Estivemos aí!: a última sessão de jazz

Roberto Muggiati penetra na derradeira gig clandestina que, de tão escondida, conseguiu driblar a proibição no Rio de Janeiro

Para ouvir ao som de Estamos aí, com Maurício Einhorn e Toots Thielemans e de It Might As Well Be Spring, com Sarah Vaughan e Miles Davis

Foto: Regina Lins e Silva

Adequadamente, aconteceu num speakeasy. Como um avestruz com a cabeça enfiada na areia, a Taverna Del Mar, também conhecida como Subterrâneo do Gávea Beach Club do Leme, é um bunker encravado na praia de Copacabana. A moça do quiosque acima nos dá uma senha que temos de cantar na janelinha da porta abaixo, preta com a sugestiva descrição de Wine & Speakeasy. Os speakeasies – também chamados blind pigs ou blind tigers, eram os bares clandestinos da Lei Seca dos Estados Unidos (1920-1933), casamatas que serviam aquela cana brava conhecida como “gim de banheira” em xícaras de porcelana, pífio disfarce contra as batidas policiais regulares, na verdade, a cobrança do dízimo. Em resumo, a tal da Prohibition foi o maior porre da História e estimulou a corrupção e o gangsterismo em proporções nunca imaginadas.

Mas estamos no Rio de Janeiro de 2020, exatos cem anos depois do início da Lei Seca. Pode-se beber à vontade, agora cada um na sua casa, o contato físico com outra pessoa equivale ao crime de formação de quadrilha ou de célula terrorista. São os tempos do coronavírus, uma praga desconhecida que se abateu de repente sobre o planeta. Na noite de sexta-feira 13 de março a Taverna Del Mar apresenta um trio fabuloso: o notável harmonicista e compositor Maurício Einhorn (88 anos em 29 de maio), o pianista Osmar Milito (79 em 27 de maio) e o contrabaixista Sérgio Barroso (78 em 16 de junho, coincidentemente o famoso Bloomsday do Ulysses de Joyce).

A Taverna é uma sala aconchegante, com paredes de pedra cobertas de fotos em preto e branco bem emolduradas de estrelas do cinema italiano, Sophia Loren, Alberto Sordi, a maioria ao natural praticando seu esporte favorito: comendo macarrão. O dono é o napolitano Maurizio Ruggiero, Márcia de Andrade – mulher, musa e protetora do grande Osmar Amílcar (Milito) – me contou da sua vida: chegou aqui há 38 anos, amigo de Eumir Deodato e amante da MPB. Começando do nada, construiu três sofisticados quiosques à beira da praia, os Gávea Beach Club da Barra, de São Conrado e do Leme. Além da simpatia da casa, la cuccina è meravigliosa…

A cabeça do show é o Unicórnio (Einhorn em alemão). Maurício, como eu, teve seu gosto musical formado na Era do Rádio, ouvíamos todos os standards americanos através de discos ou do cinema. Pedagogo natural – e que mal há em situar a obra de arte no tempo e no espaço? – ele anuncia o primeiro número: “Just Friends, composta em 1931 por John Klenner com letra de Sam Lewis, como nós aqui esta noite, simplesmente amigos.” Perdoe-me, Maurício, mas não é uma canção de amizade e sim de dor-de-cotovelo, Just friends, lovers no more, just friends, but not like before – o grande amor resvalou para uma mera amizade. Mas entendo que o Maurício, nestes tempos sombrios, queira começar com uma nota de otimismo – a melodia é tão bonita e ele embarca logo nos improvisos, com suas famosas citações, os cacos de mil outras canções de toda procedência que vai injetando na sua bricolagem musical, aqui vem de Yankee Doodle Dandy e It Might As Well Be Spring.

A seguir, a conhecidíssima Stella by Starlight, de Victor Young, que apareceu pela primeira vez, só instrumental, no filme de terror The Uninvited/O Solar das Almas Perdidas (1944), tocada ao piano para a mocinha por Ray Milland. A melodia pedia uma letra, foi escrita por Ned Washington, e a canção decolou: ocupa o número 10 no ranking do jazzstandards.com. Desconhecia o site, a partir de agora toda canção que eu citar será seguida de sua colocação no ranking. Just Friends, que abriu o show, é a 85ª. Realmente, It Might As Well Be Spring (114) está na cabeça do Maurício esta noite e suas doze primeiras notas são citadas assiduamente pelo harmonicista e contagiam até Osmar Milito. Tenho uma história incrível com essa música de Richard Rodgers. A letra de Oscar Hammerstein II diz: “I’m starry eyed and vaguely discontented”. Lendo o conto de J. D. Salinger Just Before the War with the Eskimos, encontrei este trecho: “He stared vaguely, discontentedly, in the direction of the windows.” A junção dos dois adjetivos – vague e discontented – no texto de Salinger na forma duplamente adverbial, não pode ser mera coincidência. (a canção é de um filme e ganhou o Oscar de 1945; o conto foi publicado na revista New Yorker em 1948).

Os jazzófilos brasileiros ouviam muito It Might As Well Be Spring num álbum lançado aqui em 1957 em que Sarah Vaughan era acompanhada por Miles Davis, uma rara concessão: o polêmico trompetista nunca tinha acompanhado cantora antes. Outra coincidência impressionante. A dois quarteirões da Taverna onde Mauricio toca agora, ficava o Fred’s, uma boate em cima de um posto de gasolina, onde aconteceu em agosto de 1959 a estreia brasileira de Sarah Vaughan (claro que cantou It Might). Eu estava lá naquela noite vibrante que batizei de “o último baile da Ilha Fiscal da República” – oito meses depois o Rio deixava de ser a capital federal.

Anos mais tarde, editor da Manchete, encontrei fotos do evento no arquivo preto-e-branco, fiz algumas cópias. Uma delas, em que apareço dançando com uma jovem, me inspirou a ideia de um romance noir que ainda não escrevi (precisaria de muitas quarentenas para botar no papel tudo o que tenho na cabeça…) Sinopse: um jovem repórter deixa por alguns minutos a namorada e vai ao camarim de Sarah tentar uma entrevista. As coisas se complicam, a diva está conversando com Vinicius de Moraes. Quando volta ao salão, quase uma hora depois, a namorada sumiu. Anos depois, editor de uma revista, caem-lhe nas mãos fotos daquela noitada. Numa delas, vê sua namorada dançando cheek to cheek com seu melhor amigo, ele mata a charada… e também o amigo e a ex-namorada.

Fred’s, noite da segunda-feira 9 de agosto de 1959: a Novacap, construtora de Brasília, destronou o Rio. O Rio deu o troco: apelidou-se de Belacap. Sentados à mesa principal, à extrema direita Vinícius de Moraes quase enfia o cigarro em Samuel Wainer (Danuza Leão é a quinta da direita para a esquerda). Também estavam lá, de mãozinhas dadas os pombinhos João e Astrud Gilberto, recém-casados. Assinalado ao fundo, Roberto Muggiati dança de rosto colado com a namorada do amigo. (Foto: Arquivo pessoal)

De volta à Terra: Maurício ataca de Minha Saudade, parceria dos Joões Donato e Gilberto, do mesmo ano de Chega de Saudade, 1958. Eu já a ouvia nas boates de Curitiba na época – Raul de Souza, da banda da Aeronáutica no Bacacheri, a tocava muito – era o hino nacional dos instrumentistas. Por falar em Hino Nacional, é outra das citações do Maurício nesta noite, ele fica devendo a Marselhesa, mas as seis primeiras notas famosas de As Time Goes By (266), do filme Casablanca, surgem uma meia dúzia de vezes. Outro parêntese, desculpem, mas, já que foi mencionado, Victor Young é o autor da canção-título do filme My Foolish Heart(103)/Meu maior amor, o único texto de Salinger (um conto das Nove Histórias) que foi parar nas telas, em 1949, dirigido por Mark Robson, com Dana Andrews e Susan Hayward. O velho J.D. odiou a adaptação e nunca mais quis saber de Hollywood. Já imaginaram a bilheteria do Apanhador no Campo de Centeio? Mas Salinger não precisava de dinheiro e passou os últimos 45 anos de sua vida escrevendo todo dia numa cabana ao lado de sua casa sem publicar nada.

Maurício anuncia um tema de sua lavra, Tristeza de Nós Dois, em parceria com Durval Ferreira e Bebeto. Mas emenda: “Tem uma canção americana de 1930 com quatro autores, Body and Soul. Vamos ouvir antes?” Como estou numa mesa da frente e sou muito metido, esclareço que a música foi composta pelo americano Johnny Green; a letra pelos americanos Edward Heyman e Robert Sour e pelo inglês Frank Eyton. Favorita dos maiores cantores americanos, voltou à popularidade em 2011, graças ao dueto de Tony Bennett e Amy Winehouse (confiram no YouTube a interpretação pungente), foi a última gravação de Amy, ela morreu três meses exatos depois. Existem versões alternativas da letra oficial, usei um trecho de Billie Holiday como epígrafe do meu romance A Contorcionista Mongol: “Unless there’s magic/The end will be tragic”.

Agora que encontrei o ranking dos standards do jazz, fui checar. Não me surpreendi: Body and Soul é o número um. Em qualquer show do Maurício você pode conferir: entre as cinco primeiras citações, estarão sempre Holiday for Strings, do David Rose, e Laura (35), de David Raksin. Desta vez, ele apresenta Laura na íntegra. O diretor do filme, Otto Preminger, queria usar como tema Sophisticated Lady (31) de Duke Ellington, Raksin disse que não tinha nada a ver. Contrariado, Preminger lhe deu um fim de semana para compor a canção. Quando Raskin ia se concentrar no trabalho, sua mulher lhe deu o bilhete azul e se mandou. Apesar do estresse todo, ou por causa dele, criou uma obra-prima, que receberia mais de 400 gravações jazzísticas. Meses depois do lançamento do filme, em 1944, o pianista Erroll Garner a gravava; Stan Kenton em 46, Sinatra em 47, Dave Brubeck em 49, Charlie Parker com cordas em 1950. Mauricio cita Sophisticated Lady nos seus improvisos sobre LauraOh Susannah e Just Friends.

A bossa nova manda o jazz para o banco dos reservas e entram em campo Desafinado (713), Samba de uma Nota Só (533), Corcovado (382) e Wave (a brasileira mais bem ranqueada, em 216). De volta aos standards, a francesa Les Feuilles Mortes (11), de Joseph Kosma com letra do poeta Jacques Prevert, conquistou a América como Autumn Leaves, com a versão famosa de Johnny Mercer. Curioso: a música aparece pela primeira vez tocada à gaita-de-boca por um misterioso personagem (o Destino) e cantada por um jovem Yves Montand no filme de Marcel Carné Les Portes de la Nuit/As Portas da Noite (1946). Maurício faz uma citação bem à propôs de Sous les toits de Paris. Queimando etapas, ele salta para Isn’t She Lovely? (763), de 1976, do colega harmonicista Stevie Wonder (Einhorn forma a Santíssima Trindade do instrumento com o menino-maravilha e o saudoso Toots Thielemans). Chega a hora de Estamos Aí, de Maurício e Durval Ferreira, letra de Regina Werneck, Maurício conta uma piada, de um espectador que certa noite implicou com o título banal, queria algo mais literário. Maurício replicou: “Então, só para agradar ao distinto, vou rebatizar de Estivéramos acolá…” Finalmente, como saideira gloriosa, o Carinhoso de Pixinguinha, uma pequena joia, encerrada com uma citação do Jesus Alegria dos Homens, de Bach.

Maurício é um monstro de vitalidade, Tocou quase duas horas e meia, não economizando sopro e com a agilidade de um prestidigitador no manejo da harmônica. Além das dificuldades do próprio instrumento, tem de mantê-lo o tempo todo acoplado ao microfone de mão. Foi uma noite histórica, já saíamos da sexta-feira 13 quando deixamos a Taverna. No dia seguinte ao show os quiosques do Maurizio foram todos tristemente fechados. A praia está deserta, o próprio show já estava proibido, mas quem iria fiscalizar um misterioso buraco cavado nas areias de Copacabana? Voltamos todos à dura realidade que caiu sobre nós. Uma fusão dos dois maiores flagelos do século 20 – a Gripe Espanhola e a Depressão Econômica, na escala global da Segunda Guerra. Nos tempos do coronavírus – eu uso pela primeira vez o clichê óbvio ululante – aqui jazz…

Mas uma verdade maior se sobrepõe a tudo: saímos do último show com a alma lavada…

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