Michelle e seu Gato

Paulinho Lima* estreia na AmaJazz lembrando seu relacionamento com Michelle Barbieri, o cérebro que guiava a vida do músico argentino

Para ser lido ao som de Gato Barbieri em She is Michelle

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Não vai ser fácil escrever sobre Michelle Barbieri, essa que foi uma das três mulheres mais importantes da minha vida. Uma outra mulher, a pianista Joyce Collins, também grande amiga, querendo qualificar nossa amizade disse que éramos almas gêmeas e é uma definição perfeita para alguns amigos como Michelle.

Com isso não quero dizer que tínhamos as mesmas preferências e hábitos. Nada disso. O que mais nos ligava era o humor e o que nos fazia rir. Quem acharia graça na frase do ator Walter Matthau, aquela do “Fui pobre e fui rico. Rico é melhor!”? Michelle sempre gargalhava.

Essa frase, ela costumava citar quando já havia sido visitada pela fortuna, resultado do extraordinário sucesso do filme O Último Tango em Paris. Michelle esteve envolvida na trilha sonora, composta por seu marido, o saxofonista Gato Barbieri, desde o início, tendo sido a responsável por apresentar o músico a Bernardo Bertolucci, seu amigo do tempo de vacas magras na Itália. Ela trabalhava como secretária em festivais de cinema e Bertolucci era um jovem cineasta.

No meu livro de memórias Anjo do Bem Gênio do Mal ela está presente – como na maioria das minhas boas recordações. No showbiz, em geral, é possível encontrar muitas personalidades como ela, que estão na retaguarda de um reconhecido artista. Quase sempre são as mães, tão presentes em carreiras como as Judy Garland, Ginger Rogers e da nossa Eliana Pittman (a famosa Ofélia). Às vezes são também as esposas. Porém, Michelle era um caso à parte. Por sua cultura e por sua extrema discrição. Além do mais, ela não tinha nenhum pendor artístico. Seu negócio eram os bastidores.

Num dos festivais europeus, Michelle conheceu Glauber Rocha, que num dos seus costumeiros atos de irresponsabilidade, convidou o casal a vir passar uma temporada no Rio de Janeiro. Convite aceito, alguns meses depois o casal Barbieri chegou ao Brasil onde encontrou hospedagem na casa de Anecy Rocha, (irmã de Glauber) e de seu marido, o cineasta Walter Lima Jr. Lá permaneceram por meses e foi assim que os conheci.

Desde esse tempo Michelle era o “cérebro”, apelido que – soube depois – ela havia ganho por causa de seus relacionamentos no showbiz nova-iorquino, principalmente por seu cuidado com tudo que se relacionava com a carreira de Gato, com quem vivia deste o final dos anos 50. Nas nossas conversas, Michelle me contava histórias deliciosas, como a da passagem de Maysa por Buenos Aires, acompanhada por Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal. Michelle serviu de guia ao trio. Sobre o Brasil, Michelle gostava de recordar as inúmeras viagens que ela e Gato fizeram pelo interior de São Paulo com uma “típica argentina” formada por Gato e os seus conterrâneos Héctor Costita e Lalo Schifrin.

Mas foram em seus anos vivendo em Roma, onde Gato tocava em bares, frequentado por amantes do jazz, que Michelle fez amizades sólidas com os cineastas Gianni Amico, Gustavo Dahl e Pier Paolo Pasolini, além das atrizes Norma Bengell e Adriana Asti. Outro amigo brasileiro era João Gilberto.

Outra cidade fundamental em sua vida foi Nova York, onde viveu em diversos períodos e endereços e onde estivemos mais próximos. Durante os anos que vivi por lá, encontrei nela o verdadeiro ombro amigo, quem de véspera me indicava o filme clássico que consultara na TV Guide e eu não poderia deixar de ver. Sua paixão por Vincent Minnelli era absoluta, como pelo ator John Garfield e pelo cantor Marvin Gaye. Devo a ela também conhecer todos os melhores restaurantes da cidade, na década de 70, sem custos e reserva feita de antemão. Quando não era assim eram suas fabulosas “pastas” com os mais deliciosos molhos sempre variados, acompanhados por vinhos bem escolhidos.

Com os americanos, em geral, tinha pouca paciência e não conheci nenhum que tivesse sua atenção a não ser o seu advogado Bob Levine, que ela acabou descobrindo que cobrava como consulta seus divertidos telefonemas com fofocas nos finais de tarde. Achou engraçada a situação. Não sei se chegou a criar algum apelido para Bob, como fez para Marina Schiano, a representante de Yves Saint-Laurent, na América, sua maior amiga, a quem tratava pelas costas de “La Concreta” e “Herb Alpert de cachecol”.

Mas nada melhor para definir Michelle que a máxima atribuída a David O. Selzenick: “There are only two kinds of class: first class and no class”.

Um exemplo foi o que fez com o argentino Astor Piazzolla, que havia sido convidado para fazer os arranjos para as composições de Gato na trilha de O Último Tango em Paris. Piazzolla recusou, alegando que “O tango sou eu!”. Foi substituído por Oliver Nelson, que Michelle adorava e que fez um trabalho irreparável. Ainda assim, Michelle jamais perdoou a atitude de Piazzolla. Anos depois, quando Piazzolla se apresentou no Carnegie Hall, o argentino recebeu de Michelle, que morava num prédio em frente, uma linda caixa cheia. Dentro: cocô de cavalo que ela recolheu pessoalmente, nas charretes do Central Park. O presente foi enviado com cartão e assinado por ela.

Eu sempre que voltava a Nova York reservava tempo para rever o casal Barbieri. Saíamos para comer fora ou me solicitavam que fizesse uma moqueca baiana. A última foi feita dias antes da formatura de segundo grau de Emiliano, o neto querido de Michelle, que, adolescente, fora concluir seus estudos nos Estados Unidos, morando com os avós.

Os anos haviam passado. Michelle fazia um enorme esforço para parecer bem, mas era a sombra do que fora. Passava meses sem sair de casa e cada vez mais misturava remédios e drogas. Ficou decepcionada quando lhe informei que não trouxera do Brasil os comprimidos de Optalidon, que me encomendara. A sua venda fora proibida por lá. Eu não quis ter problemas se fosse revistado pela alfândega americana. Ainda assim ela não perdeu o humor e comentou que tinha recebido em casa uma das netas de Ernest Hemingway, Margaux, a quem ela lhe confessara nunca ter lido nenhum dos livros do avô.

O mundo perdera a graça para Michelle. Algum tempo depois soube de sua morte por meio de uma pequena nota no Jornal do Brasil. Não havia recebido notícias dela nos últimos meses e tentei diminuir a dor da perda procurando falar com amigo em comum e comentar a falta que nos faria a nossa Michelle Barbieri.

* Paulinho Lima, baiano de Itabuna, 77 anos, trabalhou em teatro, atuou como produtor musical, letrista e é autor do livro de memórias Anjo do Bem Gênio do Mal

Nenhum pensamento

  1. Ótimo artigo. Eu a conheci chez Fabiano Canosa em Nova York no início dos anos 1970 e era isso mesmo: cosmopolita, inteligente echarmosa.

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