Sérgio is fine!

Roberto Muggiati , nosso correspondente mais do que especial, cobre o show da Companhia Estadual de Jazz no Maguje, no Jockey Club do Rio, e emenda num café da manhã com bossa na Firjan, sempre acompanhado de Reinaldo Figueiredo, outro AmaJazz de fé

Para ser lido ao som da Companhia Estadual de Jazz em Chovendo na Roseira

Foto: Klaus Denecke Rabello/Divulgação

Honestamente, já perdi a conta dos anos que acompanho a Companhia Estadual de Jazz (CEJ para os íntimos), é algo tão assíduo como as contas mensais da CEG (Companhia Estadual do Gás) e também perdi a conta das múltiplas locações desta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro em que ela se apresentou. Acho que da primeira vez foi num ambiente glacial de hotel, o Sofitel, no Posto 6 Copacabana. Depois, nas casas casadas de Laranjeiras, lembro que o Reinaldo mencionou que o tema Caravan era do trombonista do Duke Ellington, Juan Tizol, num aparte eu enfatizei: “Trombone de pisto!” Houve o show no festival de culinária Rio Gastronomia, no MAM, onde a CEJ serviu acepipes como A RãO PatoThe ChickenFeijoada CompletaCafé Com PãoChitlins Con Carne e O Ovo do Hermeto Pascoal, e muitas outras iguarias. Um dia eu viajaria com a CEJ de ônibus para a Flipoços, a feira literária de Poços de Caldas, mas à última hora desisti. Eles foram para Montreal, eu fui para Montreux. Certa vez, a CEJ tocava numa casa esquisita na rua General Dionísio, perto da Cobal de Botafogo. Um grupo ruidoso de uma dezena comemorava um aniversário aos berros e abafava totalmente a música. Investi furioso contra a algazarra, baixaram o facho um pouco.

Por algum tempo Guilherme Vianna tocou sax tenor e flauta, era meu colega de aulas com o Mauro Senise, ele evoluiu, eu parei. Nos últimos anos, firmou-se a formação hard core da CEJ, com Reinaldo Figueiredo ao baixo, Fernando Clark, guitarra elétrica, Sérgio Fayne nos teclados e Chico Pessanha à bateria. Meu local favorito foi a Garrafaria Assis, um botequim chique de Laranjeiras no prédio construído onde ficava a casa de Machado de Assis – além das vibrações do Bruxo do Cosme Velho, havia a garrafaria em si, a CEJ tocava num nicho semicircular que parecia um altar, coberto de garrafas do teto ao chão, Reinaldo diz que foi a melhor acústica que encontrou na vida.

Minha camaradagem com a turma aprofundou-se quando a CEJ tocou no lançamento do meu livro sobre jazz Improvisando Soluções, na livraria Da Conde, no Leblon, na noite de 8 de outubro de 2008, o cachê do grupo foi pago em livros. E ainda houve uma canja insólita, meu amigo Bernard Fines veio correndo do bar da Lagoa onde se apresentava e cantou com a CEJ um inesquecível Les Feuilles Mortes – grande chansonnier do jazz le vieux Bernard, hoje em Paris. Na foto que fixou a noite, apareço tocando os teclados da bela capa do livro, na companhia de Fernando Clark, Sérgio Fayne e Reinaldo. (Sérgio aparece na grande forma de sempre no vídeo inserido nesta matéria.) Eu tinha uma imagem terna do Sérgio como uma espécie de tio do Reinaldo, na verdade era uma espécie de irmão mais velho do grupo, morreu com 72 anos, o Reinaldo vai fazer 69. E desconhecia tudo o que foi e o que fez, soube só agora, pelo Reinaldo: “Nos anos 60 e 70 fez parte do quarteto de flautas que acompanhava Tom Jobim. (Um dia, ensaiando na casa do maestro, atendeu ao telefone. Do outro lado alguém disse que Frank Sinatra queria falar com o Tom, Sérgio desligou achando que era trote. Levou o maior esporro do maestro.)  Também acompanhou ao violão Nana Caymmi, Leny Andrade e Roberto Carlos. Fez jingles, publicidade, produção musical e depois, não se sabe bem porque, acabou virando restaurateur e abriu o Árabe da Gávea. Só ele, um judeu de sobrenome Davidman, para prestigiar a culinária árabe. O tempo passou e, nos anos 90, de repente, Sérgio resolveu ser pianista. E não é que deu certo?”

No lançamento do livro de Muggiati (Divulgação)

O show da CEJ na noite de 12 de março, no Maguje, teve uma nota triste: foi dedicado a Sérgio Fayne, morto no dia 3. Há meses ele já não vinha tocando mais e foi substituído à altura pelo brilhante jovem Natan Gomes. O Maguje é uma cervejaria na esplanada de restaurantes dentro do Jockey Club do Rio. Nas noites de corridas, você pode acompanhar os cavalinhos correndo enquanto ouve boa música e toma um bom vinho. Lembrei do poema que Manuel Bandeira compôs em meados dos anos 30 almoçando no restaurante do Jockey. E fiz uma paráfrase dedicada ao Sérgio Fayne:

RONDÓ DOS CAVALINHOS (Manuel Bandeira, in Estrela da Manhã, 1936)

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, jazzeando…
Tua beleza, Esmeralda,
Acabou me enlouquecendo.

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, jazzeando…
O sol tão claro lá fora
E em minh’alma — anoitecendo!

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, jazzeando…
Sérgio Fayne partindo,
E tanta gente ficando…

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, jazzeando …
O Trump falando grosso,
O mundo se avacalhando…

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, jazzeando…
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo…
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minh’alma — anoitecendo!

Um ambiente espaçoso e arejado, com os shows ao ar livre, o Maguje estava praticamente deserto naquela noite – era já o jazz nos tempos do coronavírus. O repertório prazeroso de jazz e bossa que Sérgio tocava tão bem, Rapaz de Bem (Johnny Alf), Sambou, Sambou (João Donato), Speak Low, o bopblues Billie’s Bounce – eu tinha lembrado a Reinaldo que era a noite dos 65 anos da morte de Charlie Parker). No segundo set, após uma sucessão de canções da bossa, provoquei o Reinaldo: “Algo do deserto! Night in Tunisia ou Caravan!” A CEJ atacou de Caravan, aquele clássico incrível do songbook de Ellington.

Reinaldo queixou-se que tinha de acordar muito cedo, a CEJ tocaria no café da manhã com bossa abrindo uma jornada de palestras destinadas a levantar o astral do Rio. Repórter de jazz ainda cheio de gás aos 82 anos – 66 de jornalismo se completariam dali a dois dias, nos idos de março, a vida é uma reportagem – imprensei o Reinaldo: “Peraí, cara, tô nessa, se você nunca tocou num café da manhã eu também nunca cobri um café da manhã com jazz e bossa.” Às oito em ponto eu já estava lá, apesar da meia garrafa de vinho no Maguje e dos copos de vodca com água de coco em casa, vendo filme noir até as três da manhã. Na Firjan temos a conexão Jockey Club também. Ela ocupa a área do velho palacete de Botafogo, na rua São Clemente, que pertenceu a Líneu de Paula Machado, criador de cavalos e, durante anos, presidente do Jockey. Casado com uma Guinle, o gentleman Lineu morreu em 1942, aos 61 anos, num desastre aéreo entre São Paulo e Rio, depois de assistir à vitória de uma égua de sua criação. Teria declarado após a corrida: “Agora já posso morrer”.

O café da manhã acontece num amplo salão no anexo de vidro e concreto recém-construído ao lado do palacete. Sexta-feira 13, lembrou Reinaldo, sugeri que tocasse Friday Thirteenth do Thelonious Monk. “Só bossa, o lance é levantar o Rio.” Tudo muito estranho: o pânico da pandemia já enfiou o Rio e o resto do mundo no fundo do poço – gosto da palavra de origem árabe nadir, cujo prefixo nad tem ligação com o sânscrito e significa “fluxo do nada”. Sobre uma mesa imensa xícaras brancas de porcelana e garrafinhas de água de PVC, enfileiradas como soldadinhos, ladeiam com pacotes de biscoito de polvilho Globo, doces e salgados, nas clássicas embalagens vermelha e verde, parecendo sacos de cimento de proteção contra artilharia. A reunião não deixa de ser um aglomerado, com seus executivos, burocratas subalternos, trainees, ternos e mochilas, muitas mulheres também – todos imersos no café e nos biscoitos de polvilho, ou se olhando narcisicamente no espelho do smartphone, a música entra por um ouvido e sai pelo outro da maioria, se eu não aplaudo ao fim de cada tema ninguém aplaudiria. Não sabem o que estão perdendo, pequenas joias cariocas com o trio (a bateria foi dispensada, a Firjan exige um som suave), WaveSamba de VerãoSambou Sambou, do João Donato; Só Danço SambaO PatoRapaz de Dem, do Johnny Alf; Chega de Saudade – e chega, os discursos motivacionais já vão começar. Um dos últimos temas da CEJ foi o genial Estamos Aí, o hino de guerra da bossa, do Maurício Einhorn, Minha deixa para a próxima parada. Naquela noite da sexta-feira 13 eu iria à Taverna Del Mar, um bunker cavado na areia da praia do Leme, para ouvir a harmônica do Maurício, o piano do Osmar Milito e o contrabaixo do Sérgio Barroso. Mas isso fica para a próxima postagem, Finalizo com um brinde ao bravo guerreiro dos teclados, um trocadilho bilíngue de gosto duvidoso, mas sincero no seu tom de celebração da vida: Sérgio is Fine!

Nenhum pensamento

  1. O Sergio era uma pessoa adorável – nada menos: “ADORÁVEL”, e tão generoso pra mim pessoalmente. Nunca vou esquecer ele nem o amor e alegria ele levou pela música. Vai fazer muita, muita, falta mesmo. Gostei tanto desse tributo – e a poema… PALMAS e L-A-G-R-I-M-A-S! Muitas lagrimas!

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