Menos uma canção?

Bebeto Alves explica seu novo momento: “Não vou deixar de compor, nem deixar de gravar, mas agora não tenho compromisso algum, com nada ou com ninguém, somente com aquele momento e nada mais”

Para ser lido ao som de Bebeto Alves em Oh Blackbagual em Pela Última Vez

Foto: Raul Krebs

Muitas vezes não entendemos ou não reconhecemos imediatamente quando um processo qualquer dentro da gente se instala – um processo criativo, um processo filosófico, um questionamento, que através de uma crítica despretensiosa promova uma grande transformação. Há tempos venho desenvolvendo um pensamento sobre as condições de trabalho e de criação que temos na dependência de um mercado regional, de um contexto cultural muitas vezes – quase sempre – hostil. Hostil com o que não estabelece signos facilmente reconhecíveis, que não se referência a nada, que não tem escola, que não frequenta ou que passa ao largo do establishment acadêmico, por exemplo, ou ainda de quem está na contramão, ou numa paralela da mão única do espectro progressista de uma tendência política no sul do Brasil. Vejo essas coisas acontecerem  aqui no nosso ambiente, no esnobe, arrogante e inferior complexo de ser gaúcho.

O sentimento é disparatado, controverso, por estar aqui e presenciar tudo isso. Então, me despeço, mas é preciso que se reconheça nessa despedida um gesto de negação, de não-participação, de não-alinhamento a esse que considero um gesto mesquinho e ignorante que nos coloca sempre na berlinda, ou a reboque dos acontecimentos no país e no mundo. Não se trata de uma fuga, de uma desistência. Me despeço de mim mesmo, do meu diálogo interno que sempre combateu esse estado de coisas. Apesar de tudo, e por isso mesmo, sei que muitas coisas estão mudando, só que, de novo, eu também.

Tenho falado que não quero mais pensar em uma narrativa ao gravar um disco, em um roteiro, em uma linha com começo, meio e fim, pois no mundo digital que vivemos esse tipo de coisa não existe mais ou vai deixar de existir em breve. A um artista músico só o mercado nos é permitido e nada mais. Pois não aceito o mercado, e “veramente” não sei se um dia aceitei.

Uma vez li uma entrevista com o gênio Ornette Coleman e me surpreendi com o pensamento linear, claro e ricamente filosófico que acompanhava aquele artista. Naquele momento senti que tudo era muito mais do se supunha. Não que não tivesse presenciado e acompanhado tudo que se pensou, que se elaborou como moldura de artistas como o Caetano e Gilberto Gil, por exemplo aqui no Brasil.

Lembro sempre de um filme, The Commitments, na cena de um produtor que montou uma banda de soul music na Irlanda e em casa, tomando um banho de banheira, ali, em sua imaginação, deu uma grande entrevista para a Rolling Stone. Pois, muitas vezes me peguei, ou dando entrevista, ou rebatendo, discutindo, sobre assuntos que vinham à baila no cenário cultural, musical no Brasil ou no mundo. Não exatamente numa banheira, mas possivelmente deitado na cama, fumando um cigarro. Ou ainda madrugada adentro nas noites do Bar do Beto da Venâncio, com o Nelson, Totonho, Cao e outros tantos amigos, discutindo, criando, elaborando a nossa permanência na via cultural que nos cercava, “nos discutindo”.

Claro que não vou deixar de compor, nem deixar de gravar, mas agora não tenho compromisso algum, com nada ou com ninguém, somente com aquele momento e nada mais. E, espero ainda poder fazer alguma apresentação aqui, ali, onde me permitirem.

Já fiz o que tinha de fazer, nada mais há para mudar. Já mudei, já contribui, já faço parte de uma história e não tenho nada para provar. Estou com 65 anos e isso me é significativo.

Quero continuar fazendo outras coisas que me atraem e me dão uma nova pulsão, como por exemplo a fotografia, as artes visuais, que sempre me acompanharam e que a partir de um momento recente entre 10, 15 anos passados, dei início a um novo processo criativo.

Sei que vou enfrentar e já enfrento o mesmo tipo de problema, mas, aí é outra história e me sinto mais bem preparado para essa diversão.

Que se pasa, Bebeto?

Márcio Pinheiro

Esse sentimento do qual Bebeto Alves fala no texto acima não é algo novo. Há pelo menos uma década ele vem pensando assim. No começo de 2010, quando ficamos mais próximos durante a feitura do documentário Mais uma Canção, ele já vivia essa fase de paradoxos: cantava o homem invisível ao mesmo tempo em que se mostra mais visível do que nunca, escancarando seu pensamento, suas ideias, seus sons e sua intimidade num documentário do qual era o protagonista. Falava nas suas raízes em Uruguaiana (questão sempre presente na sua obra e que com o passar dos anos adquiriu uma força cada vez maior) ao mesmo tempo que empreendia uma viagem pelo Marrocos e pela Espanha em busca das origens da sua musicalidade. Um roteiro de revelações, de espantos e de descobertas. Já naquele período falava em compor menos, em deixar se surpreender pela música (“A música não está dentro de mim. Muitas vezes sou eu que estou dentro dela”, dizia).

Aos 55 anos, depois de muitas e boas (e algumas nem tão boas), ele dizia se sentir mais sereno. A receita, segundo ele, era um certo desapego, um ouvido mais crítico e uma certeza de que o futuro já existe. “Durante muito tempo tive uma saudade do futuro. Mas quem não teve?”, questionava Bebeto, para em seguida responder que seu objetivo maior era ficar velho “Estou atrás de uma fonte da juventude às avessas”, explica.

Nessa velhice tão aguardada, a música teria que surpreendê-lo. E, no momento, o que mais surpreendia Bebeto eram as artes plásticas em geral e a fotografia em particular. Ou seja, Bebeto estava interessado nas imagens e sua música se alimentava disso. Se antes Bebeto fazia manifestos, com letras longas e discursivas, hoje, com os sons, Bebeto compõe retratos. Podem ser 3×4 ou postais ou até mesmo imensas panorâmicas. Mas a música não pode mais estar separada da imagem. E como síntese desses tempos que o artista vive, entre o presente e o futuro, entre o amadurecimento e a velhice, entre o som e a imagem, poderia se concluir que os olhos de Bebeto estão em dois pontos diametralmente opostos – um no microscópio, outro no telescópio.

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