Ah, vale a pena ser poeta

Waly Salomão e Jards Macalé subverteram a dor de cotovelo e a cornitude com a morbeza romântica

Para ser lido ao som de Olho de Lince, de Waly Salomão

Foto: Arquivo Nacional

Foi com o disco/manifesto Aprender a Nadar que Jards Macalé e Waly Salomão lançaram uma nova proposta estética: a “morbeza (morbidez + beleza) romântica”. O resultado afinou a parceria entre os dois e resultou em 11 composições feitas em conjunto. Todas elas foram reunidas em Real Grandeza, disco/tributo em que Macalé homenageia Waly, que morreu em 2003.

As bases da morbeza romântica se estruturavam na dor de cotovelo, na cornitude – como explicou Augusto de Campos –, e nas composições de Nelson Cavaquinho e de Lupicínio Rodrigues – ou “Lupicínico” como era definido por Macalé e Waly. Era uma espécie de fossa traduzida pelo tropicalismo. Um estilo que não perdia a ironia, a capacidade de rir de si mesmo, como comprova o título do disco – Real Grandeza é uma rua no bairro de Botafogo onde se localiza um dos mais conhecidos cemitério do Rio.

Há duas maravilhas inéditas no CD. Berceuse Criolle, com Maria Bethânia acompanhada por um trio violão-piano-cello. A outra é Olho de Lince, em que a voz gravada de Waly entoa versos que servem como uma continuação de Anjo Exterminado. Se na música dos anos 70, vigiado pela ditadura, Waly falava em “Fecho janelas sobre a Guanabara / Já não penso mais em nada / Meu olhar vara vasculha a madrugada”, anos depois, em tempos de abertura, o poeta grita: “Quando quero saber o que ocorre à minha volta / Ligo a tomada abro a janela escancaro a porta / Experimento tudo nunca me iludo”.

Outro hino daqueles tempos de sufoco, Vapor Barato, gravado pela primeira vez por Gal Costa, ganha uma versão renovada com um arranjo eletrônico pesado do Vulgue Tostoi com Marcelo H (voz e programações), Junior Tostoi (craviola elétrica, craviola elétrica com arco, baixo, programações e edições) e Rodrigo Campello (cordas virtuais, programações, edições). Só com seu violão, Macalé interpreta Rua Real Grandeza, e, acompanhado pelo piano de Cristóvão Bastos, recupera o bolero Senhor dos sábados.

Como a parceria era prolífica também em amizades, Real grandeza serve ainda como encontro musical. Estão lá Luiz Melodia em Negra melodia, reggae com pitadas de samba que tem ainda a participação de Kassin, Pedro Sá e Domenico e do veterano conjunto vocal As Gatas, Adriana Calcanhotto na já citada Anjo Exterminado e Frejat em Mal Secreto, aquela que fala em um dos lemas da dupla: “Não preciso de gente que me oriente”.

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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