Os monstros sempre vencem

Uma rua perfeita é o cenário ideal para mostrar como um microcosmo interessantíssimo pode revelar uma experiência ainda mais interessante

Para ser lido depois de assistir ao episódio de Twilight Zone

Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

The Monsters Are Due on Maple Street não é o melhor dos episódios de Twilight Zone (esse posto ainda pertence a Time Enough at Last) tampouco o mais surpreendente (voto em I Shot an Arrow into the Air). Porém, é, com certeza, o que mais se adapta aos tempos atuais – ou melhor, aos tempos que virão logo ali adiante. The Monsters…  (desconheço que haja uma tradução para o título, que seria algo como Os Monstros Vencem na Rua Maple é o capítulo 22 da primeira temporada da série criada por Rod Serling, também autor do roteiro deste episódio, exibido pela primeira vez num mês de março há exatos 60 anos. Não estou sozinho nessa minha obsessão. A Time Magazine colocou-o entre os dez melhores episódios da história da série.

O cenário é idílico. Maple Street é uma daquelas típicas ruas de subúrbios americanos, com casas amplas, claras e confortáveis, muitas árvores, alpendres, cercas e churrasqueiras. Tem ainda crianças brincando pelas ruas e até a doce melodia de um sino de um vendedor de sorvetes. Um microcosmo interessantíssimo para uma experiência ainda mais interessante.

A tranquilidade é quebrada por uma sombra aérea, um estrondo e um flash de luz. Não há explicação imediata.  Apenas a energia elétrica cai. De uma maneira mais ampla não é apenas a falta de luz – que pouco afetaria a vida de todos naquele ensolarado dia – mas fogões, telefones e carros também têm seu funcionamento afetado.

A partir daí, o episódio começa a se desenvolver – com a nociva interferência dos humanos, os verdadeiros monstros da rua. Começa com o fato que, para o acontecimento, cada um tem uma tese absoluta, das mais óbvias às mais esquisitas. Os que se propõem a uma ação mais prática, como, por exemplo, ir à rua vizinha para saber se ela também foi afetada, são desencorajados por um menino. O garoto lera um artigo sobre invasões de alienígenas em comunidades próximas e que estes monstros costumam ser rigorosos com uma medida – as pessoas não devem sair de casa (estão acompanhando o raciocínio?).

Assim, as opiniões do menino, o descompasso entre os adultos, as crenças de cada um e a desconfiança de todos se ampliam. O caos começa a se instalar.

ALERTA PARA SPOILER: SE VOCÊ AINDA QUER VER O FILME, CUJO LINK ESTÁ ACIMA E ESTÁ TAMBÉM INCORPORADO LOGO ABAIXO, E NÃO QUER SABER O FINAL, PARE DE LER AQUI.

Daí para o final, nada mais se acerta. As pessoas brigam, uns ameaçam os outros, alguém sugere incendiar determinada casa, outros pegam em armas e um mais exaltado atira em uma pessoa que se aproxima sem ser identificada. E que, logo depois, se descobre ser apenas um outro vizinho. A histeria parece não ter fim.

A câmera se afasta, Maple Street, agora caótica, vai ficando ao longe e o que se vê então é o topo de uma colina. Lá, estacionado, um disco-voador. Seus tripulantes nada têm de ameaçador. São calmos e analíticos. Observam o cenário e concluem que seu experimento – tão simples quanto genial – revela muito sobre o ser humano. Brincar com a rotina leva à histeria e à paranoia. Eles voltam à nave com a certeza de que a estratégia para novos ataques está perfeita: eles só deram a largada, todo o resto os humanos se encarregaram de destruir.

A narração final, mais ou menos assim, esclarece qualquer dúvida: “Os conflitos não vêm necessariamente com bombas, explosões e consequências. Existem armas que são simplesmente pensamentos, atitudes, preconceitos … que só podem ser encontradas na mente dos homens. Os preconceitos podem matar … e a suspeita pode destruir … e uma busca impensada e assustada por um bode expiatório tem consequências impensáveis. Além da imaginação”.

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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