Quando?

Marcelo Corsetti reflete sobre a sua criação artística (e seus interesses familiares/esportivos) em tempos de pandemia

Para ser lido ao som de Marcelo Corsetti em Tri-Óh

Foto: Maria Eduarda Nectoux

QUANDO tudo isso começou, lá na China, eu estava na Itália. Passar a virada do ano com a família e o filho que lá estava, estudando e correndo atrás de seus sonhos olímpicos.

QUANDO tudo começou na Itália, eu estava no Brasil, mas tinha lá ainda meu filho. Por mais que não parecesse tudo isso, parecia algo.

QUANDO tudo estourou na Itália, meu filho jogava uma Copa do Mundo no Egito. Voltaria uns dias depois e as antenas ficaram de pé.

QUANDO voltou à Itália, só restou fazer quase um plano de resgate antes que a doença chegasse em Pisa.

Aqui começa a vida estranha dessa caminhada incomum.

Eu estava em Porto Alegre comemorando o melhor resultado do ano de meu filho no circuito mundial e só pensava em tirá-lo do lugar escolhido para que essa caminhada fosse vitoriosa.

Ao mesmo tempo, fazia planos profissionais para o ano, como:

–  O Festival Angela Flach chegaria a seu show número 50.

– Lançaria o selo do estúdio. Um selo de música instrumental gaúcha com um disco mensal gravado nos moldes ECM, ao vivo e com talento transbordando na fita.

– Faria uma turnê pelo interior do estado com meu trabalho, fazendo palestras sobre o livro, esporte e música em locais com muitas crianças.

– Faria a tour de lançamento do novo álbum do Bebeto Alves, Pela Última Vez, nome que agora parece ironia.

Bem, todos esses planos ficaram para depois, assim como, a comemoração de um grande resultado na esgrima, uma grande vitória do Internacional ou a satisfação de um show perfeito.

Para um guitarrista, o vírus foi um choque na realidade. Alguns dizem que o mundo deu pause. Para mim, o mundo deu STOP. O mundo da música será o último a voltar a girar.

Pessimista? Não, realista.

Nunca tive ilusões do período de quarentena. Talvez por um notório saber de ver amigos de meu filho espalhados pelo mundo – muitos na Itália e Espanha – relatando seus dias.   Sempre falei que não buscaria nada nesses dias. Quando ouvia pessoas falando em “mantenham suas rotinas eu quase dava risada.

A meu ver é quase de mau gosto querer dar ares de normalidade na total anormalidade que vivemos.

Normalidade como se ir ao supermercado é quase praticar roleta russa. Ou alguém acha razoável que um abraço fraterno virou uma coisa perigosa?

Tocar guitarra? Sim, de vez em quando. Quando eu tiver vontade. Jamais porque essa é uma obrigação nos dias atuais.

Obrigação nesse domingo interminável é buscar o bem estar extremo. Meu, de minha família e das pessoas que estão aí pela volta.

Experimente dar um bombom a cada funcionário do supermercado onde compras tuas comidas e vais ver o mais sincero olhar de felicidade. Sim, olhar.  Se houver um sorriso, ele estará tapado pela máscara.

Viver a música hoje é viver a incerteza de quando voltaremos.  É ter a sincera sensação de que, noventa por cento da música que consumimos no dia a dia, já foi composta e já está registrada em algum lugar.

Então pergunto, será que um guitarrista de 52 anos ainda pode ter ilusões? Não as tenho mais e, todos os dias, vivo com o lema que me foi passado pelo grande músico Antonio Flores: “Tento fazer o meu melhor todos os dias”.

E quando tudo isso passar?

Bom, daí o pessimista/realista olha para o lado e diz:

– Vamos fazer 50 shows de um festival.

– Vamos fazer um selo de música instrumental gaúcha.

– Vamos fazer turnês lançando discos, essa coisa que não existe mais

– Vamos…

Quando passar, as guitarrinhas estarão ali esperando para serem tocadas com alegria, sem obrigação e com o prazer extremo de saber que toda a música poderá ir para rua, junto com as pessoas.

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