De Rollins para Hawkins

Eduardo Osório Rodrigues escreve sobra a carta que o gigante do sax moderno enviou em 1962 para o pai desse instrumento na história do jazz

Para ser lido ao som de Sonny Rollins & Coleman Hawkins em Sonny Meets Hawk! 

O gênero epistolar mobilizou grandes artistas ao longo dos séculos, legando para a posteridade testemunhos de épocas singulares da história, mas esse fervor literário nunca entrou na corrente sanguínea dos grandes nomes do jazz.

A maioria dos músicos estava ocupada demais em viver, em criar e se apresentar. Seus confessionários naturais eram os palcos e a troca de ideias rolava sem cerimônia nas mesas e no balcão dos bares, regadas a hectolitros de uísque e baforadas de fumaça no ar. Gênios como Charlie Parker e Miles Davis preferiam tocar seus instrumentos e o coração dos ouvintes a gastar tinta escrevendo sobre seu ofício e as dores da alma a colegas que viam quase todas as noites nas casas de música ao vivo da 52nd Street, em Nova York. Louis Armstrong escreveu cartinhas amorosas e bem humoradas endereçadas para a amante Lucile Sweets Preston e para Sharon, sua única filha biológica nascida dessa relação extraconjugal.

No espólio do jazz, há outros exemplos de missivas escritas, envelopadas e seladas por instrumentistas e cantores, porém nenhuma carregada de emoção como esta.  No dia 13 de outubro de 1962, Sonny Rollins escreveu uma carta para Coleman Hawkins assumindo curiosamente o papel de jovem aprendiz diante do mestre iluminado, embora àquela altura dos acontecimentos ambos fossem referências em seus instrumentos e elogiados pelo público e, principalmente, pela crítica.

Hawkins continuava gravando discos com a qualidade habitual que assombrou o mundo do jazz desde a década de 30. Rollins, por sua vez, já havia lançado a obra-prima Saxophone Colossus (1956) e voltara do autoexílio disposto a fazer novas experimentações, incluindo um guitarrista em seu grupo e se apresentando cada vez mais no formato de trio sem piano.

A carta de uma delicadeza comovente foi escrita quatro dias depois de Rollins assistir a participação de Hawkins num show em memória do vibrafonista Eddie Costa, no Village Gate. É uma extraordinária demonstração de respeito ao homem que fez do sax tenor um instrumento solista e revolucionário na evolução do jazz. Neste trecho, Rollins explica as razões de sua admiração por Mr. Coleman: “…Mas é verdade que caráter, sabedoria e virtude são superiores à própria música. E esse sucesso depende da evolução dessas qualidades em cada um de nós. Esse sucesso foi positivo e duradouro para você, Coleman; é uma honra e um reconhecimento de nós, de seus colegas, e de mim mesmo, já que você acendeu a chama da inspiração em muitos de nós e foi o representante máximo da superioridade e da excelência no esforço, da qual você é hoje a clara imagem viva e o exemplo a seguir”. Em outro trecho, Sonny mostra que a fluência de seu texto é tão cativante quanto seus solos. “Sempre foi uma tarefa árdua traduzir em palavras as coisas que, em sua natureza, são as mais profundas e significativas. Desta vez, você me mostrou por que mantive uma opinião tão alta a seu respeito por tanto tempo. Boa sorte em suas viagens e espero que tenha chance de ouvi-lo tocar o saxofone tenor novamente”.

Esse texto é lembrado até hoje como exemplo de beleza, humildade e reconhecimento. No ano seguinte às bem traçadas remetidas ao seu mentor, Sonny Rollins e Coleman Hawkins gravaram o disco Sonny Meets Hawk!. Lançado pela RCA Victor em 1963, o álbum recebeu quatro estrelas da Downbeat.  Pena que ao entrar no estúdio para celebrar essa amizade imorredoura, Rollins e Hawkins não tenham tocado aquela que seria a música ideal para simbolizar este momento. Love Letters, de Victor Young e Edward Heyman, composta em 1945, já integrava o setlist nas apresentações ao vivo e fora gravada por ele antes e depois desse encontro mágico: no disco Plus Four do baterista Max Roach para a Emarcy Records, em 1956, e nos álbuns Sonny Rollins & Co. e The Standards Sonny Rollins, gravados para a RCA Victor em 1964.

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