Joan Baez é uma voz

Mario Sergio Conti* estreia na AmaJazz escrevendo sobra a cantora que tem o dom da voz: potente e cava, mas com uma promessa de aurora lá no fundo, luz rebelde contra a treva

Para ser lido ao som de Joan Baez em Five Hundred Miles

Foto: Steve Jozefczyk/Wikimedia Commons

Joan Baez escreveu uma autobiografia que começa assim: “Nasci com um dom. Posso falar de meus dons com pouca ou nenhuma modéstia, mas com gratidão tremenda, justamente porque são presentes, e não coisas que eu criei, ou ações das quais poderia me orgulhar”.

Desde a primeira frase (I was born gifted) ela lida com as nuances da palavra gift, que significa “presente” e “dom”. A cantora prossegue: “Meu maior dom, dado a mim por forças que misturam genética, ambiente, raça ou ambição, é uma voz que canta. Meu segundo maior dom, sem o qual eu seria uma pessoa inteiramente diferente, com uma história inteiramente diferente para contar, é um desejo de compartilhar essa voz”.

É interminável, e inconclusiva, e mormente tola, a discussão sobre o talento – se ele é inato, uma força da natureza; se é produto de tradição e necessidades históricas; se é fruto de acaso, mistério e magia; todas as alternativas anteriores estão certas, apesar de excludentes – o que não aumenta a inteligência do talento.

Joan Baez teve e tem, aos 79 anos, o dom da voz: potente e cava, mas com uma promessa de aurora lá no fundo, luz rebelde contra a treva. A genética está presente no seu canto. Ela veio ao mundo em Nova York, filha de mãe escocesa, descendente da alta aristocracia britânica. Seu pai, físico e matemático nascido no México, inventou o microscópio com raios-X. O avô paterno era ministro da Igreja Metodista. O materno, padre da Igreja Anglicana. Já os Baez viraram quakers e criaram a filha na doutrina.

O ambiente afinou Joan Baez. Em função do emprego do pai na Unesco, ela viveu na infância na Espanha, Alemanha, França, Suíça, Inglaterra e no Oriente Médio.

Beneficiou-se da errância e da fluência que adquiriu em várias línguas. Está presente na sua voz o eco de tantos corais que, nas manhãs de domingo, se elevaram para dar glórias ao céu, agradecer o presente da vida. O canto de congregações que exortaram a piedade, a paz, a harmonia entre os humildes. Há um fundo religioso na música de Joan Baez. Nos momentos excelsos, ela serve de alma para um mundo sem alma, ou então inflama com ira santa os que têm sede de justiça. Em outros, lá vem de novo a carola ministrar o bálsamo que entorpece, o ópio ao povo.

Ambição não lhe faltou, mas antes ela teve a iluminação, e estava pronta para recebê-la: foi a um show de música folk quando tinha 13 anos, ficou comovida e quis ser cantora. Começou a compartilhar sua voz com os outros aos 16 anos. Ela mesma fazia os cartazes para divulgar seus shows. Num dos primeiros, havia oito pessoas: os pais, a irmã, o namorado e quatro amigos. Os dons lhe foram dados, mas ela perseverou.

Aí entram o acaso e a história. Joan Baez brotou no princípio dos anos 60, quando um vento diferente começou a soprar. Percebeu a força do folk, a tradição do canto popular americano, e o adaptou aos novos tempos. Seu canto captou grandes mudanças e foi adotado pelos que batalhavam por elas, os inconformados. Fez sucesso e não se acomodou: apadrinhou Bob Dylan, musicou Poe e Joyce, trouxe para as canções o ativismo contra a invasão do Vietnã. A música e a jovem libertária se amalgamaram para dar origem a uma nova figura: a cantora de protesto.

A Joan Baez atual porta esse passado como uma sina. Muita coisa mudou no mundo, na música e nos protestos, mas ela não mudou. Por isso, tem menos a dizer aos inconformados de hoje do que aos cansados de guerra. É uma voz datada, diz o clichê. Tudo bem, mas o substantivo vale mais que o adjetivo: Joan Baez é uma voz. Tudo explicado sobre os seus dons? Não.

Numa cidade estrangeira, o frio, o cansaço e a solidão empurram alguém para a porta de um cinema. Está passando Inside Lleywn Davis, cuja única coisa que sabe a respeito é o nome dos diretores, os irmãos Coen. Mais para escapar de si do que outra coisa, ele entra na sala. O enredo não lhe diz nada além da proposição: contar a história de um cantor folk fracassado, o que só pode redundar num filme fracassado. É uma chatice modorrenta e monocórdica, que se atura porque falta ânimo para chafurdar na neve lá fora. As imagens passam, a mente divaga.

Aí uma moça e dois cantores iniciantes (um deles interpretado por Justin Timberlake) cantam num bar um folk que fala de estar longe de casa, de ter malogrado, de passar frio e estar sem uma moeda no bolso. Antes de a consciência despertar, um lamento perpassa o espectador como uma corrente elétrica, que se sente absurdamente vivo. Ele conhece a canção, é Five Hundred Miles, morta e esquecida há muitas luas. A voz que ouve não é a do filme. É a de Joan Baez, no tempo para sempre perdido em que a ouviu pela primeira vez.

* Mario Sergio Conti é jornalista, apresentador do programa Diálogos, na GloboNews, colunista da Folha de S. Paulo e autor dos livros Eles Foram para Petrópolis (com Ivan Lessa) e Notícias do Planalto.

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