Um soco certeiro|

Hector Aguilera, nosso homem no Chile, estreia na AmaJazz falando sobre seu conterrâneo, o trompetista Cristian Cuturrufo

Para ser lido ao som de Cristian Cuturrufo em Caravan

Circula o boato de que em 2007, numa noite quente no bairro Bellavista, em Santiago, uma figura volumosa atravessava velozmente de um lado para o outro as ruas que ligavam dois bares de jazz do setor. Dizem que a música e o swing nunca foram silenciados em toda a madrugada nessa maratona frenética que durou até o amanhecer. O protagonista? Cristian Cuturrufo, trompetista, à época com 35 anos e já um nome respeitado na cena jazzística chilena. No total foram sete apresentações em sequência numa jam quase eterna que ainda ecoa e se comenta na cidade.

É assim mesmo. Falar de Cuturrufo é falar de intensidade. Não sei se sua técnica é precisa ou não. Sei é que existe sentimento, cores e mood. O homem é instruído. Formou-se na Universidade Católica como intérprete, mas foi a noite, a rua e, mais precisamente, a paisagem de sua cidade natal que deu forma, tom e som ao artista. Coquimbo, seu berço, é um porto do norte do Chile de escassa beleza, becos irregulares que serpenteiam morros e montanhas e depois se perdem na misteriosa aridez do deserto do norte. Monotonia que não tem muito a ver com a intensidade que sua noite de portuária teve e que deu origem a uma cena particular de bons músicos, como Cuturrufo. Seu pai é reconhecido acordeonista e o jovem Cristian, com seus irmãos, desde criança soube formar grupos que atravessam fronteiras incertas entre, por exemplo, a música religiosa – o norte e sua enorme devoção à figura da Virgem de Andacollo – e as formações boêmias que animavam suas sempre suspeitas boates, lugares onde foi se gestando vigorosamente uma carreira sólida e reconhecida nacional e internacionalmente. O público de Porto Alegre poderá ter uma noção maior do talento do trompetista no próximo 30 de abril, Dia Internacional do Jazz, quando o músico fará uma única apresentação no Instituto Ling.

Cristian Cuturrufo passeia com grande liberdade entre o jazz latino, pelo qual se apaixonou em várias viagens a Cuba, o bebop, o swing das grandes orquestras e o cool jazz. Desde 2000, ele montou várias bandas que trabalham em torno de sua personalidade única e exuberante e sua assombrosa velocidade para encarar solos e improvisações explosivas.

O jazz chileno é uma comunidade pequena, mas orgânica, viva. Associações temporárias entre músicos são frequentes e ajudam a manter um circuito não muito extenso, mas fiel. Vive sempre na corda bamba, se organiza em pequenos clubes, festivais e caça turnês ao exterior com muito esforço. Isso explica, em parte, que Cristian Cuturrufo tem estado mais ocupado nos últimos anos como produtor do clássico Las Condes Jazz Festival e gerenciando seu próprio local, o Jazz Corner, no bairro Italia de Santiago. O resultado é que acaba tendo pouco tempo livre tem para desenvolver material novo e original entre tanta ocupação.

Sua discografia, iniciada no começo do século, conta até agora com dez obras. A mais recente é Socos, lançada em meados do ano passado e que recupera material que fazia parte de seus primeiros repertórios e gravações. Inspirado pelas paisagens da costa rochosa e seca perto do seu Coquimbo natal, no norte do Chile, Socos é a única peça nova neste trabalho e que, nas palavras de Cuturrufo, aborda o soul que caracteriza o som de Miles Davis entre 1965/1970. É um álbum valioso em seu ecletismo ritmico e também devido à quantidade de músicos muito bons que acompanharam o trompetista em momentos diferentes, como Christian Gálvez, Federico Danneman, Jorge Díaz, Marco Aldana, Alejandro Espinoza, Pancho Molina e o mítico trombonista Héctor “Parquímetro” Briceño, falecido em 2018. Socos tem uma solidez e uma coerência raramente exibidas na cena do jazz chileno.

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