Ler é o melhor remédio

Para Eric Nepomuceno, os livros nos levam a tentar mudar a realidade que nos rodeia ou buscar a realidade que nos foi escondida

Para ser lido ao som de Joaquín Sabina e Fito Paez em Contigo

Foto: Divulgação

Eric Nepomuceno está em isolamento mas não está isolado. Na casa que tem em Petrópolis desde 2001, ele se instalou com a mulher Martha, livros e muita música. De lá, envia textos, fala com amigos e se dedica também à gastronomia – sou testemunha de uma ótima receita por ele enviada de uma costelinha de porco feita no forno. Eric e Martha estão em Petrópolis desde 17 de março. Felipe, o filho deles, chegou três dias depois. A ideia inicial é permanecer por lá até o final de maio. Antes disso, Eric e Felipe – cineasta, dono da Nepomuceno Filmes – lançam nesta segunda um combo de conteúdo inédito na internet, composto por duas séries e um curta-metragem produzidos de forma independente nos últimos dias. Filmados em um aparelho de celular e editados em um laptop, as séries são Leituras na QuarentenaDias e Noites de Amor e de Guerra” e o curta-metragem “Cinco anos de solidão”.

Agora o próprio escritor explica melhor. Fala aí, Eric:

“Ficar sozinho é uma coisa, sentir solidão é outra. Eu, por exemplo, adoro ficar sozinho. Sempre que posso, escolho essa situação. Mas não ter essa escolha é, para mim, assustador: muito diferente de me isolar, é ser isolado. Ficar isolado, sem poder ver amigas e amigos de décadas e que estão logo ali, ao alcance da mão. Pensando nisso, pensei em maneiras de combater o vazio do isolamento. E cheguei à conclusão de que ler é o melhor remédio. Ao longo de anos e anos eu disse e redigo que nenhum, nem um único livro, mudou a história do mundo. Nem mesmo a obra de ficção mais lida e traduzida na história da humanidade, a Bíblia, mudou o mundo. O que os livros podem mudar e muitíssimas vezes mudam é a nossa maneira de ver a vida e o mundo. E nos levar a tentar, então, mudar a realidade que nos rodeia ou buscar a realidade que nos foi escondida. O que eu nunca disse, porque embora estivesse convencido acreditava ser óbvio, é que os livros podem, e conseguem na imensa maioria das vezes, suavizar a nossa solidão. Ao conviver com personagens que nos atraem ou rejeitamos, ao tentar descobrir não apenas o que eles pensam mas qual rumo tomarão, eles se transformam em companhia. Por esses dias de pandemia descontrolada e de país desgovernado, sem norte nem rumo, tenho lido. E além de ler, tenho me lembrado de livros que li (e alguns reli, e outros se tornaram releituras rotineiras ao longo dos tempos). Assim, conto que andam me fazendo companhia o velho Santiago, de O Velho e o Mar, e Lia, Lorena e Ana Clara, de As Meninas, e convivo com a tensa e amedrontadora atração entre David e Giovanni de O Quarto de Giovanni, ou padeço a tensão que paira soberba sobre o desespero do casal de O Banho, e observo de longe a solidão do halterofilista de A Força Humana, e torno a mergulhar, depois de décadas, nas águas do Mississipi e constato, sereno e feliz, que nada mudou nem nelas, nem na minha memória. São companhias variadas, que varrem a minhas lembranças pelo avesso. E é graças a essas companhias que a solidão da quarentena se torna menos densa, mais suave. Como disse dia desses Joaquín Sabina, um dos maiores compositores da música popular espanhola contemporânea, ler é o melhor remédio contra o medo – esse medo imenso que se espalha nestes tempos de tensão e breu.”

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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