O som do contrabaixo

Luiz Reni Marques* apresenta um trecho de seu novo livro, O Último Concerto de Jazz

Para ser lido ao som de Dave Brubeck em Take Five

Foto: Garry Knight/CC BY/Wikimedia Commons
Foto: Garry Knight/CC BY/Wikimedia Commons

Era uma chuva fraca a daquele dia de maio, em Porto Alegre, Francisco vestiu uma capa leve de nylon sobre a camisa e a calça de algodão meia-estação, calçou as botinas de couro e solados de borracha bem grossos. Não quis levar o guarda-chuva. Caminhou da casa ao ponto do ônibus Auxiliadora. Os pingos, como calculara, eram escassos e refrescantes e causavam uma sensação agradável ao tocar na pele do velho músico de jazz. Entrou no Scania todo envidraçado, com ar-condicionado, muito diferente do GMC que seu pai guiava, no qual, quando era pequeno, de vez em quando pegava carona. O trajeto era o mesmo. Vinte minutos depois de embarcar desceu, pela porta da frente, como fazem os idosos. Esperou o sinal abrir e cruzou a Avenida Osvaldo Aranha pisando na terra úmida do Parque Farroupilha. Andou por uma alameda cercada de árvores até chegar ao lago. Sentou-se em um banco de pedra, mexeu nos bolsos como se procurasse cigarros, lembrou que não fumava há mais de 20 anos.

A chuva seguia incessante e fina, mas não o incomodava. Estava bem agasalhado. A temperatura neste fim de tarde de outono estava agradável. Recordou a madrugada em que caminhava por uma travessa próxima ao parque, bêbado, depois de ter ficado tomando uísque com colegas da banda após o fechamento do bar onde haviam tocado. A chuva apertou e não havia táxi para retornar para casa. Como a água parecia ajudar a minimizar o efeito do álcool, tirou a camisa e seguiu andando pela calçada em busca de transporte. Se fizesse isto agora, aos 80 anos, acabaria no hospital com pneumonia, pensou. Francisco observou os pingos caindo sobre as águas escuras do lago. Sentiu-se cansado, sonolento.

O contrabaixo, guardado em um armário de casa há muitos anos, não sabe como, havia pousado sobre seu colo. Começou a tocar, com as mãos inicialmente trêmulas, Take Five, de Paul Desmond, no arranjo consagrado pelo Dave Brubeck Quartet. Os dedos enrugados foram ganhando firmeza e agilidade. Aos poucos, surgiram parceiros das bandas em que tocou. As imagens eram nostálgicas e belas. Músicos famosos que admirava juntavam-se ao grupo, que foi aumentando até virar uma orquestra como as que aparecem naqueles retratos antigos em preto e branco, misturada às árvores do parque, movimentando-se sobre a superfície nublada do lago. Francisco tocava enquanto mirava sua própria imagem que refletia no espelho das águas banhadas pelo luar o rosto do garoto de 13 anos que fora um dia.

* Luiz Reni Marques é jornalista e O Último Concerto de Jazz (Sinal Cultural, 202 páginas) pode ser encomenda pelo e-mail luizreni@sinalcom.com.br). O livro, segundo romance do autor, relata a tragédia provocada pela II Guerra Mundial e a forma como respinga no subúrbio de Porto Alegre, em 1944, com a partida dos 25 mil pracinhas da FEB (Força Expedicionária Brasileira) para combater os nazistas na Itália, ao lado das tropas aliadas. Aos 13 anos, o mundo de Francisco é abalado pelo embarque do irmão Frederico, cinco anos mais velho, para lutar do outro lado do Oceano Atlântico, em um conflito até então distante do seu mundo e dos seus interesses. 

Nenhum pensamento

  1. Adorei!! O autor vai tecendo devagarinho a história dos personagens, seus pais, seus filhos, seus afetos, os inesperados de suas vidas, as alegrias cotidianas, a música que os embalava, a politica, por décadas. Muito sensível. E uma tarde, tomando chá, você se pergunta: “E o Francisco? “

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