Meu tio

Juan Esteves lembra o amigo David Drew Zingg, o Uncle Dave, fotógrafo americano que com elegância e humor tão bem retratou a alma brasileira

Para ser lido ao som de Bossa Nova at Carnegie Hall

Foto: Juan Esteves

Conta a lenda que o fotógrafo, jornalista, editor, velejador e músico bissexto, David Drew Zingg aportou no Iate Clube do Rio de Janeiro em 1959 a bordo do belo Ondine, um ketch de 17 metros, comandado pelo icônico Sumner “Huey” Long, armador americano conhecido por suas embarcações hight-tec e por competir nas mais perigosas e desafiadoras regatas do mundo.

Eles estavam na quinta edição da então famosa regata Buenos Aires-Rio de Janeiro e infelizmente o vencedor foi o iate argentino Tango, de Raul Decker. Mas, felizmente, o Brasil ganharia para sempre uma personalidade genial da fotografia internacional.

Com passagens pelas históricas revistas Life, Vogue, Look, Sports Ilustrated e Esquire entre outras, Zingg trouxe sua expertise para publicações como Manchete e Realidade, bem como para a imprensa diária no jornal Folha de S.Paulo e no peculiar Notícias Populares. Foi na porta do prédio que abrigava estes jornais, no centenário bairro do Campos Elíseos, que o conheci pessoalmente em uma manhã de 1983, como um ainda incipiente fotojornalista. “Hello Rokie!”, como ele diria, mal sabendo que marcaria minha vida.

A década de 60 no Brasil, em especial no Rio de Janeiro, reunia todas as condições para que uma personalidade como Zingg pudesse mostrar seu ecletismo. Era o tempo da Bossa Nova, que nas casas noturnas (ou boates, como se chamava então), que figuras geniais como Tom Jobim, Vinícius de Moraes e João Gilberto. Zingg estava por lá também e, antes de recordá-lo como fotógrafo, é bom lembrar que o envolvimento de Zingg com a música brasileira foi tamanho que ele acabou sendo fundamental na organização do show da bossa nova Carnegie Hall, em Nova York, reunindo nomes como Oscar Castro Neves, Agostinho dos Santos e Sergio Mendes, além do já citado João Gilberto.

Duas décadas depois, a música continuaria presente entre seus interesses, porém em outras formas: a partir de 1980, ele seria um dos vocalistas da banda Joelho de Porco, expressão máxima do rock-punk paulistano. À frente do Joelho de Porco, Zingg até participaria de uma das etapas do Festival dos Festivais, promovido pela Globo, em 1985.

Mas seu maior legado ficou mesmo na fotografia. Uncle Dave, como gostava de ser chamado pelos amigos, foi genial ao registrar com sua câmera ícones da música como os cariocas Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha, Chico Buarque, Dorival Caymmi e Caetano Veloso, além de personalidades de outras áreas como Leila Diniz, Guimarães Rosa e Juscelino Kubitscheck. De todos, Zingg retirou o melhor de suas imagens tendo como instrumento a simplicidade calcada nos cromos 35mm e nada mais do que uma perfeita luz natural.

Nada disso era novidade para ele. Zingg já havia fotografado grandes personalidades internacionais como o presidente americano John Kennedy, com quem havia inclusive velejado, além de ser respeitado por amigos e contemporâneos, como o fotógrafo polonês Alfred Eisenstaedt, famoso pelas suas inovadoras fotos de rua para a revista Life.

Uncle Dave costumava contar na redação da Folha de S. Paulo, onde comecei a trabalhar dois anos depois que o conheci, que uma vez em um baile na Casa Branca, o amigo Eise quis arrancar de seu pescoço um novíssimo fotômetro “spot”, que ele usava enquanto todos dançavam, um aparelho usado para medição mais precisa da luz. Zingg também foi o padrinho da MacMania, revista dedicada aos usuários do computador Macintosh no Brasil, do qual a maioria dos fotógrafos são aficionados.

Passados alguns anos da nossa conversa na Alameda Barão de Limeira, ou melhor da minha descarada tietagem ao simpático Zingg e após alguns encontros pontuais, passamos a nos ver semanalmente na sala da Fotografia do jornal onde eu já estava como editor e ele como nosso consultor, no que hoje, sendo chic, podemos chamar de mentoria. Meu primeiro trabalho internacional foi através de sua indicação.

As “inovações” de Zingg como consultor de fotojornalismo incluiam reuniões semanais da equipe fotográfica em que, deixando de lado nossos concorrente nacionais, nos preocupávamos em analisar as grandes publicações como Vanity Fair, Sports Ilustrated, The New Yorker; além de livros de grandes fotógrafos internacionais e técnicas fotográficas mais peculiares, como por exemplo, colocar uma câmera no teto do ginásio do Ibirapuera durante a final do campeonato mundial de vôlei que cobrimos em São Paulo.

A “exploração” do Tio Dave foi muito além, até mesmo como saber dar um laço em uma bow tie (ou uma standard, se você não fosse capaz de aprender) que seria uma de suas características, de como usar o mais charmoso chapéu e como vestir uma camisa sempre com a manga bem dobrada acima do cotovelo, de como combinar os chinos cáqui com os indefectíveis suspensórios, complementando tudo com um lenço cotton de estampa de cashmere, casualmente caindo do bolso de trás. Zingg sabia escolher até o melhor brogue para calçar e sair por aí com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.

O querido David dizia que “ser um fotógrafo atuante é ser convidado a cruzar os portões do paraíso. Ser um fotógrafo atuante é fixar residência no inferno. Levar uma máquina pendurada no pescoço é levar um passaporte para o mundo das perversões e dos prazeres humanos”. Não ocorria a ele, continuando, “maneira melhor de justificar nosso desejo natural de ser um desses voyeurs assumidos”.

Para o jornalista paulista Matinas Suzuki Jr, um dos seus grandes amigos, o fotógrafo tinha algo de especial com o Brasil: “É como se, ao tentar flagrar a alma privada de grandes brasileiros (…), ele retratasse uma espécie de alma coletiva do brasileiro ou da brasilidade”. O texto está no catálogo da exposição de 1999, no Centro de Artes e Comunicação do Senac, que continua abrigando suas fotografias nas paredes.

Fotógrafos como Walter Firmo, Sergio Jorge e Vic Parisi do grande elenco da Manchete, lembram que Zingg conseguiu mudar radicalmente o conceito de fotografia da revista. Ao ser contratado por Adolpho Bloch, dono da revista, uma das primeiras coisas que ele fez foi trabalhar com filme 35mm. Contam eles que a ordem na publicação era não usar nada menor que 6X6cm e que Zingg não somente usava o filme de menor tamanho, como gostava de trabalhar com teleobjetivas que desfocassem ainda mais os fundos, uma ruptura no vocabulário das imagens da época, calcadas na maestria dos franceses Jean Manzon e Marcel Gautherot e do piauiense José Medeiros, precursores na consagrada revista O Cruzeiro.

Mais do que muito brasileiro, Zingg percorreu o Brasil, fotografando também anônimos, mostrando as peculiaridades de regiões que raramente apareciam para o grande público das revistas ou da televisão. Foi a Brasília no período de construção, passando pelo interior de várias cidades, mostrando o cotidiano em cores fortes e saturadas. Zingg deixou um vasto arquivo que acumulava em caixas, em um pequeno sobrado na região dos Jardins, em São Paulo. Este rico acervo agora se encontra guardado no Instituto Moreira Salles.

Criada em 1966 a revista Realidade foi uma ruptura para as publicações da época trazendo fotógrafos como o americano George Leary Love, a inglesa Maureen Bisilliat, a suíça Claudia Andujar e o baiano Walter Firmo. Não somente se implantava o chamado new journalism, com textos mais literários, como também sua imagética era menos formal e mais autoral.

Walter Firmo, radicado no Rio de Janeiro, conta que foi o primeiro fotógrafo a ser convidado para o projeto da Realidade. Ele “percebeu um aceno colorido” nas imagens de Zingg, que seria responsável pela sua aproximação com a cor: “Eu viajava pelas suas lentes através das andanças pelo Brasil, seus sucessivos ensaios versavam para um país que eu desconhecia. Um cromatismo absurdo que me traziam a sensação de ouvir a Aquarela Brasileira, de Ary Barroso”.

Zingg ainda permanece um fotógrafo pouco estudado diante de sua importância no cenário da fotografia brasileira. Poucas exposições, como a que esteve em cartaz na sede paulistana do IMS em agosto de 2015, fizeram justiça a sua obra. Além de Fronteiras, apenas as pequenas edições como David Drew Zingg: As Melhores Fotos (1989/90) e uma pequena brochura dentro do box da coletânea A Forma da Luz (2014) se somam a uma lendária publicação citada por Uncle Dave conhecida como Walk on the Other Side, de 1958.

Nascido em Montclair, Nova Jersey, Zingg estudou jornalismo na Universidade de Columbia, em Nova York graduando-se em História e Literatura, onde também foi professor de Jornalismo. Foi voluntário na Força Aérea na II Guerra Mundial, ficando baseado na Inglaterra. Também trabalhou na redação da rede de televisão NBC, como editor e jornalista nas revistas Look e Life e como correspondente na França e na Alemanha para a Rádio das Forças Armadas durante os conflitos. Zingg casou-se com Elisabeth Foulk em 1950, teve três filhos e divorciou-se em 1968. Em 2013 tive o prazer de conhecer e ser entrevistado por um de seus netos, Andrew Hooper Zingg, que escreveu sua tese de graduação para Wesleyan University , em Middletown, Connecticut dedicada ao avô com o belo A Grandson: Search for the Man Under the Hat, uma narrativa composta a partir dos encontros que ele teve com amigos do fotógrafo no Brasil desde 2007.

Na tese, Andrew coloca Zingg como um proeminente fotógrafo, jornalista e agitador cultural. O que sem dúvida ele foi, mas também foi um imenso padrinho e um mais que um generoso mentor, que tive a honra e o prazer de conviver. Ele dizia que é realmente difícil viver, amar e trabalhar em uma terra tão vasta quanto esse Brasil, onde o olhar e a consciência do fotógrafo são dilacerados por essas passagens infelizes do cotidiano. Passados tantos anos, nada mais atual a me lembrar de seu pensamento.

“Fotografia é história e é essa sua função fundamental. A máquina mostra os dias de hoje àqueles que queiram ver os dias de hoje. Mas a máquina também mostra o ontem àqueles que queiram aprender… O dever de um fotógrafo no Brasil, me parece, é insistir no registro do sofrimento e prazer, do belo e do irônico. Só o tempo e o público decidirão o significado que as fotografias realmente têm”.

Salve Zingg!

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