My sweet guru

Lucio Brancato revela sua admiração e respeito por Ravi Shankar, mestre indiano que teria comemorado cem anos nesta semana

Para ser lido ao som de Ravi Shankar em Improvisations

Foto: Ana312727/CC BY-SA/WikiCommons
Foto: Ana312727/CC BY-SA/WikiCommons

Na última terça-feira foi celebrado o centenário de um dos músicos mais importantes e universais da história da música: Ravi Shankar. Reconhecido como um dos inventores do que conhecemos hoje como world music, Shankar foi o responsável direto por conectar musicalmente o Oriente com o Ocidente, apresentando para todo o planeta o infinito de possibilidades que podiam ser exploradas com a música.

Sua trajetória internacional começou cedo quando começou a acompanhar a trupe de dançarinos e músicos indianos liderada pelo seu irmão Uday Shankar. Com apenas 10 anos, já rodava por toda Europa com a companhia de Uday sendo que aos 13 anos se tornou membro efetivo como dançarino. Além de ter contato com a música ocidental, neste mesmo período da década de 30, Shankar ampliou ainda mais seu conhecimento de música clássica indiana. A partir dos músicos que acompanhavam as apresentações de dança, Shankar teve a possibilidade de aprender e estudar toda gama de instrumentos indianos. Foi neste período que teve contato com a pessoa mais importante de sua trajetória, o multi-instrumentista e profundo conhecedor da arte indiana, Allauddin Khan, um verdadeiro guru no maior sentido da palavra. Aquele que detém o conhecimento máximo. Em 1938, Ravi abandona a companhia de dança e retorna para a Índia para se tornar discípulo de Allauddin Khan se isolando para os estudos com o mestre até 1944 quando começa sua jornada musical como instrumentista.

Rodando o mundo logo começa a chamar a atenção de grandes músicos ocidentais como o violinista Yehudi Menuhin, que após assistir uma apresentação Ravi na União Soviética, em 1954, convida-o para apresentações em Nova York. Daí em diante, Shankar não parou mais.

Sua ligação com a música ocidental ganhou projeção ainda maior nos anos 60, devido a sua ligação com o público jovem que teve conhecimento de sua arte por seu envolvimento com o quarteto mais famoso da música pop da época: os Beatles. Foi George Harrison quem se aproximou de Ravi, estudando sitar e incorporando elementos da música indiana na obra da banda. Outro momento que conectou Ravi Shankar com toda aquela geração flower power foi sua participação no Monterrey International Pop Festival, de 1967, no mesmo palco onde Jimi Hendrix incendiou sua guitarra, The Who destruiu tudo que via pela frente e a jovem Janis Joplin fazia sua primeira grande aparição deixando Mama Cass literalmente de boca aberta na plateia.

Porém, o que muitos talvez não saibam é que antes desta conexão com a música pop ocidental, o primeiro gênero ocidental onde houve fusão com a música clássica indiana foi o jazz. Em 1957, o clarinetista Tony Scott lançou o disco Free Blown Jazz, com a faixa Portrait of Ravi feita em homenagem a Shankar. Neste mesmo disco participam ainda Clark Terry, Bill Evans e Sahib Shihab que ajudaram a espalhar pela comunidade do jazz o nome do músico indiano. Em 1962, foi gravado o disco Improvisations, com a participação do saxofonista e flautista Bud Shank e o contrabaixista Gary Peacock, um dos primeiros registros fonográficos de Shankar com músicos ocidentais. Outro caso muito próximo de Ravi com o jazz foi sua ligação com o John Coltrane. Os dois se conheceram em 1965 após já se admirarem e se corresponderem há alguns anos. Com Ravi Shankar, a música de Coltrane ganhou ares divinos e espirituais conectando sua arte com a música indiana, principalmente em álbuns como A  Love Supreme (1965) e Kulu Sé Mama (1965). Nesta mesma leva influenciada pela música de Ravi no jazz estão obviamente os parceiros de Coltrane como Pharoah Sanders, Alice Coltrane, McCoy Tyner. Todos acrescentaram elementos da música indiana nas suas obras. O filho de John com Alice, Ravi Coltrane, é também uma homenagem ao músico indiano.

Morto em 2012, aos 92 anos, Shankar deixou um legado que permanece até hoje, principalmente a partir de sua filha também citarista Anouska Shankar, que desde criança se tornou estudante de música clássica indiana, e também uma série de discípulos diretos ainda em atividade como Vishwa Mohan Bhatt, Barry Philips e Shubhendra Rao.

Boa parte destes alunos de Ravi Shankar iriam se apresentar no dia 7 de abril em Londres, numa celebração do centenário do guru. A apresentação – programada para acontecer no Royal Festival Hall, depois se estenderia para outras apresentações nos Estados Unidos – estava sendo organizada pelas filhas de Ravi, Norah Jones e Anouska Shankar, além de Dhani Harrison, filho do George. Tudo foi cancelado em função da pandemia.

Eu já estava com o ingresso e as passagens compradas para assistir em Londres. Não pedi o reembolso para o teatro, mantenho o ticket comigo na esperança de que tudo isso acabe logo para poder trazer à nossa querida AmaJazz um review completo desta futura celebração interrompida. Ommmmm…

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