Memórias jazzísticas e jornalísticas

Antônio Carlos Miguel adianta o rico material que tem guardado e que pode vir a se transformar numa mostra ou num livro

Para ser lido ao som de Miles Davis em Water Babies

Não me lembro bem se foi antes ou depois (talvez durante) da festa-lançamento desse que foi o segundo e derradeiro número do Almanaque (Biotônico) Vitalidade, em 1977. Mas, do esporro-carinhoso de Cafi nunca esqueci, algo mais ou menos assim: “Porra, é assim que você reage ao meu elogio? Adorei a tua foto mesmo”.

Referia-se à imagem dos garotos no alto do Morro dos Tabajaras, que ele, como um dos editores da publicação, escolhera para a última página, junto a poema de Márcio Borges. E, sim, não dei muito peso ao afago, talvez pelo fato de, na época, outro dos integrantes da trupe de poetas, artistas plásticos, fotógrafos da Nuvem Cigana ter me dado mais uma prensa, tipo, “Você tem que se decidir entre fotografia, poesia, jornalismo… Não dá para ficar pulando de galho em galho”. O conteúdo foi mais ou menos esse, mas, não tenho certeza de quem desferiu, de forma mais dura.

O querido Cafi, que nos deixou na virada de 2018/19, já era o fotógrafo-artista que, principalmente na MPB, deixou trabalhos fabulosos, a partir da emblemática capa de Clube da Esquina.

Eu, largando a fotografia, às voltas com o curso de Comunicação e mirando a poesia, assinei no almanaque como Ferreti. Este era o apelido que ganhara no então Científico/Clássico (o que hoje é o Ensino Médio), ali por volta de 1969, quando disputei um campeonato da escola pública nos campos do Aterro do Flamengo e colegas me acharam parecido com o atacante do Botafogo, campeão-artilheiro do carioca em 1968. Meu talento era no gol, como logo a turma percebeu e me escalou (ficamos com o vice-campeonato, em parte, graças ao meu desempenho), mas, o Ferreti colou – até o fim dos anos 70, quando resolvi exterminá-lo.

As fotos da garotada foram feitas em 1975, no mesmo dia no qual, horas antes, acompanhado de um amigo da República Dominicana (Miguel A.H.), fotografara Cartola (e Dona Zica) em sua casa na Mangueira.

Por cerca de uma década e meia – mais nos 70, com retomada na metade dos 80, em reportagens para o finado Jornal da Tarde e outros frilas –, fui o fotógrafo errado no meio certo e junto às pessoas certas. Avesso aos rigores da técnica, sem laboratório ou o uso do flash, registrei no palco ou em ambientes do cotidiano um grande leque da música popular brasileira. A lista passa por Cartola, Clementina de Jesus, Caetano, Gil, Milton, Rita Lee, Gal, Novos Baianos, A Cor do Som, Gonzaguinha, Hermeto Pascoal, Ismael Silva, Egberto Gismonti, Ney Matogrosso, Rosinha de Valença, Victor Assis Brasil, Waldyr Azevedo, Eduardo Dussek, Jackson do Pandeiro, Airto Moreira, Renato Russo, Herbert Vianna, Miquinhos Amestrados. E, fora da MPB, inclui ainda jazzmen como Miles Davis, Charles Mingus, John McLaughlin e Ray Charles.

Na época, parte desse material foi publicado em jornais e revistas alternativos como Música do Planeta Terra e Jornal da Música, mas, na sua maioria, está inédito. Daí a ideia, de quatro décadas depois, reunir essas fotos num livro (e numa exposição), com pequenos textos relembrando os encontros ou os momentos nas carreiras de cada artista.

No fim da adolescência, sem noção do rumo a seguir, mais propenso a cair na estrada do que fazer a faculdade que acabei seguindo, a fotografia foi uma das metas. Misturada ao cinema, à poesia, ao cinema (curso no MAM e assistente de Marcos Farias num documentário) e ao jornalismo que, depois, acabou imperando (e me sugando).

Estamos falando de meados dos anos 70 e parte dos 80. Entre 1973 e 1974, trabalhei numa pioneira agência, Câmara Três, fundada por três dos melhores repórteres fotográficos da época, o carioca Walter Firmo (que pulou do barco alguns meses depois), o amazonense Sebastião Barbosa e o alemão (que se suicidou lá pelo fim dos anos 90) Klaus Meyer. Aos 19 anos, eu era um improvisado arquivista, fazendo a primeira seleção dos intermináveis rolos de slides e das páginas de contato preto & branco que não paravam de chegar. Aos poucos, também comecei a atuar como eventual assistente de fotografia. Até que, após um ano, por insistência materna, fiz o vestibular, passei para o curso de Comunicação da PUC (depois migrando para a ECO/UFRJ) e acabei trocando a prática pelas salas de aula.

Miles Davis no Teatro Municipal, 1973

Durante o curso, um amigo que voltava ao Rio após um ano na estrada, o saudoso Júlio “Gang 90” Barroso, chamou-me para ajudar a fundar a revista alternativa Música do Planeta Terra, que lançaria com a ajuda financeira de seu pai. Assim, aos 21 anos, cursando a faculdade, virei coeditor da publicação que, durante um ano, em seus cinco números, contou entre seus colaboradores com Caetano Veloso, Jorge Mautner, Luiz Carlos Maciel, Jorge Salomão, Rita Lee, Ronaldo Bastos, Ilmar Carvalho. Fiel ao título, o cardápio ia de Miles Davis a Ismael Silva; do rock progressivo alemão a Cartola; da poesia beat a Egberto Gismonti.

A partir daí, como free-lancer, e com o texto tomando cada vez mais o lugar da fotografia, marquei presença em outros jornais e revistas alternativos como Jornal de Música (criado por Ana Maria Bahiana, Ezequiel Neves e Tárik de Souza), Transe e Som Três. Até, a partir de meados dos anos 80, ingressar na grande imprensa como jornalista especializado em música.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.