Discreta Astrud

Cantora que ajudou a consolidar a bossa nova, vive reclusa e em silêncio aos 80 anos

Para ser lido ao som de The Girl from Ipanema com Astrud Gilberto, João Gilberto e Stan Getz

Arte: Gilmar Fraga

Discrição é isso. Astrud Gilberto chegou aos 80 anos bem no começo da pandemia, no final de março. Não houve comemoração pública, nenhum relançamento ou especial de TV. Nem mesmo uma mísera live foi organizada para homenageá-la. Enquanto seu primeiro marido, mesmo um ano após a sua morte, continuava em evidência – infelizmente, agora, pelos piores motivos (disputas, brigas, heranças) – quase ninguém mais lembra de Astrud. Eu me lembro.

Cantora baiana com nome de condessa austríaca, Astrud foi uma das pioneiras na divulgação da bossa nova nos Estados Unidos desde que lá chegou, aos 22 anos, acompanhando o marido. Em menos de cinco anos, João trocou de mulher, trocou de país, mas Astrud lá ficou, manteve o sobrenome que a acompanha até hoje e se integrou ao ambiente. “Faço parte do cenário jazzístico americano”, me disse ela numa entrevista há 27 anos. “Gravei com Stan Getz e fui contratada por dois selos de jazz, Verve e CTI”.

Nascida em Salvador, Bahia, filha de mãe brasileira e pai alemão, Astrud Evangelina Weinert mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro com sua família. Foi morar na Avenida Atlântica, ali onde a bossa nova já deslizava musicalmente a caminho do mar. O pai era chegado apenas em letras, professor de idiomas e de literatura. A mãe, sim, tinha alguma veleidade musical, cantando, tocando bandolim e influenciando as três filhas. A caçula Astrud fez-se amiga de outra jovem do bairro, Nara Leão, e as duas começaram a soltar a voz. Além do incentivo musical, Nara também foi importante na vida de Astrud por apresentá-la a João Gilberto. O namoro e o noivado foram rápidos, o casamento também e, em menos de um ano, Astrud já era mãe de Marcelo.

Em maio de 1960, Astrud foi uma das cantoras do show Noite do Amor, do Sorriso e da Flor, no anfiteatro da Faculdade de Arquitetura da UFRJ, ao lado de nomes de maior peso como a amiga Nara Leão, e também Dori Caymmi, Chico Feitosa, Johnny Alf,  Norma Bengell e Nana Caymmi, entre outros. Todos estavam ali reunidos para homenagear João Gilberto, que então lançava seu segundo disco, O Amor, o Sorriso, a Flor.

Nova mudança, agora definitiva, para os Estados Unidos. Astrud lá chegou em 1963, com o marido e filho pequeno. Nem havia se ambientado ao novo país e já participava do álbum Getz/Gilberto. Ela que nunca havia cantado profissionalmente estava fazendo parte da história. Pelas próximas décadas, manteria uma carreira qualificada, porém irregular. Fazia pouquíssimos shows, embora houvesse ampliado o repertório, não cantando mais apenas bossa nova, mas também standards em inglês, espanhol, francês, italiano e alemão – todos idiomas dos quais ela era íntima.

Assim, discretamente, Astrud atravessou as décadas. Desde o início do milênio que ela não grava. Já havia recebido o prêmio Latin Jazz USA Award for Lifetime Achievement, em 1992, e foi incluída no International Latin Music Hall of Fame, em 2002. Desde então, vive reclusa, raramente dá entrevistas e não aparece nas redes sociais dando palpites. Seus interesses hoje são outros: as artes plásticas e a luta contra os maus tratos aos animais.

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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