Quando suas preces são atendidas

Truman Capote ensina que talento da escrita também pode se transformar num chicote a ser usado especialmente na autoflagelação

Para ser lido ao som de Sleepin’ Bee composição de Truman Capote na voz de Tony Bennett

Foto: MOSCOT/CC BY-SA/Wikimedia Commons
Foto: MOSCOT/CC BY-SA/Wikimedia Commons

Esquecido e solitário, Truman Capote morreu abandonado por todos aqueles que ao longo de quase quatro décadas paparicou e ajudou a exaltar. Estava só, hospedado na casa de Joanne Carson (ex-mulher de Johnny Carson), sem nenhum dos antigos amigos. Também morreu sem conquistar algo que perseguiu por toda a vida: o desejo de ser para a sociedade e para a literatura americana o que Marcel Proust representou para a França. Jamais produziu algo semelhante a Em Busca do Tempo Perdido, mas não fez pouco: deixou uma obra relativamente curta – dividida entre romances, contos, ensaios, entrevistas, peças e canções – e marcou de forma definitiva o cenário cultural e mundano dos Estados Unidos. Mais: chamou a atenção para suas opiniões ferinas e desaforadas e para sua incrível capacidade de catalisar ódios e paixões. “Não sou tão inteligente, culto e sensível quanto Proust, mas meus olhos são tão bons quanto os dele. Se Proust fosse um americano e vivesse hoje em Nova York estaria fazendo isso”, admitiu.

Quem soube captar boa parte do que Capote fez e pensou durante os 59 alucinantes anos que viveu foi o jornalista Gerald Clarke, ex-repórter especial da revista Time e autor da biografia que chegou às livrarias brasileiras no começo os anos 90, quase dez anos depois da morte do escritor. Capote: Uma Biografia é fruto de anos de pesquisa e de entrevistas com centenas de amigos, quase amigos, ex-amigos e inimigos de Capote. “Nunca ouvi falar de uma pesquisa assim. Não quero ler, mas certamente esse cara sabe mais sobre mim do que qualquer outra pessoa, inclusive eu mesmo”, admitiu Capote, quando soube que Clarke havia começado a fazer o livro.

Clarke começa em Nova Orleans, onde Capote nasceu em setembro de 1924 e conta tudo sobre o menino filho de Arch Persons, um aventureiro que não parava em emprego algum e estava sempre atrás de dinheiro fácil. Sua mulher, Lillie Mae, bem mais nova que o marido, também só pensava em dinheiro. O casamento não deu certo desde o primeiro dia. Passou a infância pulando de casa de parente em casa de parente e na adolescência – já morando com o segundo marido da mãe, o cubano Joe Capote que lhe deu o sobrenome – descobriu Manhattan.

Cativante, bom dançarino e com uma conversa capaz de convencer uma cascavel a abrir mão de seu chocalho, Capote virou um must e colecionou uma lista infindável de amigos que pareciam o who’s who da sociedade nova-iorquina – de Vanderbilt e O’Neill a Guinness e Bouvier, todos estavam encantados com aquele enfant terrible. Precoce em tudo, Capote conseguiu seu primeiro emprego na The New Yorker aos 16 anos como office-boy. Chamou a atenção mais pela voz e pelos trejeitos exageradamente efeminados do que pelos seus escritos, que só foram notados dois anos depois quando a revista Mademoiselle publicou o conto Miriam.

Sem nenhum livro editado, mesmo assim foi saudado como o escritor revelação de 1946. Seus passos rumo ao caminho proustiano começaram com a publicação de Other Voices, Other Rooms, mas o interesse maior foi despertado pela lânguida foto de Capote na contracapa, “lindo como um elfo”. Não parou mais. Emplacou entrevistas, perfis – alguns históricos como os de Marlon Brandon e Marilyn Monroe –, roteiros para filmes e peças, e uma pequena obra-prima, Bonequinha de Luxo, criando Holly Golightly, uma espécie de irmã espiritual de Sally Bowles de Adeus a Berlim, de Christopher Isherwood. Chegou ao ápice com A Sangue Frio, retrato brutal sobre o assassinato de uma família do Kansas por dois rapazes. Capote mergulhou por seis anos no caso, mudou-se para a cidade onde a família vivia, conheceu e ficou amigo dos assassinos e escreveu um livro que era diferente de tudo que já havia sido feito. Inaugurou o new journalism, mas a partir daí passou a se preocupar mais em trocar alfinetadas com possíveis seguidores – Norman Mailer e Gore Vidal, principalmente – do que em escrever.

Entrou numa roda viva. Viajava por todo o mundo, frequentava festas em Veneza, Paris, Londres e Nova York (onde organizou o fantástico baile de máscaras do Hotel Plaza), se drogava e bebia hectolitros de vodca e martini. O Truman Capote dos anos 80 seria mais lembrado como figura pública do que como escritor. Era o personagem das grandes festas, dos escândalos, dos porres, das noites loucas no Studio 54. Era o enfant terrible que havia se transformado em um gordo bêbado e decadente, inconveniente com quem o cercava e ingrato com quem ele havia durante anos paparicado. Como já estava há mais de uma década na história da literatura e do jornalismo, desde a publicação de A Sangue Frio, Capote podia dar-se ao luxo de apenas sinalizar o que viria a ser o seu próximo livro, o inacabado Answered Prayers.

De madrugada, sentava na máquina e escrevia, alardeando que estava concluindo a sua obra única. Ficou só na promessa e em alguns capítulos que forma publicados na Esquire. Um deles, La Cote Basque, o indispôs com todos que o cercavam por expor com crueza e maldade todas as idiossincrasias do high society internacional. Não era literatura, era fofoca, e foi o suficiente para que todos o abandonassem. As preces atendidas de Capote não avançavam. Assim, Música para Camaleões surgiu como uma prestação de contas aos leitores pelo fracasso de Answered Prayers. Nunca se soube se Capote se sentiu pressionado ou se havia esgotado sua capacidade de interpretar (maldosamente) a vida cotidiana dos Estados Unidos.

Se em A sangue frio Capote preconizava a observação distante, em Música para Camaleões ele se colocava no centro dos acontecimentos. Narrador e protagonista das histórias, algumas delas apenas trechos de diálogos, Capote muitas vezes apenas reproduzia conversas travadas com amigos e conhecidos.

Em Uma Criança Linda, Capote recorda o encontro com Marilyn Monroe – que aparece dançando com ele na foto de capa do livro – durante o velório da atriz inglesa Constance Collier, em 1955. Em Um Dia de Trabalho, Capote acompanha sua faxineira em uma tarde de limpeza pelas casas de outros patrões em Nova York. O relato mais longo é a novela Caixões Entalhados à Mão – na primeira edição brasileira, em 1981, o texto tinha o título de Pequenos Ataúdes – em que narra a investigação de uma série de assassinatos em uma cidade do interior.

Música para Camaleões é também o livro mais reflexivo do autor. Ao mesmo tempo que acenava com a conclusão de Answered Prayers, Capote fazia um balanço da sua vida e da sua obra. E constatava: “A escrita é um amo nobre, mas impiedoso. Deus quando nos dá um talento, também nos entrega um chicote, a ser usado especialmente na autoflagelação”.

Capote, sem saber, fazia o seu testamento. Continuava com prestígio e com dinheiro (usado cada vez mais para sustentar homens que o cercavam), mas estava mais solitário.

“Estou com frio”. Foi a última coisa que disse para a amiga Joanne Carson.

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