio público/Wikimedia Commons)
Marvin Gaye em foto de 1966 (J. Edward Bailey | eBayfrontback/Domínio público/Wikimedia Commons)

Divided Soul é o nome do livro escrito pelo jornalista David Ritz, relato cru e intenso da vida de um dos maiores músicos contemporâneos. O título tem duplo sentido – usando o soul tanto para remeter ao estilo musical quanto para ressaltar as angústias e turbulências da personalidade de Marvin Gaye –, uma alma marcada (e dividida) em partes quase iguais de sucesso e sofrimento. Uma tragédia grega do final do milênio que ganha aí uma dimensão superlativa, mesmo num panorama tão trágico como o da música pop.

Na certidão de óbito, a descrição fria da tragédia. (Foto: Reprodução/Wikimedia Commons)
Na certidão de óbito, a descrição fria da tragédia. (Foto: Reprodução/Wikimedia Commons)

O último capítulo foi há 34 anos. Na manhã de primavera do dia 1 de abril – também Dia da Mentira nos Estados Unidos – Marvin Gaye foi assassinado com dois tiros pelo próprio pai depois de uma discussão. No dia seguinte, Marvin completaria 45 anos. “Ele representava a essência do artista. Um impressionista capaz de captar o mundo com os dedos e descrevê-lo através da pureza de seus sentimentos”, disse o ególatra e avaro em elogios Terence Trent D’Arby, hoje quase sumido mas que chegou a ser apontado no início da carreira com um dos possíveis sucessores de Marvin. “Um grande homem da canção, letra e poesia”, reconheceu o contemporâneo e igualmente revolucionário Stevie Wonder. “Sua voz doce parece flutuar de forma fluida, sensual, sobre clássicos da canção”, derramou-se Peter Gabriel. Os elogios não são gratuitos, tampouco exagerados.

Com a voz flexível forjada no gospel das igrejas – uma delas onde o pai era pastor de uma seita que misturava judaísmo ortodoxo com cristianismo fundamentalista – e nos harmônicos conjuntos vocais de doo-wop dos finais dos anos 50, Marvin Gaye sabia ir do sussurro ao grito, despontando como um cantor de jazz que se alternava entre o romantismo edulcorado de Nat King Cole e a aspereza do R&B de Ray Charles. Sinatra também era uma referência, mas a junção e a posterior tradução de todas essas vertentes se dariam a partir do encontro com Berry Gordy, um ex-boxeador, ex-operador de guindaste, ex-dono de lojas de discos,  que com apenas US$ 700 no bolso iria fundar a Motown em 1959.

Cunhado de Marvin Gaye, que casou-se com Anna Gordy quando tinha apenas 17 anos e ela 34, Gordy queria fazer da Motown a porta-voz da música negra dos Estados Unidos, misturando baladas românticas com letras para serem quase que recitadas no ouvido. Marvin Gaye soube aproveitar a chance e  já no ano seguinte entrava nas paradas com Stubborn Kind of Fellow. A partir daí não parou mais: de 1962 a 1971 foram 34 compactos simples, dos quais metade bateu ponto na lista dos top-ten. Ao lado de Stevie Wonder tornou-se o maior nome da Motown – já reconhecida como uma linha de montagem de hits –, e isso não era pouco numa gravadora que tinha nomes como Diana Ross, os Jackson 5 e Smokey Robinson. Marvin passou a trabalhar com os principais produtores da casa e a encabeçar a única tendência a rivalizar com os Beatles no cenário pop da década de 60. São dessa época Pride and JoyI Heard It Through the Grapevine e How Sweet It Is (To Be Loved By You) e também os duetos que o tornariam famosos ao lado de Diana Ross, Kim Weston, Mary Wells e, principalmente, Tammi Terrell.

Muda a década e o Marvin Gaye romântico e alienado começa a entrar em conflito por ter atravessado os anos 60 sem uma participação política mais ativa. É aí que começa a se revelar o autêntico Marvin Gaye – intenso, inquieto, atormentado, introspectivo, radical –, analista e repórter de seu tempo. O manifesto em forma de disco era What’s Going On, suíte dividida em nove partes em que Marvin discute a Guerra do Vietnã, os problemas ecológicos (Mercy, Mercy Me foi a primeira canção pop a tratar do tema) e o racismo. Para fazer What’s Going On, Marvin brigou com Gordy e chegou a ameaçar abandonar a gravadora. Queria ter completa autonomia na produção, compor todas as canções e escolher os músicos. Gordy não queria mexer em time que estava ganhando e mudar o estilo da gravadora. Confirmando o que Marvin imaginava e contrariando as previsões de Gordy, What’s Going On foi sucesso de crítica e de vendagens. O disco seguinte, Let’s Get It On, era menos político, mas não perdia nada no aspecto revolucionário. Erótico e lascivo, Let’s Get It On atingia o baixo ventre e os quadris sem desprezar o coração e sem ofender o cérebro. Parecia ser o início de uma fase prolífica e criativa de Marvin, mas a vida voltou a entrar em parafuso. Separou-se de Anna e passou a viver com Janis – 17 anos mais nova e que o trocaria pouco tempo depois pelo cantor Teddy Pendergrass. Os divórcios foram problemáticos, somados à dívidas de milhões de dólares com o fisco, consumo exagerado de cocaína e escassos shows pelos Estados Unidos. Tentou mudar de vida morando um ano no Havaí, mas como a dor também inspira são dessa época os discos Here My Dear (sobre a separação com Janis) e I Want You (outro manifesto erótico-dançante). Do Havaí foi para Londres e de lá para um auto-exílio de três anos em Ostend, cidade litorânea da Bélgica, onde alugou um apartamento com vista para o Mar do Norte. Parecia mais tranquilo quando foi encontrado pelo produtor  Larkin Arnold, da CBS, que o queria de volta aos estúdios. A gravadora comprou seu passe da Motown por US$ 2 milhões e os advogados se encarregaram de resolver os problemas legais que Marvin tinha com a justiça americana.

O recomeço seria uma retomada de Let’s Get It On com Midnight Love esbanjando libido e sensualidade. À fluidez do soul dos anos 60 se acrescenta os ritmos caribenhos e os experimentalismos digitais. Sexual Healing, carro-chefe do disco, garante a Marvin a eleição pela Billboard de compacto de música negra do ano e o primeiro Grammy de sua carreira. Marvin Gaye mostrou-se profético (e herético) pela última vez ao encerrar o disco com a faixa My Love Is Waiting, orando pela proteção divina enquanto pedia que a mulher amada não o abandonasse.

A alma, ainda mais dividida, continuava sagrada e profana.

Anúncios

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s