O criminoso sempre volta ao local do crime

Roberto Muggiati investiga no Manouche, no Rio de Janeiro, a homenagem aos 60 anos de Kind of Blue, obra-prima de Miles Davis

Para ser lido ao som de Miles Davis em Kind of Blue

Foto: Regina Lins e Silva

A “reconstituição do crime” – é assim que os jazzistas, com seu humor noir, se referem à encenação de álbuns célebres. Sábado, 7 de março, no Manouche, casa de jazz dentro do hipódromo da Gávea, no Rio de Janeiro, um grupo de feras do instrumental brasileiro celebrou o álbum lendário de Miles Davis, Kind of Blue. Uma homenagem parecida já fora feita em 2010, numa série de “shows-palestras” chamada Clássicos do Jazz ao Vivo, Além de Kind of Blue, o quarteto de Ana Beatriz Azevedo (piano), Lipe Portinho (contrabaixo), Daniel Garcia (sax) e Renato Massa Calmon (bateria), outros quatro espetáculos focaram os álbuns Giant Steps (John Coltrane), Speak No Evil (Wayne Shorter), Song For My Father (Horace Silver) e Time Out (Dave Brubeck).

Kind of BlueTime Out, e também Mingus Ah Um foram todos gravados em 1959 em “The Church”, o lendário estúdio da Columbia na Rua 30 de Nova York – construído nas antigas dependências da Igreja Evangélica da Armênia – onde, entre 1948 e 1981, nasceram obras-primas como a trilha de West Side Story, o último álbum de Billie Holiday, o primeiro álbum de Glenn Gould e o Matita Perê de Tom Jobim, além gravações de Stravinski, Horowitz e Bob Dylan.

Algumas histórias de Kind of Blue:

Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
  • O piano das sessões de 2 de março e 22 de abril era “o Steinway de Brubeck”. Dave tocava com tanta força que o feltro dos martelos nas cordas agudas estava gasto, só um pianista miraculoso como Bill Evans conseguiria extrair notas de uma pureza cristalina.
  • Miles tinha demitido o pianista Red Garland, por se recusar a tocar em Philadephia – se pisasse na cidade seria preso por não pagar pensão alimentícia – e recorreu a Wynton Kelly. Para Kind of Blue, ele convocou Evans, tal sua afinidade musical, Bill co-assina com Miles Blue in Green e Flamenco Sketches. Mas Wynton ainda era o pianista contratado do grupo e se surpreendeu ao ver um branco sentado ao piano. Miles o acalmou e escalou numa das cinco faixas, Freddie Freeloader.
  • Numa época de radicalismo racial, Miles era muito cobrado por acolher, no importante posto de pianista, um branco. Miles insistia: “O talento não tem cor.” E segurou Evans enquanto pôde. Bill, Cannonball e Coltrane, estrelas de brilho próprio, logo deixaram Miles para seguir suas próprias carreiras.
  • Nenhum dos músicos conhecia os temas, Miles apenas passava breves indicações antes de gravar. Manteve seu esquema de nunca ensaiar e gravar cada faixa numa só take. A única alternate take, a de Flamenco Sketches, lançada 27 anos depois, não difere muito da original.
  • Uma triste estatística pesa sobre o álbum, a morte prematura da maioria dos músicos: Paul Chambers aos 33 anos (em 1969); Wynton Kelly aos 39 (1971); Coltrane aos 40 (1967); Cannonball aos 46 (1975); Evans aos 51 (1980). O próprio Miles se foi relativamente cedo, aos 65 anos, em 1991. A exceção é o baterista Jimmy Cobb, ainda ativo aos 91, que liderou turnês comemorativas dos 50 e dos 60 anos do álbum.

A noite no Manouche foi a 40ª produção do CJUB (Charuto Jazz Uísque Bossa) – a primeira aconteceu em maio de 2003, com um quinteto que incluía o trompetista Jessé Sadoc, um dos três do Summit da noite (assim como o baterista Fernando “Massa” Calmon participou em 2010 do show-palestra de Kind of Blue na Sala Baden Powell. O primeiro set foi uma reconstituição fiel dos cinco temas do disco. Na abertura de So What, o pianista Marcos Nimrichter e o baixista Jeff Lescowich reeditam o famoso dueto de Bill Evans e Paul Chambers. Os saxofonistas Danilo Sinna (alto) e Marcelo Martins (tenor) interpretam admiravelmente, em timbre e fraseado, os solos de Cannonball Adderley e John Coltrane. Nimrichter transfigura-se do vinho para a água mimetizando o solo de Wynton Kelly em Freddie Freeloader. Um dos três trompetes-líderes – Guilherme Dias Gomes, Altair Martins, Jessé Sadoc – transcreve o solo original de Miles. Missão cumprida, os atores de Kind of Blue concedem um pequeno intervalo.

O mestre de cerimônias, David Benechis (Bené-X), anuncia o segundo set como uma espécie de Another Kind of Blue. Os músicos, principalmente os trompetes, rompem a camisa-de-força da reconstituição quase museológica do primeiro set e se soltam numa espécie de jazz pauleira em que desconstroem – ou melhor, implodem – a paciente bricolagem modal de Miles Davis, numa farra de ritmos que vai do dixieland à gafieira, do funk ao forró, para o delírio da maioria da plateia. Já os jazzófilos mais ortodoxos tenderiam a chamar essa parte do show de Unkind of Blue. Mas, lembrando o “toda unanimidade é burra” de Nelson Rodrigues, também toda veneração exagerada corre o risco de ser burra ou resvalar para o fanatismo.

O Manouche é uma cave pequena com um palquinho de circo de pulgas. Não sei como se sairá daqui para frente nestes tempos histéricos de coronavírus. Mestre Bené-X, do CJUB anunciou empolgado as próximas atrações: os cem anos de Dave Brubeck em 11 de abril; os cem anos de Charlie Parker em agosto com um show Parker with Strings; e a reconstituição do famoso álbum The Count Meets the Duke. com a Baixada Jazz Big Band, de dezessete figuras. Alguém perguntou se toda aquela gente e seus instrumentos caberia no palco 4 x 4 (metros) do Manouch. Mestre Bené-X garantiu que sim. Lembrei então que The Count Meets the Duke juntava duas big bands, a de Basie e a de Ellington, ou seja, quase quarenta figuras.

Enfim, acompanhem os próximos capítulos, estaremos atentos no pedaço.

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