As duas mortes de Henry Grimes

Contrabaixista morto aos 84 anos foi protagonista de uma das histórias mais tristes e surpreendentes do jazz

Para ser lido ao som de Henry Grimes tocando no show que marcou seu 75º aniversário

Foto: Seth Tisue/CC BY-SA

Henry Grimes morreu na última quarta-feira, colhido pelo coronavírus – mais um na imensa lista de vítimas jazzísticas – aos 84 anos, no Centro de Reabilitação e Enfermagem, no Harlem.

Esta foi sua segunda morte. A primeira ocorreu há mais de 50 anos, numa data incerta de 1969, quando o contrabaixista sumiu de repente sem deixar rastros.

Sabia-se que ele enfrentava problemas financeiros na época, porém nada que justificasse tão absoluto sumiço. Podia também parecer uma maldição o que existia sobre alguns músicos daquela geração, como Albert Ayler, desaparecido em 5 de novembro de 1970 e encontrado morto no East River 20 dias depois. Até hoje não se sabe se foi suicídio ou assassinato. O caso de Henry Grimes impressiona pelo abandono e pela tristeza. Parceiro e contemporâneo de Albert Ayler, Grimes (nasceu na Pennsylvania em novembro de 1935) foi por quase uma década um dos mais importantes contrabaixistas do jazz, emprestando seu talento a Thelonious Monk, Gerry Mulligan, Sonny Rollins, Charles Mingus e Lee Konitz (que também morreu nesta semana da mesma causa). Com Ayler, Grimes tocou nas gravações feitas ao vivo no Greenwich Village e estava na ativa até o sumiço repentino. Como o desaparecimento ficou por anos sem explicação, muitos passaram a acreditar que Grimes havia morrido. Rara exceção nesse comportamento foi Marrotte Marshall, um assistente social e fã de jazz, que nunca acreditou no sumiço. Atrás de pistas, Marshall encontrou Grimes em 2002. O músico vivia como indigente, ocupando um pequeno apartamento na periferia de Los Angeles, fazendo estranhos trabalhos para sobreviver e sem tocar com ninguém – nem sequer tinha mais o contrabaixo.

A ressurreição foi completa. Em poucos meses, Grimes recuperou-se e voltou a tocar, fazendo shows em Los Angeles e tendo um retorno triunfante em Nova York para o Vision Festival de 2003 – 35 anos depois de sua última apresentação na cidade. A partir de então, também se aproximou de músicos da nova geração, como Marc Ribot e John Zorn, além de se aventurar a incorporar um novo instrumento em seu repertório: aos 70 anos passou a estudar violino.

Correndo atrás do tempo perdido, ele atuou, só no primeiro ano, em mais de duas dezenas de festivais, voltou a gravar e, paralelamente, lançou um livro com poemas escritos durante o período em que esteve fora do ar, Signs Along the Road. Do contrabaixo, Grimes nunca mais se afastou. Em 2003 recebeu uma doação do também contrabaixista William Parker. Era um instrumento verde, que ganhou o apelido de Azeite de Oliva.

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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